Grande nome do rock alternativo nos anos 2000, The Rasmus retorna ao Brasil após oito anos para uma única apresentação. O grupo finlandês se apresenta em 31 de outubro com a WEIRDO TOUR no Carioca Club, em São Paulo – ingressos à venda no site Uhuu!.
Em entrevista ao Wikimetal, o vocalista Lauri Ylönen falou sobre os motivos responsáveis por afastarem a banda do país por tanto tempo, a preparação para uma turnê que conta com 38 shows em 60 dias, o conceito de WEIRDO, álbum mais recente da banda e mais. O músico ainda falou sobre o sucesso do hit “In The Shadows”, o processo de adaptação ao grupo com as mudanças da indústria musical e se já estão trabalhando em um novo álbum. Leia na íntegra.
Wikimetal: A apresentação que acontece no próximo mês marca o retorno do The Rasmus ao Brasil após longos oito anos. Quais foram as principais razões que afastaram a banda do país por tanto tempo assim?
Lauri Ylönen: Bem, é um país muito distante. Nós viemos da Finlândia, que fica literalmente no lado oposto do planeta. Estou muito feliz por podermos voltar, e o Brasil é um ótimo país para fazer shows. Todos os músicos sabem disso, por isso estamos empolgados. Acho que oito anos parece muito tempo, mas, em perspectiva, na história da banda, estamos juntos há mais de trinta anos, então oito anos não é quase nada. Estamos muito animados para voltar.
WM: Falando em números, a WEIRDO TOUR chama a atenção pelo fato de que vocês realizarão 38 apresentações em 60 dias em 13 países diferentes, o que dá uma média aproximada de quase um show a cada dia e meio. Como é o processo de preparação para uma jornada tão intensa assim na estrada?
LY: Acho que a principal coisa que tem que estar ali é uma boa vibração. Nós somos bons amigos dentro da banda, quase nos consideramos uma família. E também a equipe que viaja com a gente, são pessoas muito próximas de nós. Alguns deles viajam e trabalham para nós há trinta anos. Por isso, o clima é bom, todo mundo gosta do que faz e nós adoramos de verdade tocar nos shows. Esse é o ponto de partida para conseguirmos lidar com dois meses na estrada. E a outra coisa é perceber que eu já não tenho 20 anos, não posso beber até às seis da manhã todos os dias. Tenho que tentar ter uma vida um pouco mais saudável.
E, de fato, passei a valorizar a razão de sermos capazes de fazer isso, e tento focar em poder entregar o show perfeito todas as noites. É só isso que me importa. Não me importo com o que mais acontece durante o dia, desde que consiga fazer o show perfeito e dar o meu melhor ao público. Então, eu construo o meu dia desde a manhã, tentando evitar tudo o que seja negativo e coisas bobas, guardando a energia para mim. Costumo escrever músicas na maior parte do tempo durante o dia. É muito inspirador estar em turnê, ter muitas ideias, fazer os shows, conhecer os fãs, viajar, todas essas coisas. E depois tentar buscar o melhor show noite após noite.
WM: O álbum mais recente de vocês, WEIRDO, aborda temas de identidade, autenticidade e pertencimento. O que os inspirou a explorar o sentimento de ser um “estranho” neste momento específico da jornada da banda?
LY: Nós nos consideramos estranhos em nossa vida toda. Começou quando eu era um jovem adolescente. Eu sempre me vestia de uma forma muito excêntrica, com cabelos de cores diferentes, penteados diferentes, e ia para a escola. Em alguns dias usava chifres, e estava sempre brincando com o meu visual, usando maquiagem e coisas assim. Sofria um pouco de bullying, e alguém costumava me chamar de “weirdo”, mas eu sempre me senti forte para manter a cabeça erguida e continuar sendo como sou.
E acabei enviando uma mensagem a todas as outras pessoas como eu para me encontrarem. É quase como um convite; a forma como você se veste, o tipo de música que você gosta, é assim que você cria conexões, e foi assim que fiz amizade com os meus colegas de banda no início. E acho que ainda estamos nesse mesmo caminho. Essa é, de certa forma, a principal mensagem da banda: ser um pouco azarão e estranho, mas também encontrar conforto e alegria em pertencer a esse grupo.
WM: O processo criativo de WEIRDO teve o envolvimento de dois grandes compositores: Desmond Child e Marti Frederiksen. Como foi trabalhar em conjunto com autores de alguns dos maiores sucessos na história do hard rock?
LY: Tive a sorte de trabalhar com o Desmond já há muitos anos. A primeira vez que compusemos um álbum juntos foi em 2007, quando fizemos o álbum Black Roses. Desde então, somos grandes amigos e tentamos nos ver pelo menos uma vez por ano. Temos a tradição de ir à Grécia. Há uma ilha lá chamada Folegandros, que é minúscula e nada muito famosa. Mas é um lugar muito calmo e tranquilo onde normalmente vamos para compor. E se tornou uma tradição nos encontrarmos lá todo mês de junho.
Além de ser um parceiro de composição, ele é também um grande amigo e quase uma figura paterna para mim. Ele é mais velho, obviamente, mas também tem mais experiência de vida, e é bom conversar com ele sobre qualquer coisa. Seja sobre política, sobre amor ou sobre ser um “weirdo”, ele já viu de tudo. Por isso, é bom ter um amigo como ele para me guiar um pouco na vida de vez em quando. Eu o considero meu mentor.
WM: “In The Shadows” deixou de ser apenas um clipe de sucesso na MTV para se tornar um hino geracional. Como a relação pessoal de vocês com essa música evoluiu desde que o Dead Letters se tornou um sucesso até os dias de hoje?
LY: Quando escrevemos essa música, eu nem sequer pensei que ela fosse um single. Era apenas mais uma das faixas, e até achei que era um pouco irritante, com aquele “uh oh, uh oh”. Eu dizia: “não consigo tirar essa coisa da cabeça”. Acho que demorei para perceber que tinha algo de especial nela. Mas acho que a razão pela qual ainda continua popular é que a mensagem da canção nunca envelhece.
As pessoas sempre estarão perdidas, com medo do futuro, sentindo que não pertencem a algum lugar e estão tentando encontrar o seu caminho através das dificuldades. Portanto, essa é uma mensagem que conversa com as pessoas geração após geração. Mas também acho que essa música tem uma energia especial, o ritmo é muito pulsante, é quase um convite para dançar. Todas essas coisas juntas fazem com que seja uma faixa muito única, e por isso é que acho que ela ainda soa atual após todos esses anos.
WM: Quando a banda começou, a música era impulsionada pela rádio e pelas vendas físicas de CDs. Hoje, a indústria é movida por algoritmos e pelo consumo em plataformas de streaming. Como foi o processo de adaptação da banda a esse modelo, especialmente levando em conta que o rock é um gênero que tradicionalmente sempre exigiu uma imersão mais profunda por parte do ouvinte?
LY: Sim, nós vimos essa mudança de perto e eu, sinceramente, adorei cada etapa. Acho que é justo que as coisas se desenvolvam em novas direções e não quero ficar preso ao passado. Fico feliz que a música esteja disponível para que todos a encontrem. Mesmo como um jovem artista, você pode compor uma música no seu quarto e ela pode se tornar um grande hit mundial se as pessoas gostarem. O público tem o poder de compartilhá-la e escolher o que se torna popular.
Antigamente, era mais a rádio que empurrava as músicas de sucesso e dizia: “neste verão, todo mundo vai ouvir essa música e vamos fazer dela um hit”. Nós tivemos a sorte de estar lá no início dos anos 2000 e ser uma dessas bandas. Mas acho que essa nova era é mais justa. Não há tanto dinheiro envolvido como requisito para você conseguir ficar muito famoso. Se você escrever uma música boa, será ouvido, as pessoas vão te descobrir.
WM: Como você comentou sobre o início dos anos 2000, estamos assistindo a um forte renascimento da estética e da música dessa época. Como a banda vê o seu papel como influência para uma nova onda de artistas de rock alternativo e pop rock que está surgindo agora?
LY: Tem sido divertido acompanhar o retorno da cena rock e emo da qual fazíamos parte no início dos anos 2000. Normalmente dizem que as coisas andam em ciclos e demoram cerca de 20 anos para algo voltar. Já se passaram praticamente 20 anos. O Linkin Park, o Evanescence e todas essas bandas estão arrasando nos palcos novamente. E obviamente surge música nova, as pessoas ainda são influenciadas por aquilo, mas adicionam algo novo, o que é maravilhoso.
Acho que esse estilo de música sombrio e misterioso sempre conversa com as pessoas, com um pequeno toque adicionado, como elementos urbanos, igual o Sleep Token, por exemplo, que mudou bastante o jogo. Adoro isso, é muito bom que as coisas não se repitam, mas sim evoluam. As pessoas são corajosas o suficiente para tentar coisas diferentes e o público gosta quando alguém traz algo novo para a mesa.
WM: Vocês já estão compondo ou discutindo ideias para um novo álbum? O que os fãs podem esperar do The Rasmus depois que essa turnê terminar?
LY: Nós já começamos o novo álbum. Estive compondo músicas constantemente durante os últimos dois anos e já gravamos algumas coisas com a banda. O plano é trabalhar entre as turnês. Agora temos esses dois meses, depois vem a época de Natal livre, quando vamos para o estúdio em Los Angeles gravar mais músicas. E depois temos a última parte da turnê em fevereiro e março na Europa, e isso praticamente encerra o ciclo deste álbum.
Depois disso, acho que será a hora de dar os toques finais ao próximo disco e continuar. Sentimos que não devemos esperar tanto tempo pelo próximo álbum, queremos avançar mais rápido porque nos sentimos muito energizados e felizes, e sentimos a alegria de tocar noite após noite. Sentimos que temos que continuar.
WM: Para encerrarmos, qual mensagem o The Rasmus gostaria de mandar aos fãs brasileiros antes do show?
LY: Obrigado por esperarem pacientemente durante oito anos. Temos conversado com muitos de vocês online e sentimos que as pessoas estão mesmo esperando por nós. O sentimento é recíproco. Tivemos momentos ótimos no Brasil antes, e acho que agora, depois de um pouco de espera, vai ser incrível e vamos nos divertir muito.
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