Com apenas quatro anos de carreira, o Chained Saint desponta como um dos nomes de maior destaque dentre bandas da nova geração no metal.
Formado no Sul da Flórida, o quarteto de thrash metal formado pelos jovens músicos Sean Sterling (vocal), Ethan Kahn (guitarra), Cameron Cottrell (bateria) e Sebastian de Avila (baixo) já conta com grandes feitos em sua jornada, incluindo elogios de grandes nomes do estilo como Rob Halford, vocalista do Judas Priest, e principalmente de Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura, banda a qual o grupo norte-americano considera sua principal influência.
Tendo William DuVall, vocalista do Alice in Chains, como produtor de Blindside (2022), seu disco de estreia, a banda lançou em outubro, seu mais novo trabalho, o EP Rise to Fall, tendo como destaque as faixas “Punk” e “Drive”, colocando o Chained Saint ainda mais na lista de bandas mais promissoras da atualidade.
Em entrevista ao Wikimetal, Ethan Kahn e Sean Sterling falaram sobre o papel de o grupo resgatar a urgência do estilo para a juventude atual, os principais conselhos adquiridos ao trabalharem com DuVall, a motivação por trás da composição de suas letras e muito mais. A dupla ainda falou sobre os elogios que recebeu e de como foi para Ethan dividir o palco com Andreas em show do Sepultura realizado na Cidade do México em outubro. Leia na íntegra.
Wikimetal: Vocês começaram a banda muito novos, em 2022. O que atraiu vocês especificamente para a energia crua e orgânica do thrash metal dos anos 80, em vez das vertentes modernas como o metalcore que são tão populares na geração atual?
Ethan Kahn: Existe uma energia no thrash, no hardcore, e em todas essas músicas que acho que ressoa conosco de uma forma particular, especialmente quando éramos mais novos escrevendo o primeiro disco. No início era apenas uma força vital para nós e ainda é. O thrash simplesmente corre nas nossas veias e é o que amamos.Vamos ver o Sepultura em turnê [no Cine Joia]. É a nossa maior inspiração como banda. E nós apenas vivemos, respiramos e ouvimos thrash.
Chained Saint e o resgate do thrash metal oitentista para á juventude
WM: Como o Chained Saint enxerga seu papel em resgatar a urgência e estética do metal nos anos 80 para a juventude de hoje?
Ethan: Para mim é mais sobre dar uma nova roupagem. E se pudermos dar uma nova roupagem ao que já existe e trazer o que o Chained Saint tem a oferecer, para mim isso é o mais importante. Não sei quanto a você, Sean.
Sean Sterling: Como o Ethan disse, existe uma certa energia na música e uma certa energia nesse subgênero que é simplesmente viciante. Sabe o que quero dizer? É tipo, quando você ouve um bom thrash, é algo que você quer ouvir sem parar e genuinamente mergulhar nisso. Então acho que só por sair por aí e compartilhar nossa música, a energia e a paixão que colocamos por trás dela. Eu genuinamente acho que isso vai ajudar a reviver esse gênero.
WM: Como foi trabalhar com o William DuVall no disco Blindside? Qual foi o conselho mais valioso que ele compartilhou com vocês?
Ethan: Nós definitivamente temos respostas diferentes, mas para mim, como guitarrista, eu diria que a maior coisa que tirei da experiência de trabalhar com ele foi: conheça o seu material. Conhecer o seu material, mas principalmente, como guitarrista, estar afiado. E garantir que você faça seu dever de casa, que você pratique, porque tudo, especialmente gravar em fita no estúdio, fica sob um microscópio. E se você não sabe o que está fazendo, vai soar exatamente assim. E, sabe, a ética de trabalho é a maior coisa para mim que ele trouxe à tona.
Sean: Para mim, foi realmente a definição de viver a sua arte como vocalista. Sabe, meu corpo é meu instrumento e ele deu muita ênfase nisso. Ele colocava a minha vida sob um microscópio, até o que eu ia comer, quando eu ia falar, quando eu não tinha permissão para falar. Sabe, foi muito rigoroso, mas foi importante porque, ao contrário de uma guitarra em que, se você quebrar uma corda, você pode substituir, você só tem um par de cordas vocais. E é tipo, se você ferrar com elas, acabou.
WM: O EP Rise to Fall acabou de ser lançado agora em outubro. Como a sonoridade de vocês evoluiu em relação ao disco de estreia e o que vocês queriam consolidar com esse novo material?
Ethan: Para mim, em termos de riffs, foi cortar os excessos. Tínhamos muitas músicas longas no disco, e por ser um EP, sabe, é a ponte entre um primeiro e um segundo disco. Achamos que este é o momento perfeito para mostrar algumas de nossas raízes mais hardcore. E fazer uma homenagem para as bandas e ao som que amamos, além do thrash, e meio que apenas mostrar a progressão do que é o Chained Saint até chegarmos ao segundo álbum, que espero que surpreenda a todos vocês.
Sean: Eu não saberia colocar de uma forma melhor do que essa, além de mostrar nosso outro lado, tipo a dualidade do Chained Saint, por assim dizer.
Letras baseadas em sentimentos pessoais
WMl: O thrash metal dos anos 80 nasceu como um reflexo direto de angústia, revolta social e política. Como jovens que cresceram em uma era completamente diferente,marcada pela forte presença digital, o que mais incomoda vocês no mundo de hoje a ponto de alimentar a agressividade e as letras do Chained Saint?
Ethan: Foda-se o sistema!
Sean: Foda-se o patriarcado!
Sean: Mas, falando sério agora, tem muita merda acontecendo no mundo neste momento que, se você olhar para as nossas letras, pode ver refletida. Nós escrevemos apenas sobre o que sentimos. Pessoalmente, quando escrevo as letras, eu realmente não gosto das pessoas que inventam histórias e inventam histórias e eventos aleatórios para escrever sobre eles. Tudo o que escrevemos é sobre nossa experiência pessoal, pensamentos reais, sentimentos reais e coisas que se aplicam ao Chained Saint.
WM: Ninguém menos que Rob Halford deu a bênção dele ao Chained Saint. Vocês acham que essa postura de manter o metal focado em “riffs reais tocados por músicos reais”, sem truques de estúdio, é o que tem chamado a atenção de grandes nomes do metal?
Ethan: Nós fizemos o completo oposto do que fazem hoje com o Blindside. Gravamos em fita e conhecíamos o nosso material. Foi gravar com zero computadores, zero click tracks, tudo direto para a fita: o que você ouve é o que você tem. Isso é muito importante para nós. Queremos soar como nós mesmos. O que você acha, Sean?
Sean: A fita traz um som mais quente. É uma sonoridade diferente que remete àquilo que o William disse. Muitos dos plugins modernos que encontramos nos computadores de hoje são feitos para emular a fita e esse processo analógico, mas não há verdadeiramente nada que consiga replicar isso tão bem quanto fazer simplesmente de forma analógica.
Se conseguirmos cortar o intermediário, estamos sentados numa mina de ouro e já a um nível acima de outras pessoas. Além disso, a gravação em fita exige muito porque não há edição. Pode-se fazer mais takes, mas corre-se o risco de a fita quebrar. Existe um limite para o quanto se pode fazer. Portanto, maximizar aquilo a que se tem acesso é outro obstáculo da gravação em fita que torna a experiência muito maior. A preparação é gigantesca.
Dividir o palco com o Sepultura
WM: Ethan, no mês passado, você subiu ao palco com o Sepultura na Cidade do México para tocar o clássico “Propaganda” para uma arena lotada. Como foi, aos 19 anos, dividir o palco com uma das maiores bandas de metal no mundo?
Ethan: Acho que a palavra certa é gratificante. Sou fã desde o primeiro dia. Essa é a maior banda que influenciou o som do Chained Saint e a minha composição de riffs, então ser convidado para fazer isso com uma lenda dessas é gigantesco para mim. Principalmente na minha idade, sou muito grato a todos que nos ajudaram no caminho. Estou muito feliz por poder fazer o que amo com as pessoas que me inspiraram e me ensinaram a amar esse tipo de música.
Elogios de Andreas Kisser
WM: Falando sobre o Sepultura, o Andreas Kisser já elogiou o Chained Saint, chamando vocês carinhosamente de “mini Sepultura” e até usou uma camiseta da banda. Como é receber esse título?
Ethan: Para mim, é simplesmente incrível. Somos grandes fãs, então ter esse reconhecimento, saber que apreciam a nossa música a ponto de usar uma camiseta nossa ao vivo, é grandioso. Nós os vimos na Espanha, em Alicante, e ele estava usando a camiseta do Blindside. Nós pensamos: “Uau, esse é o momento mais legal de toda a nossa vida”.
Sean: Ver ele usando aquela camiseta ao vivo foi incrível, pois ele é uma lenda absoluta. Pensar que já usamos camisetas que eles fizeram e agora ver as camisetas que nós fizemos sendo usadas por eles. É o tipo de coisa que te deixa sem fôlego, que tira as palavras da boca. É um sonho realizado.
Paixão pelo futebol e entusiasmo pelo funk brasileiro
WM: O Brasil é um país conhecido por exportar grandes nomes na cena do metal. O que mais vocês acompanham do nosso país e da cena latino-americana?
Ethan: Sou um grande fã de futebol. Fui assistir ao jogo entre Brasil e Escócia em Miami [na Copa do Mundo de 2026] Para mim, é mais o futebol mesmo. Estar aqui no Brasil é muito legal. Provavelmente vou comprar uma camisa do Palmeiras e, se tiver tempo, talvez assistir a um jogo.
Sean: Para quem não sabe, eu sou baterista. Isso pode fazer alguns torcerem o nariz, mas eu adoro os ritmos do funk brasileiro. Tenho estudado isso na Universidade de Miami, além do samba. Comecei a aprender a me adaptar a esses ritmos na bateria, é algo que acho muito interessante.
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