Em plena terça-feira, 29 de abril, contrariando o senso comum sobre qual dia seria perfeito para lotar uma casa de show, o Espaço Unimed ficou apinhado de fãs. Não importa a ocasião, assim que é anunciado que o Bad Religion visitará sua cidade, a mobilização é garantida, ainda mais de forma solo.
Isso ocorre mesmo com um intervalo curto entre as passagens, já que, de última hora, eles foram convocados ao festival The Town no ano passado para cobrir a lacuna deixada pelos Sex Pistols devido a uma lesão no pulso de Steve Jones; poucas vezes uma substituição relâmpago foi tão elogiada. Esse prestígio vem não só do fato de serem referências no que fazem e da atemporalidade das canções no quesito social e político, mas da capacidade da banda em atravessar gerações e condensar toda a máxima do punk rock, de algo simples e cru, até para outros gêneros musicais. O academicismo de Greg Graffin, principal letrista, por exemplo, transformou análises densas em algo popular e acessível.
Antes mesmo de o grupo pisar no palco, o ambiente foi preparado com o melhor do punk rock mundial, incluindo os conterrâneos do Pennywise e Dead Kennedys, além de The Jam e The Only Ones. Foi essa curadoria na discotecagem que conseguiu segurar os ânimos do público, uma vez que o show começou com 15 minutos de atraso. Após a espera, o telão formou lentamente a tipografia clássica da banda que, segundo alguns presentes, remetia ao fenômeno da cultura pop Stranger Things, embora a estética visual e o caos contido do grupo sejam muito mais antigos do que o apelo nostálgico da série.
Com um repertório extenso e 1h20 de show, o grupo aplicou sua fórmula infalível que, apesar da simplicidade elogiada, não permite que nada saia do lugar, seja um fraseado ou qualquer sinal de desafinação. A execução cirúrgica da sonoridade, somada à voz de Graffin que parece imune ao envelhecimento, dita o tom da apresentação e sempre funciona. Por mais que a fórmula possa parecer previsível para quem já os viu inúmeras vezes, a entrega é tão sólida que a experiência nunca perde o vigor, o que é ainda melhor quando o espaço consegue entregar a qualidade do som do grupo para todos os setores, sem quaisquer deslizes técnicos ou equalizações desequilibradas.
A pluralidade de público e formas de se experienciar o punk rock
A configuração do espaço permitia diferentes experiências, pois quem buscava a emoção dos mosh pits ocupava o centro da casa, enquanto quem preferia apenas balançar a cabeça e ser teletransportado para o tempo em que aquelas canções moldaram sua personalidade ficava nas laterais ou perto das saídas. O público era diverso, tanto em faixa etária quanto em subculturas, indo da juventude que recém descobriu a banda e o ‘’beabá’’ do punk rock, passando por veteranos da cena do hardcore até famílias, que se programaram para ter essa experiência juntas. Desde uma mãe pulando com a filha em suas costas enquanto o pai estava do lado, até a animação sem precedentes dentro das duas áreas de acessibilidade.
Se, por um lado, uma parcela pequena do público estava em banho-maria, preferindo curtir a experiência de forma mais tranquila, o outro lado não deixou passar a oportunidade de deixar as amarras sociais de lado e experienciar o show como dita a regra. A própria banda traz essa pluralidade à tona e cada pessoa naquele mundaréu foi impactada de forma distinta. Alguns apenas acompanhavam com a cabeça, outros acendiam o “fósforo” no meio da multidão para que as rodas se formassem e havia quem ficasse apenas no pogo contido. Essa é a beleza da cena, onde existem muitas formas de viver o punk rock e nenhuma anula a outra. Afinal, trata-se de liberdade e, como anunciado no telão, do dever de pensar por conta própria e ser você mesmo.
Na área de fumantes, por exemplo, fãs ‘’oldschool’’ do hardcore comentavam sobre épocas passadas e sobre como costumavam estar em todo e qualquer mosh, mas que agora, com a idade, preferiam ficar “na moral”. O que, claro, não é um consenso. Em tempos de debate aberto sobre etarismo, não deveria ser condenável ver alguém mais velho em um crowd surfing, assim como não se ignora o brilho de uma criança que, provavelmente, experimentava aquela emoção pela primeira vez. O punk, novamente, é sobre liberdade e nada mais conciso do que reunir sob a mesma bandeira identidades distintas, sendo diverso e inclusivo.
A execução cirúrgica e as interações com o público
Os primeiros acordes de ‘’Recipe for Hate’’ foram recebidos com pulos, gritos e assovios, enquanto a capa clássica parecia se projetar do telão para morder a alienação da sociedade, assim como a própria música. Apesar da velocidade do setlist, o vocalista tirou um tempo para conversar com os fãs, celebrando o retorno e reconhecendo alguns rostos de outros carnavais. Mesmo com a simplicidade da apresentação, sem a necessidade de recursos cenográficos complexos ou iluminação excessiva, o telão mudava a cada faixa para exibir o logo, o nome da canção ou ilustrações que interagiam com a essência das letras. Greg Graffin, aliás, mostrou-se brincalhão e gestual, soando por vezes até irônico em sua teatralidade contida. Já Jay Bentley, o único outro remanescente da formação original, exibia um ar mais jovial e a posição de ataque característica do gênero enquanto dedilhava seu baixo.
Mesmo com a energia mais amena nos arredores, o pessoal mais empolgado abria rodas no meio das pistas e perto do palco, impossibilitando ficar alheio a um setlist que parecia um compilado de grandes sucessos. Essa segurança vem de muito tempo de estrada. Apesar da interação constante com o público, o que parecia contido como uma barragem foi desmantelado pelo paredão de guitarras em ‘’Do What You Want’’, seguida pela crítica ferrenha à sociedade de consumo em ‘’21st Century (Digital Boy)’’. Após os hits, algumas sequências memoráveis foram intercaladas por momentos mais contidos, como ‘’Fuck You’’ e ‘’I Want to Conquer the World’’. Quando o público pediu músicas fora do roteiro, Bentley foi categórico ao dizer que ali não era uma loja de doces antes de continuar a tocar.
Ápices, invasões e o gran finale
Esses pequenos ápices foram elevados a uma potência extrema a partir de ‘’No Control’’, que contou com a invasão repentina de um fã para cantar o refrão. Embora o palco invadido não seja uma novidade em shows de punk rock, o gesto injetou uma empolgação ainda maior na plateia. O fã não conseguiu terminar a frase, pois foi logo agarrado pela segurança, enquanto o público aplaudia sua coragem ou comentava que aquele ali viveu o momento. Para evitar novas interferências, a casa mandou pelo menos mais seis seguranças para o pit, minando os planos de outros fãs que provavelmente pretendiam fazer o mesmo.
Por vezes, a banda deixava pequenas lacunas entre as canções e, em uma dessas pausas, o público começou a gritar o nome do grupo em coro, sendo acompanhado em harmonia pela bateria de Jamie Miller. No primeiro sol (G) da limítrofe, no sentido psicológico da coisa, ‘’Infected’’, o público explodiu de vez com um coro sincronizado, seguido pela sequência ininterrupta de hits com ‘’A Walk’’, que rendeu holofotes centralizados no guitarrista Brian Baker, e por ‘’You’’, que foi dedicada pelo frontman para as pessoas que ele mais gostava no mundo, o público. Esses momentos de destaque para Baker seguiram até o final do show, que teve uma saída dos integrantes súbita e brusca antes do bis, quando tudo foi banhado por uma luz vermelha. O retorno para o encerramento foi coroado com ‘’American Jesus’’, acompanhada por um coro massivo, centenas de celulares gravando e rodas se alastrando da pista premium para a comum.
Enquanto o maior hit dos norte-americanos ecoava pelos alto-falantes, alguém decidiu acender um sinalizador em um local fechado e lotado, onde o ar-condicionado já não vencia o calor gerado por tantos corpos. Em outras ocasiões, seria muito bem-vindo, mas ali, poderia gerar um incidente catastrófico. Isso durou apenas alguns minutos, felizmente, e a mensagem “pense por conta própria” em português voltou a ser o centro das atenções no telão.
Como bem sabemos, o Bad Religion carrega essa bandeira de luta contra qualquer forma de governo e autoritarismo há mais de quatro décadas. Os membros foram saindo um por um, com apenas Jay permanecendo no palco para um discurso rápido, mas emocionante, endossando a mensagem de pensar por si próprio e dizendo que o futuro nos pertence e que temos que cuidar uns dos outros. Frase que, com certeza, continuará ecoando não só em fãs veteranos, mas em algum jovem no meio daquela multidão que tem o mesmo sonho, de compartilhar seus ideais ou até de mudar o mundo através da música, que os integrantes tiveram quando estavam no colegial de San Fernando Valley, quando tudo ainda parecia idealismo juvenil. Não é à toa que, sempre que comentam sobre a apresentação ao vivo do grupo, dizem que é uma aula – e foi mesmo.
Confira as fotos da nossa fotógrafa Jéssica Marinho:
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