Bad Religion é uma das instituições do punk rock que mais tocou em solo brasileiro. Após sua apresentação-relâmpago ser muito bem recebida no The Town em 2025 para substituir o Sex Pistols, eles estão de volta à cidade para um show solo e único que acontece no Espaço Unimed, dia 28 de abril.
Ocupar o panteão musical onde residem hoje foi uma construção de décadas e, mesmo após todo esse tempo, a síntese do punk rock de recusar qualquer traço de estrelismo ainda está ali. Desde os dias de trajar uma camiseta surrada do Black Flag no ensino médio, em San Fernando Valley, até o lampejo do futuro após Gurewitz, guitarrista e fundador da banda, ver um show dos Ramones, com suas jaquetas de couro e paletagem feroz.
De lá para cá, o grupo encabeçado por Greg Graffin e cia se cristalizou como um dos maiores nomes do punk rock californiano, com músicas que se transformaram em hinos atemporais não só da juventude, mas de qualquer pessoa que encontra na música uma forma de protesto contra a desigualdade e brutalidade do sistema, indo além de toda a onda de nostalgia que parece assombrar a indústria fonográfica; o Bad Religion de fato continua tão relevante quanto em sua criação.
É exatamente nessa trajetória que a autobiografia Do What You Want: a história do Bad Religion mergulha. O livro, lançado em 2020 em uma parceria dos próprios integrantes com o escritor Jim Ruland, traz relatos íntimos de mais de quatro décadas em atividade. A obra detalha desde a criação do nome por ideologias compartilhadas e o surgimento do logo “crossbuster” até os primeiros shows abrindo para o Social Distortion e Circle Jerks.
Enquanto bandas como Weirdos e The Bags – esta última com Alice Bag e Patricia Morrison, que mais tarde integraria o Sisters of Mercy – pavimentavam a cena de Los Angeles, o Bad Religion surgia para dar uma nova cara ao gênero, saindo um pouco do niilismo hedonista e mergulhando com mais profundidade na crítica social e na construção melódica da músicas.
Após quarenta anos na estrada, o que não faltam são passagens engraçadas e momentos que moldaram todo um estilo musical. Com a banda prestes a voltar pela 15º vez ao país, o Wikimetal separou três dessas histórias e anedotas de bastidores explicadas tanto pelos integrantes quanto por quem realmente viveu a cena do hardcore punk oitentista.
Pichar é ótimo, limpar nem tanto
Uma das primeiras lembranças do livro resgata a estreia deles no Studio 9, um estúdio de procedência duvidosa na Sunset Boulevard que estava, basicamente, caindo aos pedaços mas que serviu para gravar a primeira demo. Como o ambiente já era decorado por pichações de bandas que passaram por lá, os integrantes tiveram a brilhante ideia de se deixar levar pelo espírito da coisa. Em um surto de empolgação, pegaram um spray preto e cravaram um “Bad Religion” gigante na parede.
O plano parecia infalível, exceto pelo detalhe óbvio de que ninguém mais na cidade usava aquele nome. No dia seguinte, o sermão do empresário sobre vandalismo veio rápido. Brett Gurewitz até tentou fingir que não sabia o que estava acontecendo, mas era difícil negar a autoria de um crime que levava o próprio nome em letras garrafais. A regra de ‘’não seja pego’’ ficou perdida em algum lugar, e relataram no livro que precisaram voltar ao estúdio para limpar tudo. Eles ainda nem imaginavam que anos depois iam ter seu logo de cruz por tudo que é lugar, em tudo que é país e um reconhecimento que atravessaria gerações.
A criação da Epitaph Records
Seguindo a cronologia dos fatos, após o contato inicial com a produção de músicas no decadente Studio 9, os integrantes do Bad Religion buscavam algo mais profissional. Eles entregaram sua demo para uma jovem Johnette Napolitano, que ostentava cabelos roxos muito antes de encabeçar o Concrete Blonde. Na época, Johnette tinha um relacionamento com James Mankey, fundador do Sparks e figura seminal que também ajudou a dar forma a essa gravação do Bad Religion. Foi após essa experiência que Brett Gurewitz se apaixonou de vez pela parafernália técnica dos estúdios.
Como o álbum só poderia sair no ano seguinte, o que faltava era dar um nome àquela experiência e busca por autonomia. A inspiração veio de uma música do King Crimson, do álbum In the Court of the Crimson King, de 1969: surgia assim a Epitaph Records. Desde então, o selo se tornou um gigante independente, produzindo discos de bandas como Pennywise, NOFX, Rancid e o álbum homônimo do L7, além de quase toda a discografia do próprio Bad Religion.
Conhecendo o diabo (dis)léxico
Assim como todo mundo ficava em polvorosa ao ver figuras como Lou Reed dando aquele passeio pelo lado selvagem das ruas de Nova York, prestando respeito a quem fez limonada quando não existiam os limões, as bandas que surgiam na cena de hardcore punk do começo dos anos oitenta em Los Angeles e arredores também compartilhavam da mesma empolgação de ver o ídolo ali, acessível. Brett, por exemplo, relata a primeira experiência que teve com Darby Crash, do The Germs. Em suas próprias palavras, foi como se ele estivesse vendo o Jim Morrison andando pela Sunset Strip, conhecendo um semideus em seu habitat natural.
Após tantos anos e sua própria contribuição com a cena musical, isso não acontece mais, porém, naquela época, quando tudo era novidade e eles estavam se conhecendo não só como indivíduos mas como participantes da mesma verve, ter o ídolo assistindo seu show era algo de outro mundo.
A conversa não foi muito longa, mas Brett chegou a perguntar a Darby sobre o que tinha acontecido durante as filmagens do clássico documentário The Decline of Western Civilization, de 1981, onde o vocal do Germs deixou de cantar as músicas. A resposta foi um tanto gélida e categórica, e ele simplesmente disse que tinha esquecido das letras. Pouco depois, Darby faleceu devido a uma overdose de heroína com apenas 22 anos, um dia antes da morte fatídica de John Lennon.
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