Nos últimos anos, a Crypta se consolidou como uma das maiores potências do metal nacional. Um fenômeno inegável desde o nascimento, a banda formada em 2019 e liderada por Fernanda Lira percorreu um caminho surpreendente em pouco tempo de carreira e conquistou o coração de nomes internacionais como Ghost e AVATAR.
Com o segundo álbum de estúdio, Shades of Sorrow (2023), elas foram catapultadas a patamar internacional e saíram em turnê ao lado de nomes como Carcass, Aborted, Hatebreed e inúmeros outros, gabaritando também uma série de festivais renomados, como o Wacken Open Air, Summer Breeze, Bangers Open Air e Rock in Rio.
Em 2026, elas dizem adeus a um período muito especial de divulgação com os últimos shows apresentando esse disco. Antes de saíram em turnê europeia e finalizarem o terceiro álbum de estúdio, a Crypta volta ao Brasil com os “ritos finais” do Shades of Sorrow – uma série de quatro shows que se encerra em São Paulo nesta terça-feira, 28 de abril.
Conversamos com Fernanda Lira sobre a despedida dessa fase especial, o que esperar do novo álbum e os próximos passos da banda com a nova guitarrista, Victoria Villarreal. Leia na íntegra:
Wikimetal: Oi, Fernanda! Tudo bem? Em março, a Crypta anunciou 4 shows no Brasil como uma despedida e um “rito de passagem” do Shades of Sorrow. Vocês estão preparando algo especial para essas datas? O formato do show tem algumas mudanças em relação aos shows da In The Other Side Tour?
Fernanda Lira: A ideia dessa turnê é literalmente se despedir do nosso disco Shades of Sorrow, então é a última oportunidade que as pessoas vão ter para ouvir algumas músicas desse disco. Pode ser que algumas dessas músicas a gente nunca mais toque ao vivo, que demore muito pra tocar ao vivo. Quanto mais discos a gente vai colocando na carreira, mais difícil fica de acomodar músicas de todos os discos. Então é uma despedida desse álbum que foi super importante pra gente.
A ideia é que tenham mais músicas desse disco mesmo, porém, além disso, a gente colocou algumas mais pedidas ali do público. Fizemos uma enquete nas nossas redes sociais e atendemos a alguns pedidos bem legais, então vai ter algumas surpresas ali, além de, claro, ser a nossa primeira tour com a nova formação, com a nossa guitarrista recém-anunciada, a Victoria Villarreal. Então é uma tour que está bastante especial nesse sentido. É uma tour transitória entre essa finaleira do Shades of Sorrow e o que está por vir relacionado ao próximo disco.
WM: Shades of Sorrow foi um álbum muito importante que catapultou a Crypta para novos patamares. Antes mesmo dele vocês já tinham conquistado nomes como AVATAR e Ghost, e foram até convidadas para abrir a Re-Imperatour no Brasil. Quais foram os principais marcos desses 3 anos de divulgação do disco que mais impactaram a banda positivamente?
FL: Esse disco impactou a minha vida de uma maneira muito maravilhosa. Eu digo que a Crypta não para de me surpreender. Eu nunca imaginei chegar onde a gente tem chegado com a Crypta, mas o Shades of Sorrow levou a gente pra um outro patamar que a gente nem esperava. Como, por exemplo, na semana de lançamento dele, a gente foi pra Billboard. A gente entrou em duas listas da Billboard, uma coisa completamente inesperada. A gente não imaginava isso. E rolou, e aconteceu, e foi muito importante. Isso foi uma grande validação pra gente, de que a correria estava dando certo de alguma maneira, sabe? A gente sempre quer fazer o melhor trabalho possível, mas quando a gente recebe validações desse tipo, deixa a gente muito com sentimento de gratidão mesmo. É muito gratificante.
Eu acho que esse foi um disco que abriu muitas portas pra gente, a gente fez muitas turnês incríveis. Com esse disco, nós tocamos com Hatebreed e Carcass lá nos Estados Unidos. Fizemos muita coisa legal, tocamos em grandes festivais, vamos tocar o Hellfest esse ano, vamos tocar o nosso primeiro show de arena, que vai ser com o Sepultura na turnê de despedida deles na Irlanda. Então, muitas das primeiras coisas que aconteceram na vida da Crypta aconteceram nesse ciclo do Shades of Sorrow. É um disco que marcou muito a gente, é um disco que vai deixar muita saudade pra gente e é um disco que foi muito bem aproveitado, tanto que estamos batendo quase o terceiro ano aí. Mas foi realmente um disco que fez muita gente conhecer a Crypta, muitos dos nossos ídolos conhecerem a Crypta. Pô, saber que o pessoal do Ghost gosta da gente, sabe?
Esses dias encontrei o Mikael [Åkerfeldt] do Opeth, que é uma das minhas bandas favoritas, e lá no Brutal Assault, no ano passado, ele perguntou como foi o show da Crypta. Eu falei: “Cara, como que o cara conhece a Crypta?” Tenho certeza que foi o Shades of Sorrow, sabe? Então, é gratidão eterna por esse disco incrível.
WM: Vocês chegaram a conversar com o Tobias Forge durante aquela turnê no Brasil? (Ou depois).
FL: Sim, o convite foi feito pelo próprio Ghost, pelo Tobias, pra gente fazer aqueles shows. O Tobias, antes daqueles shows, ele já tinha falado em algumas matérias, inclusive em uma da Metal Hammer, acho que da Inglaterra, que a gente era a banda atual que ele tava ouvindo e curtindo. A gente quase infartou quando viu, né? Então a gente teve a oportunidade de conversar com ele, sim, nesses shows do Brasil.
E digo mais, uma coisa que a gente gostaria muito de ter falado, mas é difícil falar na internet, então foi muito legal você ter perguntado, porque a gente vai falar aqui uma coisa que pouca gente sabe. Teve um show que a gente fez na turnê com o Aborted, que a gente tocou em Copenhague, que é sempre uma cidade muito boa pra nós de público lá na Dinamarca, e a gente fez um showzão. Mas antes do show acontecer, o Tobias falou que iria no show. Então foram não só o Tobias, como outros integrantes do Ghost lá, que a gente já conhecia daquela outra vez.
O Tobias estava fazendo uma reunião, acho que de negócios, foi toda uma logística pra ele ir lá. E ele foi nesse dia e ficamos, sei lá, umas duas horas conversando depois do show. Ele é incrível, ele gosta muito da gente, ele gosta muito da banda, ele é um gentleman. É um cara muito gente boa. Então rolou isso que pouca gente sabe. Ele foi lá no show de Copenhague, assim como outros integrantes do Ghost, e a gente ficou trocando uma puta ideia lá depois do show. Foi muito bacana mesmo.
WM: Um dos shows que vocês fazem no Brasil é o Bangers Open Air, no final de abril. A Crypta se apresenta no mesmo dia que o Korzus, que recentemente anunciou a Jéssica Falchi como nova guitarrista. O que você achou desse anúncio e existe alguma possibilidade de um reencontro nos bastidores ou até mesmo uma surpresa no palco?
FL: Eu achei o anúncio incrível! Antes de ser a Fernanda, a Fefe Metal, eu sou headbanger. E como headbanger, o que eu sempre quis e o que eu sempre quero ver é o metal com a chama acesa, o metal perpetuando, sabe? E aí a gente vê uma banda lendária como o Korzus, né, 40 anos de estrada, tava parado, agora voltando, graças a um fôlego de uma outra geração ali, mais nova que eles, contando com o Jean e com a Jéssica, trazendo esse fôlego pra banda. Pra mim, é incrível! Eu sou fã do Korzus, eu sou fã dos caras, conheço eles há mil anos.Tive o privilégio de trabalhar com o Pompeu há 15 anos atrás, ali no comecinho da Nervosa. A gente tem uma super relação boa toda vez que a gente se encontra. Gosto muito dos caras, então não tem como ficar triste, né? Não tem como não ficar feliz com uma notícia dessa.
E, além de tudo, é o seguinte: É uma mulher com talento indiscutível ocupando espaço. Quem me segue sabe que eu sou sempre a favor das mulheres ocuparem mais e mais espaços e saber que uma mulher talentosa como a Jéssica tá ali numa banda que tradicionalmente sempre teve lineup 100% masculino, pra mim é uma grande vitória pra nós mulheres também. Porque imagina quantas manas fãs do Korzus vão no show e vão ver ali a Jéssica arrebentando e vão achar incrível e vão se sentir representadas. Então, eu acho que é isso, sabe? Eu achei incrível o anúncio. Gostaria de assistir o show lá no Bangers, só não sei se a gente vai conseguir porque a gente tá aqui em horários diferentes. Eu não acho que a gente vai estar lá ainda. Eu acho que não é o horário que tá previsto no nosso cronograma. Mas caso a gente consiga, a gente vai assistir, sim.
Quanto ao encontro, esse encontro de bastidores já aconteceu! Agora, no dia 19, a gente tocou em Nova Friburgo, num festival que o projeto da Jessica Falchi tocou também. E ela ficou lá, ela fez uma outra participação, pelo que entendi, numa banda do Metallica, que o pessoal chamou ela pra participar, e ela ficou pra assistir o nosso show também. Então eu olhei, subi no palco, já vi a Jessy ali, já acenei, e ela assistiu o show todo. Depois ali do show, ela já tava ali perto do camarim, todo mundo já conversou entre si, né? Ficou uma rodinha ali, a gente ficou trocando ideia e tal, fazendo piada. E o clima é amistoso, então esse encontro já aconteceu. E vai acontecer de novo no Bangers, com certeza, e vai continuar acontecendo, porque nossas bandas vão continuar se encontrando. Então, é isso.
Agora, no palco, a gente não planejou nada, até porque o que a gente já tinha planejado pra esse Bangers é exatamente o anúncio da nossa nova guitarrista, né? Ali, vai ser a primeira data da guitarrista nova em São Paulo. Então, acho que a gente acabou focando tanto nisso que acabamos não pensando em nada para além disso, mas com certeza o encontro ali nos bastidores, ao redor do palco, com certeza vai acontecer.
WM: A Crypta está prestes a iniciar uma nova fase focada no seu terceiro álbum de estúdio. Você pode nos contar algum spoiler sobre esse novo projeto? Como está o andamento do disco?
FL: Nós já estamos finalizando as composições. Já temos nove das músicas que queremos colocar [no disco]. Depois a gente vai pra fase de lapidação; colocar os solos, finalizar as linhas vocais e tal. Ele vai ser gravado ainda esse ano, mas lá pro final do ano. É um disco que a gente resolveu fazer com muita calma pra fazer direitinho. E o spoiler que eu posso adiantar sobre esse novo projeto é que será um disco 100% conceitual. Eu me aprofundei muito nisso, li diversos livros, li cinco livros para me ajudar na criação dos conceitos, dos personagens e tudo. Então vai ser um disco conceitual e o tema vai ser “Loucura”. Acho que é o máximo que eu posso dizer. Ele deve ser lançado apenas em 2027 porque tem turnês aí no meio desse processo todo. Inclusive, a gravação do disco talvez tenha até que ser [feita] por partes exatamente por conta das turnês.
WM: Desde a saída da Jéssica, a Crypta tocou com a Helena Nagagata em turnê e também com a Victoria Villarreal, que foi anunciada recentemente como nova guitarrista fixa. Como foi esse processo de escolha da nova integrante?
FL: [Sou] muito grata à Helena! Eu falei pra ela que ela tá no Top 3 de pessoas mais profissionais com quem a gente já trabalhou, e eu tô nessa cena há quase duas décadas. Ela, sem dúvidas, é uma das pessoas mais profissionais com quem eu já trabalhei. Super profissional em cima e fora do palco, super legal em cima e fora do palco, entregou pra caramba. E é uma pessoa com quem a Crypta com certeza deixa portas abertas. A gente gosta muito da Helena. Mas acabamos oficializando a Victoria, que também foi uma das pessoas que ajudou a gente aí em turnês, que foi contratada para turnês como sub, e [foi] uma decisão nada fácil, né? Ambas guitarristas incríveis, mas a gente tinha alguns critérios internos bem específicos, alguns relacionados à sonoridade, influência, entre outras coisas mais internas mesmo de business ali. E aí, no fim das contas, a gente acabou achando que seria o momento agora de colocar a Victoria.
WM: Há algum tempo, você usou seu Instagram privado para falar um pouco sobre seu trabalho com o tarô. Pode nos falar um pouco mais sobre sua relação com essa ferramenta e sobre como foi seu primeiro contato e quando começou a ler?
FL: Pois é! Quem me segue também já sabe que eu sou uma pessoa espiritualista, altamente espiritualizada. Não religiosa; espiritualizada. Eu venho de uma família espiritualista. Desde criança eu sempre tive esse interesse com o tarô , mas foi ali para 2018 que eu me aproximei do tarô, só que sempre foi uma coisa muito privada, porque eu estudei pra caramba, sou formada, tenho diversas formações, não só no tarô, mas na espiritualidade, nessa questão espiritual, esotérica. Eu sou formada nisso, sou formada em reiki, sou formada em apometria, sou formada em magia com ervas, magia com cristais, cristaloterapia, estudo aromaterapia… Tem um trilhão de formações aí. Então, sempre foi muito ativa nesse lugar de estudo e de prática dessas coisas mais esotéricas, mas sempre foi uma coisa muito no privado, eu sou muito reservada quanto à minha espiritualidade. Mas eu sempre lia para os meus amigos, lia para indicações de amigos, eu tinha ali uma clientela.
Mas esse ano me veio muito forte de trazer isso para esse meio do metal, para me conectar com os bruxinhos e bruxinhas ali que já me seguiam pela Crypta, e também porque eu sei que tem muita gente curiosa na nossa cena e por que não abrir isso e trazer esse meu lado também? Então é isso. Todo mundo sabe que eu sou meio fora da caixinha. Eu sou um universo dentro de uma pessoa só. Então esse universo do “Fefe Esotérica” é só mais um dos meus universos aí.
WM: Como alguém que também lê e joga tarô, gosto muito de pedir auxílio da ferramenta em momentos de decisões críticas, mas também acho que pode ser um ótimo auxílio criativo se usarmos de um jeito meio “fora da caixinha”. Você usa o tarô de alguma maneira para te auxiliar no seu trabalho com a Crypta?
FL: É interessante isso, se eu uso o tarô de alguma maneira para me auxiliar no trabalho com a Crypta. Nunca usei especificamente! Nunca usei. Eu não leio o tarô pra mim, eu tenho a minha taróloga que lê pra mim umas duas vezes por ano, e naturalmente saem conselhos sobre a Crypta quando eu me consulto com as minhas ferramentas espirituais. Mas eu nunca usei o tarô assim. Por eu usar o tarot para mim de uma maneira muito específica, eu nunca usei pra me trazer informações para a Crypta ou trazer inspirações. Eu sinto que esse meu canal com a espiritualidade sempre vai estar aberto. Então, com certeza, eu recebo insights, recebo intuições ali, que eu sei que tem uma mãozinha da espiritualidade, né? Mas não necessariamente eu uso das minhas ferramentas para buscar essa orientação. É uma coisa mais eu comigo mesma, ali mesmo, quando eu tô trabalhando com a Crypta.
WM: Para encerrar, após os últimos shows no Brasil vocês devem entrar em estúdio para finalizar o terceiro álbum. Podemos esperar mais novidades da Crypta ou até mesmo um novo single ainda em 2026?
FL: Temos, sim, novidades da Crypta para esse ano. Vamos ter mais algumas novidades aí. Por mais que seja um ano em que a gente declinou várias tours, a gente escolheu ter um hiato de cinco meses para a gente focar no disco. Então, considerando que é um ano atípico para a Crypta, porque é um pouco menos ativo, mesmo assim a gente ainda tem novidades. Quem sabe não um novo single ainda em 2026? Quem sabe, né? O disco vai ser lançado em 2027 e os singles desse disco também vão ser lançados em 2027, mas quem sabe? Não posso revelar mais muita coisa, não. Fica aí um suspensezinho.
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