Foto por: Bruno Paraguay

Banda mineira conversou exclusivamente com o Wikimetal sobre o lançamento do trabalho e o cenário musical atual

Uma faixa que trabalha com o imaginário dá início ao EP The Watcher da banda mineira NUDZ. Em seguida, “Time for Recreation” mostra o nu metal em sua forma mais simplista com um toque de stoner e post-grunge. O trabalho segue com essa sonoridade pelas outras quatro faixas.

The Watcher é o primeiro EP da banda formada por Aldrin Salles (bateria e vocal de apoio), Felipe Valente (baixo), Filipe Dutra (vocal e guitarra) e Fred Chamone (guitarra e vocal de apoio), com quem conversamos sobre o lançamento e o cenário musical atual.

Tudo começou em 2015 quando Fred procurava um baterista e um baixista para acompanhá-lo em uma show de réveillon em São Tomé das Letras, Minas Gerais. O guitarrista foi atrás de indicações de amigos e colegas e conheceu Aldrin e Felipe. O trip logo se conectou pelo amor à música, e principalmente pelo grunge, stoner e heavy metal. “Desenvolvemos uns riffs em jam sessions e de súbito apareceu Filipe Dutra, com suas linhas de voz e letras impactantes”, contou Fred em uma entrevista exclusiva ao Wikimetal. “Valente contribuiu para um timbre de baixo bruto, e assim criamos a NUDZ.”

Desde então, o grupo tem trabalhado em The Watcher, trabalho que expõe claramente as influências dos gêneros musicais que Fred comentou. “De forma indireta, [também fomos influenciados pelo] rock anos 60 e 70, punk rock, hardcore, blues e hard rock”, ele revela. O EP foi o resultado de um projeto feito entre amigos, sem grandes sonhos de conquistar o mundo, o que, com certeza, contribuiu para a leveza que as faixas levam a quem está ouvindo. A suavidade contrasta com os riffs pesados e a voz intensa de Filipe, além das letras que carregam temas como os problemas da sociedade atual.

“É sobre uma sociedade controlada pelos signos, pelas câmeras, pelos algoritmos, pelas opiniões de internet, pela imagem, pelas estatísticas, por tudo. E sobre o ‘se deixar controlar’ Por exemplo, quando você entra numa rede social, você cede suas informações, e dá o direito de uma empresa usar teus dados’, revela Fred sobre The Watcher, explicando também que acredita que esse é o papel da música na sociedade. “A função da música e da arte é provocar.”

Espero que possamos ser uma sociedade mais justa, e que aqui reine mais amor, e que as pessoas deem mais valor à cultura do rock. Acredito que o rock alternativo é uma boa forma de libertação desse mundo podre, corrompido, sem amor. Nós somos felizes fazendo esse tipo de música, e pra nós isso é o mais importante.”

Esse ideal segue para a visão do grupo, e especialmente de Fred, sobre o cenário musical brasileiro. O guitarrista confessa acreditar que hoje existe “muita demanda e pouca oferta” de rock alternativo de qualidade. “Claro que existem pelo menos umas 10 mil bandas de rock”, ele conta, “Mas poucas têm ferramentas na mão para fazer algo realmente de alto nível que consiga competir com os gringos.”

Grande parte desse problema se deve à internet e muitos podem concordar com isso. Na época em que a MTV era a mais importante fonte de novidades musicais, as bandas e os fã tinham uma única plataforma para seguir, agora o cenário é completamente diferente. “A impressão que eu tenho é que a MTV explodiu em milhões de pedaços na internet. Sobrou uma névoa pulverizada de bandas, nichos, tudo muito isolado e sem força. Porém, cabe a nós fomentar esse cenário, produzir eventos, produzir conteúdo, agregar com outras bandas, e ter mais do que presença em rede social: o orgânico, ir em shows, colar junto, fazer acontecer, e se divertir.”

“Aqui no Brasil você não vê por aí pessoas exercendo profissões fundamentais para o funcionamento da cena musical. Você não vê por aí produtores executivos, managers, bookers, financiadores e até patrocinadores, que hoje em dia são raros. O incentivo cultural também é outra ferramenta viciada e injusta no Brasil.” Mas Fred se mantém otimista quando ao futuro do rock brasileiro. “O rock é vanguardista e nunca será esquecido.”

Segundo ele, o gênero nunca esteve e nunca estará ameaçado, o papo de “o rock está morto” é falso e equivocado. “O rock tá aí e e sempre estará, só que o rock é velho.”

LEIA TAMBÉM: Radio Front mostra que o grunge também é dos brasileiros