Em 27 de setembro de 1986, um trágico acidente de ônibus em Dörarp, na Suécia, fez com que o thrash metal e o Metallica perdessem precocemente um de seus nomes fundamentais: o baixista Cliff Burton.
Quatro décadas depois, a comoção em torno de sua perda ainda se faz presente, mas o sentimento de luto passou a abrir cada vez mais espaço para uma celebração de sua vida, obra e, especialmente, legado, uma vez que Cliff foi um baixista à frente de seu tempo. Na data em que o baixista nos deixou, relembre sua trajetória até se tornar um dos maiores nomes da história do metal.
Paixão por música clássica
Nascido em Castro Valley, na Califórnia, em 1962, Cliff teve seu primeiro contato com a música por meio do piano, mas foi por meio do baixo, aos 13 anos, que ele encontrou sua verdadeira vocação. Não se limitando apenas a ouvir rock, o músico era fascinado por música clássica, em especial a obra de Johann Sebastian Bach, e ainda idolatrava nomes como Geddy Lee (Rush), Stanley Clarke e Lemmy Kilmister (Motörhead).
Sua forte paixão pela música erudita possibilitou que ele criasse uma forma única de tocar, utilizando os dedos em vez de palhetas, além de aplicar acordes, arpejos e, principalmente, inovar por utilizar o pedal de distorção, também conhecido por wah-wah.
Antes da fama, Cliff chamou a atenção da cena underground tocando na banda Trauma. Foi em 1982, durante uma apresentação no famoso clube Whisky a Go Go, em Los Angeles, que James Hetfield e Lars Ulrich o viram realizar um solo de baixo com o efeito de distorção e, inicialmente, acharam que se tratava de uma guitarra.
Quando perceberam que Cliff estava levando o público à loucura com um baixo, decidiram na hora que ele precisava integrar o Metallica. Para se juntar ao grupo, o baixista impôs uma condição: só aceitaria a vaga se a banda inteira, na época sediada em Los Angeles, se mudasse para a Bay Area de São Francisco. Todos aceitaram a mudança, em uma ação que mudou os rumos do thrash metal.
Cliff Burton mudou o som do Metallica
Sua chegada transformou a banda de dentro para fora, uma vez que atuou como um professor informal de teoria musical para Hetfield e Ulrich, e foi responsável por elevar a sonoridade agressiva do disco de estreia, Kill ‘Em All (1983), e principalmente nas faixas progressivas e épicas dos álbuns Ride The Lightning (1984) e Master of Puppets (1986).
Através de sua visão artística, Cliff foi responsável por transformar o baixo em um instrumento solista e protagonista no estilo através de faixas icônicas como o solo “Anesthesia (Pulling Teeth)”, a icônica introdução de “For Whom the Bell Tolls”, a épica instrumental “Orion” e os arpejos de “The Call of Ktulu”.
Ele também foi peça-chave na construção acústica de “Fade to Black” e sua paixão por Bach ainda originou às harmonias criadas pelo baixo invertido na introdução de “Damage, Inc”, que se baseia na peça clássica “Come, Sweet Death” (Komm, süsser Tod) do compositor alemão. Até mesmo após sua morte, os arranjos e riffs que ele havia deixado gravados serviram de base para “To Live Is to Die”, lançada no álbum …And Justice for All (1988)
Legado único e imortal
Mesmo tendo falecido apenas aos 24 anos de idade, Cliff Burton reescreveu completamente as regras do que significava ser um baixista no metal. Além de liberar o instrumento de sua função meramente de acompanhamento rítmico, ele mostrou que o baixo poderia ser a força motriz e melódica de uma banda – fazendo algo similar a que Steve Harris já era consagrado no Iron Maiden, mas elevando isso para um nível mais voltado nas características do thrash: velocidade e brutalidade.
Sua abordagem abriu caminho para uma série de grandes nomes que vieram a seguir, influenciando o estilo e a postura de nomes como David Ellefson (Megadeth), Rex Brown (Pantera), Steve Di Giorgio (Testament), Alex Webster (Cannibal Corpse) e até mesmo de virtuosos com outras abordagens, como Les Claypool (Primus).
Quarenta anos após sua morte, Cliff Burton infelizmente partiu cedo demais, mas apenas em um curto espaço de 3 anos, o músico foi responsável por mudar de uma forma jamais vista o papel do baixo no heavy metal. Sua genialidade provou que a agressividade do thrash metal e a sofisticação da música erudita podiam caminhar juntas, marcando a história do Metallica e inspirando gerações de músicos ao redor do mundo.
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