Em 1988, o Slayer tinha como dura missão lançar o sucessor de Reign in Blood, considerado por muitos o melhor álbum de thrash metal da história. 

Contudo, o quarteto formado por Tom Araya, Kerry King, Dave Lombardo e pelo saudoso Jeff Hanneman decidiu pisar no freio e chocou seus fãs ao trazer South of Heaven, seu quarto disco de estúdio, e marcado por trazer uma abordagem menos veloz e que, nos bastidores, mascarou uma severa crise criativa que acompanhou King durante o processo de composição.

“Seca criativa” de Kerry King

Após o sucesso e a carga de trabalho dedicada para a criação de Reign in Blood, King, recém-casado e morando em uma nova cidade, passou por um dos momentos mais temidos na carreira de qualquer guitarrista: a temida “seca criativa” de riffs, fato responsável pela drástica redução na participação criativa do músico no álbum. Diferente dos trabalhos anteriores, onde dividia grande parte das composições com Hanneman, King contribuiu em apenas três faixas do disco: “Silent Scream”, “Mandatory Suicide” e “Ghosts of War”.

Em sua carreira, o Slayer sempre escreveu músicas individualmente, para que os integrantes pudessem trabalhar nelas como uma banda e, por fim, gravá-las em estúdio. No entanto, para South of Heaven, o quarteto já sabia exatamente o que queria alcançar com o material em mãos. 

“Nós não temos reuniões de banda. A única vez que tomamos uma decisão coletiva de fazer algo diferente foi com South of Heaven. Tínhamos feito Reign in Blood, e dissemos, ‘Vamos dar a eles algo que eles não esperam.’ E foi também para tornar os sets ao vivo mais interessantes, porque ir até lá e tocar rápido, é uma barragem que as pessoas não aguentam. Queríamos misturar tudo e tornar nosso show mais como uma montanha-russa”, falou King à Guitar World em 2006 [transcrição via Roadie Metal].

Letras deixam o satanismo de lado e passam a falar do mundo real 

Sem conseguir pensar em ideias, King abriu espaço para que o vocalista e baixista Tom Araya pudesse mostrar que também era um bom letrista. Inicialmente, o guitarrista não gostou muito das ideias propostas pelo baixista, mas Hanneman aprovou as temáticas, que deixaram o satanismo e passaram a focar em temas do mundo real, como críticas à guerra, corrupção e visões sombrias da sociedade. 

“Eu escrevi algumas das letras desta vez porque nós só tínhamos a música por conta própria. Kerry normalmente escreve as letras, mas ele não tinha realmente nada recentemente, enquanto eu tinha algumas ideias guardadas. Kerry não gostou muito no começo, mas Jeff gostou das minhas letras, então nós as usamos no final”, disse Araya à Metal Hammer em 1988. 

Dentro do estúdio, a pressão ao lado do produtor Rick Rubin era tanta que uma das ideias originais precisou ser totalmente descartada: a música, ironicamente chamada de “Stress”, foi abandonada pelo fato de King não ter conseguido compor as letras e as linhas vocais dentro do prazo. No entanto, a faixa foi retrabalhada e lançada dois anos depois, em 1990, no álbum Seasons in the Abyss, rebatizada como “Born of Fire”. 

O ódio de King pela faixa “Cleanse The Soul”

Apesar do disco ter eventualmente se tornado um sucesso entre os fãs, Kerry King, pelo contrário, nunca compartilhou dessa mesma opinião, especialmente de uma faixa em questão: “Cleanse The Soul”, música que ele afirmou “odiar” ao falar com o Metal Maniacs em 2006. 

“Eu odeio ‘Cleanse the Soul’. Eu acho horrível. Odeio o riff de abertura. É o que chamamos de ‘riff feliz’. É como ‘la-lala-la-la-la’. Não consigo me ver tocando, mas depois disso, onde fica mais pesado, gosto dessa seção. Se alguma vez fizéssemos um medley, eu colocaria parte disso lá”, declarou na época. 

Faixa-título que se tornou hit absoluto do Slayer 

Apesar dos desafios de composição e das ressalvas de King, o álbum entregou aquela que viria a ser uma dos maiores hits da história do thrash metal: a faixa-título, “South of Heaven”. Com o icônico e assustador riff de introdução criado por Jeff Hanneman, a música provou que a aposta da banda em diminuir a velocidade foi um acerto em cheio. 

O sucesso dela a transformou em presença obrigatória no repertório de praticamente todos os shows do Slayer desde o seu lançamento até os shows esporádicos que a banda faz atualmente após sua aposentadoria em 2019. 

Mesmo com a quebra brusca de expectativa dos fãs na época, o tempo provou que a decisão do Slayer em desacelerar se mostrou acertada e hoje, South of Heaven se mantém como um disco essencial na coleção do fã de metal extremo, provando que uma atmosfera cadenciada, densa e assustadora pode ser tão caótica quanto uma música extremamente rápida. 

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Estudante de Jornalismo e fã de Rock e principalmente Heavy Metal, gosta de nomes como Judas Priest, Black Sabbath e em especial Iron Maiden, banda que já viu 3 vezes, acompanha desde os 12 anos e sonha assistir um show em Londres. Seu primeiro contato com a música pesada veio ao jogar Guitar Hero e de lá nunca mais parou. Sempre gostou de escrever e tem a música como uma de suas paixões. Dentro do meio, tem Steve Harris, Bruce Dickinson, Rob Halford e Ozzy Osbourne como seus ídolos.