Embora seja lembrado como o Rei do Pop, Michael Jackson manteve uma relação constante com o rock e metal ao longo de sua carreira. Do uso marcante de guitarras distorcidas aos duetos com ícones do hard rock e do heavy metal, o artista ampliou fronteiras sonoras e dialogou com diferentes públicos. Assim, sua obra atravessou gêneros e ajudou a aproximar o mainstream do universo mais pesado.

Essa conexão volta ao debate com a chegada do filme biográfico Michael, que estreia dia 23 de abril nos cinemas. A produção da Universal Pictures promete revisitar os bastidores criativos do cantor, incluindo momentos emblemáticos de suas colaborações com músicos do rock.

Nos anos 1980, o pop e o rock disputavam espaço nas rádios e na recém-lançada MTV. Entretanto, Michael Jackson rompeu barreiras ao inserir elementos do rock em seus álbuns mais populares. O disco Thriller (1982), por exemplo, trouxe guitarras marcantes e solos agressivos, algo incomum para artistas pop da época.

Por outro lado, Jackson sempre foi fã de bandas de rock clássico e soul com pegada mais pesada. Ele entendia a força estética das guitarras e da atitude rock’n’roll – fato que ficou explícito no disco BAD (1987). Dessa forma, passou a convidar músicos consagrados para participar de suas gravações. 

Confira algumas das parcerias mais emblemáticas:

Eddie Van Halen, em “Beat It”

A parceria surgiu de forma curiosa. Michael queria uma música com a energia crua do rock, algo que competisse com os maiores sucessos das bandas que estavam no auge na época, como Van Halen e AC/DC. Com isso, o produtor Quincy Jones, que queria algum elemento único em relação ao instrumento para criar um solo impactante, cogitou chamar Pete Townshend, do The Who. Michael Jackson me pediu para tocar guitarra no (álbum) Thriller. Eu disse que não poderia, mas recomendei Eddie, disse Pete em entrevista à Rolling Stone.

Quincy ligou então para Eddie Van Halen – na época, guitarrista da banda Van Halen – para criar o solo épico da canção. Segundo relatos, o músico gravou o solo rapidamente e sequer cobrou cachê. O guitarrista contou que, quando recebeu a primeira ligação, achou que se tratava de um trote. Após confirmar que a proposta era real, ainda hesitou antes de aceitar. “Certas pessoas na banda não gostavam que eu tivesse atividades paralelas naquela época. [David Lee] Roth estava na Amazônia ou algo assim, Mike [Anthony] estava na Disneylândia, Al [Alex Van Halen] estava no Canadá e eu estava em casa, sozinho. Pensei mesmo que ninguém ficaria sabendo”, disse Eddie à CNN.

O resultado foi histórico: a faixa se tornou uma ponte entre o pop e o hard rock, ajudando a consolidar Thriller como um fenômeno global.

Steve Stevens, em “Dirty Diana”

Conhecido pelo trabalho com Billy Idol, Steve Stevens foi responsável pelo solo de “Dirty Diana”, faixa do álbum BAD. Michael e Quincy não queriam repetir o convite a Eddie Van Halen, então, por recomendação do produtor Ted Templeman, Quincy Jones chamou Steve Stevens. A parceria quase não aconteceu, pois Steve pensou que o convite de Quincy Jones era um trote. “Pensei que era alguém tirando uma comigo. Desliguei na cara e o telefone tocou de novo, então, ele disse: ‘não desligue, isso é real'”, contou Stevens em entrevistas posteriores [via Whiplash].

A versão original de “Dirty Diana”, tocada por Steve em estúdio, tinha originalmente mais de 7 minutos de duração, porém, a edição final para o disco foi reeditada para pouco mais de 4 minutos. A música apresenta estrutura e energia próximas ao hard rock oitentista. Como resultado, tornou-se uma das faixas mais pesadas da discografia de Jackson. Curiosamente, a canção quase não entrou no álbum, mas acabou virando um dos destaques da turnê Live Bad World Tour, de 1988.

Slash, parceria duradoura

Já nos anos 1990, Michael buscava uma sonoridade mais agressiva. Por isso, convidou Slash, então guitarrista do Guns N’ Roses, para colaborar em músicas do álbum Dangerous (1991), como “Give In To Me” e apenas na introdução de “Black or White– o que acabou virando uma amizade duradoura que rendeu parcerias nos anos seguintes. “Inicialmente, foi um telefonema do meu empresário, onde ele disse: ‘Michael está tentando entrar em contato com você’, e eu fiquei tipo: ‘Uau!’ Então eu liguei de volta e ele queria que eu tocasse em Dangerous”, disse Slash [viaRolling Stone].

Posteriormente, Michael Jackson e Slash trabalharam nas faixas “D.S.”, do álbum HIStory: Past, Present and Future, Book I (1995); “Morphine”, do álbum de remixes Blood on the Dance Floor: HIStory in the Mix (1997) e “Privacy”, de Invincible (2001). Também já dividiram o palco em algumas ocasiões, incluindo alguns shows da turnê Dangerous World Tour em Tóquio, Japão, a cerimônia do MTV Video Music Awards de 1995 e o evento dos 30 anos de carreira do Rei do Pop, em 2001. 

“Eu fiz minhas coisas, ele realmente gostou e depois ficou me perguntando se eu gostaria de fazer isso ou aquilo. Eu fazia alguns shows aqui e ali e era divertido porque ele era um profissional e tinha um talento incrível do alto. Esse era o principal: ele era incrivelmente fluido musicalmente. É um prazer estar por perto”, lembrou Slash. 

Carlos Santana, em “Whatever Happens”

Apontada por muitos como a melhor faixa de Invincible (2001), “Whatever Happens” é uma pérola perdida da carreira de Michael. A faixa mistura um groove dançante com forte influência latina e conta com a participação do lendário guitarrista Carlos Santana. A canção chegou a ser planejada como o principal single do álbum, com direito a videoclipe, mas a Sony acabou suspendendo toda a estratégia de divulgação. 

Em 2025, Santana lançou o álbum Sentient, com colaborações icônicas, e incluiu “Whatever Happens” e uma versão inédita ao vivo de “Stranger in Moscow”. “Miles Davis não está aqui, e Michael Jackson também não, mas eles estão no meu coração, e isso me deixa muito grato. Aprendi muito com eles. Eu sou um deles”, explicou o guitarrista à Billboard.

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Repórter e Fotógrafa em cobertura de shows, resenhas, matérias, hard news e entrevistas. Experiência em shows, grandes festivais e eventos (mais de mil shows pelo mundo). Portfólio com matérias e entrevistas na Metal Hammer Portugal, Metal Hammer Espanha, The Metal Circus (Espanha) Metal Injection (EUA), Wikimetal e outros sites brasileiros de cultura e entretenimento. Também conhecida como A Menina que Colecionava Discos - [email protected]