Texto por: Rust Machado
“Vocês devem gostar muito de death metal, meus amigos”, disse Steve DiGiorgio ainda nas primeiras músicas, “para virem celebrar essas músicas numa terça-feira à noite”. A euforia do público dizia tudo: em 20 de janeiro, a capital gaúcha lotou o Opinião para ver o Death to All. Programado para as 21h, as lendas Gene Hoglan (baixo), Steve DiGiorgio (bateria), Bobby Koeble (guitarra) e Max Phelps (voz e guitarra) subiram no palco para reviver as glórias da exemplar discografia do Death.
Se um dia os “gaúchos metaleiros” (palavras invocadas por DiGiorgio, e em português!) lamentaram a impossibilidade de ver o grande Chuck Schuldiner, pelo menos nossa geração foi agraciada pelo tempo, que refinou os olhares, reorganizou afetos, e quebrou tabus. O Death To All já vem ao Brasil pela segunda vez, e dessa vez trazendo o álbum Symbolic (1995) na íntegra, em celebração de suas 3 décadas. A tour Symbolic Healing aproveita também pra comemorar os 35 anos de de Spirtual Healing (1990), mas o que entrega na prática é uma fileira de clássicos para fazer marmanjo fazer careta e se acabar.
O quarteto surge para o público ao som de “Infernal Death” rugindo nos PAs, remetendo ao lendário Scream Bloody Gore (1985), e então a banda inicia com “Living Monstrosity” e “Defensive Personalities”, músicas absurdas, mas que honestamente, serviram de prelúdio pro que viria logo mais. A banda impressiona muito, traz toda a crueza dos primórdios do grupo e mostra muito entrosamento. DiGiorgio nos adianta: “Essa é uma tour para celebrarmos Spiritual Healing e, principalmente Symbolic…”, e aqui recebe um ótimo retorno da plateia. “Mas nós tocaremos músicas de todas as eras do Death!”, complementa, fazendo as devidas honrarias ao nome de Chuck, interagindo com um fã que carregava um letreiro com as palavras “Chuck Lives” (Chuck vive), enquanto o set seguia com a aguardada “Lack of Comprehension”.
Steve DiGiorgio assume a comunicação com o público, dominando a ação como ninguém. Sua presença é física e metafisicamente gigante, e sua persona, quase irreverente no universo do Death – adota há muito um estilo hippie, com direito a tocar pedradas como “Altering the Future” e “Zombie Ritual” de sandália no Opinião, portando um imenso baixo de apenas três cordas estranhamente imponente, onde caminha pelas notas em técnica extrema, mostrando fluência e intimidade com os sons que co-criou.
A banda seguiu com “Within The Mind”, a aguardada “The Philosopher” que inspirou o moshpit do Opinião, e encerrou o primeiro ato com “Spiritual Healing”. Aqui, a satisfação do público, que já era imensa, alcançou níveis históricos. DiGiorgio anunciou que iniciariam ali a execução completa de Symbolic, e que algumas daquelas canções não haviam visto os palcos nem na época das tours do disco. O riff hipnótico do imenso clássico “Symbolic” mexeu com os presentes, e naquele momento todo mundo viu que estava vivendo algo que transcendia as expectativas.
Banda tocou ‘Symbolic’ na íntegra
Max Phelps conduz as partes de frontman com uma modéstia estoica e curiosa. Vindo do underground, à frente de bandas como Cynic e Exist, qual fã do Death não se realizaria na vida tocando “Empty Words”, “Sacred Serenity” e “1000 Eyes” ao lado de seus ídolos? A coisa ia ganhando mais e mais proporção, violência, volume de massa sonora, conforme o disco ia seguindo a diante. É necessário dizer que Gene Hoglan, em sua técnica imbatível, brilha como ninguém na execução dos trabalhos, trazendo na memória suas combinações memoráveis e viradas furiosas do disco em meio a um caos maravilhoso.
Desse repertório, a dobradinha “Without Judgement” e “Crystal Mountain” teve uma resposta rápida do público, que foi se apossando cada vez mais da violência transmitida pelas canções, seja pelas pausas e quebras brutais ou por seus vocais extremamente convidativos: “Without judgement what would we do”? / “In the Crystal mountain, evil take its form”. Todos sentiam que caminhávamos para o fim do disco e no moshpit os menos violentos começavam a ceder espaço para rodas que não paravam de crescer. “Misanthrope” com suas longas suspensões, e “Perennial Quest” encerraram a íntegra do álbum e a banda se despediu temporariamente.
Os 4 músicos apresentam uma performance de destaque no universo metálico, inclusive Bobby Koeble. Menos famoso que os colegas, o guitarrista gravou o Symbolic e nessa tour via-se sua satisfação em trazê-lo à vida após 3 décadas. Bobby tem o visual, o estilo e a paixão que são definidores do estilo. A banda retornou para a excepcional execução de “Spirit Crusher”, a mais cadenciada do set, e também uma (outra!) das queridinhas do público, enquanto o grand finale ficou a cargo de “Pull the Plug”, um dos grandes clássicos da primeira fase do Death. O fato de nenhum dos 3 ter gravado os álbuns “Sound of Perseverance” (1998) e “Leprosy” (1988) selou com força o espírito de tributo a Chuck dessa esmerada apresentação.
Fizeram falta canções do Individual Thought Pattern (1993) – afinal não é todo dia que temos 2 das lendas que o gravaram juntas no palco. Quem sabe não estão economizando para um retorno no futuro, trazendo o convidado original Andy LaRocque (do King Diamond) na caravana? É apenas um sonho distante, mas se tem uma coisa que o Death to All está nos proporcionando, é a alegria de ver no palco um antigo sonho compartilhado por gerações de metaleiros do planeta inteiro.
Confira as fotos por Alessandra Felizardi:














