Antes de transformar o Ghost em um dos maiores nomes do heavy metal moderno, Tobias Forge viveu anos no underground sueco tentando conquistar espaço com uma banda de death metal. O grupo se chamava Repugnant e, apesar de nunca alcançar sucesso comercial, deixou uma marca cult na cena extrema e ajudou a moldar o músico que anos depois criaria o fenômeno mascarado.
O Repugnant surgiu em 1998, na cidade sueca de Linköping. Tobias Forge assumiu os vocais e a guitarra usando o pseudônimo Mary Goore, uma brincadeira com o nome de Gary Moore, ex-guitarrista do Thin Lizzy.
Na época, o objetivo era simples: tocar um death metal inspirado pela cena do fim dos anos 1980 e início dos anos 1990. As influências vinham de nomes como Entombed, Death, Autopsy, Sepultura e outros expoentes do estilo.
O sonho que nunca se concretizou
O grupo chamou atenção entre fãs do underground graças aos trabalhos lançados nos primeiros anos de atividade. Mesmo assim, nunca conseguiu dar o salto esperado para uma gravadora de grande porte.
Em entrevistas resgatadas pela Metal Hammer, Tobias Forge admitiu que sonhava alto para o Repugnant. Segundo o músico, seu desejo era assinar contrato com a Roadrunner Records e excursionar ao lado do Slayer. Porém, percebeu que o mercado havia mudado e que o death metal tradicional já não despertava o interesse das grandes gravadoras como no começo da década.
“Partiu meu coração. Eu queria que assinássemos com a Roadrunner e fizéssemos shows de abertura para o Slayer. Isso nunca aconteceu, infelizmente – ou talvez felizmente, pois me manteve com os pés no chão por mais alguns anos e, se essas coisas tivessem acontecido, talvez eu não estivesse aqui hoje. Aprendi da maneira mais difícil, no final dos anos 90, que querer tocar death metal inspirado nos anos 80 com a minha banda era algo dolorosamente fora de sintonia com o que estava acontecendo na época”, disse Tobias à Metal Hammer em 2023.
A banda era formada por Tobias, o guitarrista Sid E Burns (conhecido como Johan Wallin), o baterista Tom Bones (Thomas Daun) e o baixista Carlos Sathanas (Gustaf Lindström). E, embora tenha lançado o EP de estreia, Hecatomb, em 1999, um split com os holandeses do Pentacle (2002), seguido por outro split, Live in Stockholm 21.03.2003 (2003), e o EP Premature Burial, (2004), o Repugnant só ganhou um álbum completo quando praticamente já havia encerrado suas atividades.
Epitome of Darkness chegou ao mercado em 2006, lançado pelo selo holandês Soulseller Records, não houve resenhas, entrevistas e nenhum tipo de publicidade. O disco acabou se tornando uma obra cult entre fãs de death metal sueco e passou a ser valorizado anos depois, quando Tobias Forge ficou mundialmente conhecido com o Ghost – hoje é uma raridade e chega a custar 200 dólares (aproximadamente R$1 mil), segundo o Discogs.
“Não sei se éramos bons o suficiente ou algo assim. Agora, sabendo de muitas coisas que são necessárias, quantas estrelas precisam se alinhar e todas as decisões que você precisa tomar… Posso definitivamente olhar para mim mesmo aos 21 anos e perceber rapidamente por que não consegui alcançar o sucesso com o Repugnant. Eu não era maduro. Não estava pensando. Eu ainda não estava pronto”, disse Tobias ao Loudwire.
Vale lembrar que Tobias Forge começou sua carreira na banda de black metal Absurdum, ainda na adolescência, em sua cidade natal, em meados dos anos 90, antes de se juntar brevemente ao Malign. Eles não foram sua única empreitada, mesmo quando ele era vocalista do Repugnant – ele também tocou no Crashdïet, banda de glam rock, entre 2000 e 2002, e no Subvision, grupo de rock alternativo, a partir de 2002. Mas nenhuma dessas bandas fazia Tobias tão realizado quanto seu projeto de death metal.
A tragédia e o nascimento do Ghost
Em 2010, uma reunião do Repugnant estava marcada para acontecer. Porém, na noite anterior ao primeiro ensaio, em 12 de março, Sebastian Forge, irmão mais velho de Tobias e responsável por apresentá-lo ao universo do metal, morreu de forma inesperada após sofrer um ataque cardíaco. Segundo Tobias, esse é um dos momentos mais marcantes de sua vida.
“A morte de Sebastian aconteceu na noite anterior ao nosso primeiro ensaio, o que é bastante sinistro. Isso mudou muito a minha perspectiva sobre tudo. O primeiro ensaio foi extremamente carregado de emoção. Bem, tecnicamente, o segundo ensaio”, disse Tobias em 2010 [via Loudersound], referindo-se ao fato de seus colegas de banda terem tocado sem ele no primeiro encontro.
Na mesma noite, Tobias colocou no antigo MySpace as primeiras gravações do Ghost. As músicas chamaram a atenção de Lee Dorrian, fundador da Rise Above Records, selo que mais tarde lançaria o álbum de estreia, Opus Eponymous. Ao mesmo tempo, o músico planejava reativar o Repugnant com uma nova formação.
“Para mim, foi como um chamado para fazer isso de novo. Só existe uma maneira de eu fazer música agressiva, e essa é através do death metal, e isso, por sua vez, só consigo fazer através do Repugnant. A banda precisava ser ressuscitada para que eu pudesse expressar o que tenho dentro de mim”, disse ele.
Após o encerramento das atividades, o Repugnant voltou aos palcos em ocasiões especiais. A principal delas aconteceu no Maryland Deathfest 2011, nos Estados Unidos, onde Tobias chegou a dizer que estava compondo o segundo disco do projeto, Toxic Contagion. Curiosamente, o Ghost também fazia parte da programação do festival, permitindo que Tobias Forge apresentasse seus dois projetos no mesmo evento.
Apesar da recepção positiva, o Repugnant foi novamente colocado em pausa. Com o crescimento acelerado do Ghost, manter duas bandas tornou-se inviável. Os compromissos com o Papa Emeritus consumiram seu tempo e fizeram com que os planos para um novo álbum de death metal fossem abandonados. Desde então, o grupo permanece inativo.
No entanto, a possibilidade de um retorno nunca foi completamente descartada. Embora tenha existido por poucos anos e nunca alcançado sucesso comercial, o Repugnant desempenhou papel fundamental na formação musical de Tobias Forge.
Foi nesse período que o compositor desenvolveu sua identidade artística, experimentou composições mais complexas e consolidou a paixão pelo metal extremo. Esses elementos mais tarde apareceriam sob uma nova abordagem no Ghost, banda que transformou Forge em um dos artistas mais influentes do rock contemporâneo.
Em entrevista à Loudwire, ele revelou que ainda sente o mesmo entusiasmo que tinha quando descobriu o death metal na infância. Segundo Forge, esse fascínio permanece vivo até hoje, o que mantém aberta a possibilidade de revisitar o universo do Repugnant no futuro.
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