Neste 10 de janeiro, completam-se 10 anos da morte de David Bowie, e o impacto de Blackstar (2016) segue tão profundo quanto no dia de seu lançamento.
Lançado em 08 de janeiro de 2016, data em que Bowie completou 69 anos, o álbum chegou ao público apenas dois dias antes de sua morte, causada após uma batalha de 18 meses contra o câncer de fígado, que o artista manteve em absoluto sigilo. Com isso, Blackstar deixou de ser apenas um disco inovador para se tornar um ato artístico de despedida, planejado com lucidez, intenção e coragem.
Durante o processo de criação, Bowie já sabia que estava gravemente doente. Em conversas privadas e cartas trocadas com colaboradores próximos, ele deixou claro que queria transformar seus últimos meses em algo criativo. O produtor e colaborador de longa data Tony Visconti (parceiro desde o disco ‘Space Oddity’, de 1969), revelou após a morte do artista que Blackstar foi concebido como um “presente de despedida”, feito para que Bowie pudesse se despedir nos próprios termos.
Por meio de uma mensagem publicada no Facebook, um dia após a morte de Bowie, Tony Visconti disse [via MNE]: “Ele sempre fez o que quis fazer. E queria fazer do seu jeito e da melhor maneira possível. Sua morte não foi diferente de sua vida – uma obra de arte. Ele fez ‘Blackstar’ para nós, seu presente de despedida. Eu sabia há um ano que seria assim. Mas não estava preparado. Ele era um homem extraordinário, cheio de amor e vida. Ele sempre estará conosco. Por ora, é apropriado chorar.”
Na véspera das gravações de seu 26º álbum solo, em janeiro de 2015, David Bowie chamou o produtor Tony Visconti para uma conversa reservada nos estúdios Magic Shop, em Nova York, onde revelou pela primeira vez os efeitos do tratamento contra um câncer de fígado diagnosticado meses antes. Aos 68 anos, o artista contou que esperava vencer a doença, mas admitiu que só tinha forças para trabalhar algumas horas por dia no estúdio.
Em entrevista ao The Guardian, em outubro de 2023, Tony Visconti relembrou o período com emoção: “Houve dias em que ele não conseguiu vir. Mas quando ele se sentava diante do microfone, cantava com toda a sua alma. Eu nunca o tinha visto mais feliz”. O produtor e amigo também relatou ter ficado “profundamente chocado” quando Bowie morreu apenas 48 horas após o lançamento do álbum. “Chorei muito. Foi como perder um melhor amigo”, admitiu.
Letras e vídeos reforçam a ideia do adeus planejado
Segundo Tony Visconti, Bowie descreveu o álbum como sua “obra final”, reforçando que cada detalhe fazia parte de um plano consciente.
As músicas e os vídeos do disco reforçam essa leitura. Em “Lazarus”, Bowie canta sobre partir, observa o próprio corpo falhar e encara a morte sem melodrama. Há também uma referência bíblica: Lázaro foi um homem ressuscitado por Jesus Cristo depois de quatro dias. A faixa se tornaria um lamento sobre a mortalidade e o legado, mas foram as imagens de seu videoclipe, dirigido por Johan Renck, que enfatizaram a mensagem que o artista queria passar.
No videoclipe, David Bowie se mostra acamado em um quarto de hospital frio e revestido de azulejos, usando a mesma máscara de “olhos de botão” vista anteriormente na faixa-título “Blackstar”, elemento amplamente interpretado como uma referência ao ritual mitológico de colocar moedas sobre os olhos dos mortos para pagar a travessia ao além. Ao longo do vídeo, Bowie recita os versos da canção enquanto se agarra aos lençóis em um gesto de medo e fragilidade, antes de levitar sobre a cama, imagem simbólica que sugere uma ascensão espiritual e reforça a leitura do clipe como uma representação visual de despedida e transcendência.
O vídeo foi gravado em novembro de 2015, apenas dois meses antes da morte de Bowie. Em entrevista ao The Guardian, o diretor Johan Renck relembrou sua conversão com Bowie: “Pelo Skype, ele disse: ‘Sinto que preciso te contar isso. Estou muito doente e talvez não consiga […] ‘Nem sei se, quando formos gravar o vídeo, você vai precisar de alguém para me substituir”.
Já a faixa-título “Blackstar” funciona como um ritual de despedida consciente, no qual David Bowie cria uma narrativa fragmentada sobre morte, transformação e transcendência. A letra sugere que a morte não representa um fim, mas uma passagem. Versos como “Algo aconteceu no dia que ele morreu” indicam a separação entre corpo e espírito. O trecho “Não sou uma estrela pop. Eu sou uma estrela negra” consolida uma identidade final, além de personagens e mitos construídos ao longo da carreira.
No videoclipe, também dirigido por Johan Renck, essa ideia se materializa em símbolos fortes. Por exemplo, o astronauta morto pode remeter ao encerramento do Major Tom, e Bowie surge como um profeta cego, conduzindo um ritual fúnebre. A transição musical e visual ao longo dos 10 minutos de duração da música reforça o adeus planejado. Fazendo uma alusão onde Bowie enterra suas próprias personas e transforma a finitude em arte e que mesmo diante da morte, sua obra continuaria a existir além do corpo.
Dez anos depois, Blackstar se consolida como um dos poucos exemplos de um álbum que funciona como epitáfio artístico. David Bowie se despediu do público deixando um legado que transcende o rock.
David Bowie estava escrevendo projeto secreto
David Bowie estava trabalhando em um projeto secreto nos meses antes de sua morte. O musical ambientado no século XVIII, intitulado The Spectator, cujas anotações foram encontradas trancadas em seu escritório em Nova York e agora fazem parte do acervo do Victoria and Albert Museum, em Londres.
O material, nunca finalizado e até então desconhecido até por pessoas próximas a ele, inclui ideias de trama, histórias de gangues e personagens históricos, além de post-its e um caderno dedicado ao periódico londrino The Spectator, que inspirou o título e os temas do trabalho.
As notas, compartilhadas em primeira mão com a BBC, mostram o interesse de Bowie pela movimentação cultural da cidade e do jornalismo cômico da época.
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