12 de janeiro de 1994 marca o dia em que Blaze Bayley assumiu oficialmente o posto de vocalista do Iron Maiden.
Com a árdua missão de substituir ninguém menos que Bruce Dickinson, seu tempo na banda teve críticas, comparações e um forte declínio de popularidade. Isso levou a Donzela de Ferro ao momento mais turbulento de sua história.
Saída de Bruce Dickinson e entrada de Blaze Bayley no Iron Maiden
Quando Dickinson, esgotado de shows, deixou a banda em 1993, o Iron Maiden vivia uma incerteza: quem seria um substituto à altura de Bruce? Somado a isso, a situação pessoal de Steve Harris também não era boa. O baixista acabara de se divorciar.
Contudo, decidido a provar que a banda sempre seria maior do que qualquer integrante, Steve começou a busca pelo novo cantor. A EMI, gravadora do grupo na época, havia decidido realizar um concurso. Fitas do mundo inteiro chegavam para o escritório da banda. Dentre elas, destacavam-se nomes com características semelhantes às de Bruce. O vocalista do Helloween, Michael Kiske e grandes vozes do metal brasileiro como Andre Matos e Edu Falaschi, eram fortemente especulados para o posto.
Entretanto, o nome escolhido foi um velho conhecido da banda: Blaze Bayley, vocalista do Wolfsbane. Coincidentemente, seu grupo havia aberto shows para o Iron Maiden na Inglaterra durante a turnê do álbum No Prayer For The Dying (1990). Até hoje, sua contratação continua sendo motivo de discussão. O motivo: a escolha não se deu por razões técnicas, mas sim pelo fato dele ser britânico.
Em sua audição, Bayley cantou 10 músicas incluindo “Fear of the Dark”, “The Trooper”, “Hallowed Be Thy Name” e “Wrathchild”. Em 2021, ele relembrou o teste em uma entrevista ao 80’s Glam Metalcast [via Whiplash]. “Eles fizeram muitos testes, gravaram muitas fitas, e eles já tinham meus CDs, então eu pedi uma audição e consegui. Eu realmente pensei que eles iriam atrás de alguém que soasse como Bruce Dickinson. Bruce é um vocalista de metal muito influente. Haviam muitos cantores que soavam parecidos com ele por causa disso. Mas acho que eles me escolheram porque eu era diferente e isso começou algo na banda. Foi o começo da era progressiva do Iron Maiden. Eu fiquei chocado. Minha voz é tão diferente, eu achei que não fosse ganhar a vaga”, comentou.
‘The X Factor’, declínio na popularidade e revolta dos fãs chilenos
Como se a pressão da substituição não fosse suficiente, coisas aconteceram para atrapalhar. Ainda na fase de preparação para o novo álbum, o vocalista sofreu um grave acidente de moto. O incidente paralisou a banda e atrasou todo o cronograma de gravações.
Este fato, somado em especial com o inferno pessoal de Harris ocasionou no trabalho mais sombrio do grupo até hoje: The X Factor.
Lançado em 2 de outubro de 1995, o disco marcou uma ruptura visual e sonora imediata. A capa deixava de lado o traço marcante de Derek Riggs, e exibia o mascote Eddie em forma viva, sendo dissecado e lobotomizado. O projeto gráfico de Hugh Syme era considerado tão perturbador que o álbum precisou ser comercializado com capa reversível em algumas regiões para evitar censura.
Musicalmente introspectivo e melancólico, e com temas como depressão, guerras e loucura – em especial músicas como “Sign of the Cross”, “The Aftermath”, “Judgment of Heaven” e “Fortunes of War” -, o disco teve reações mistas. As principais críticas ficaram para o som abafado das guitarras e a ausência de melodias marcantes. Atualmente, o projeto vem sendo redescoberto e ganhando uma segunda chance dos fãs.
À Metal Hammer, Harris escolheu o álbum como o seu favorito do período. “The X Factor em particular é muito bom, mas é um álbum sombrio. Provavelmente porque eu estava em um momento meio sombrio com a saída do Bruce [Dickinson] e passando por um divórcio. Mas o resultado foi poderoso. Você pega coisas negativas e as transforma em positivas, essas emoções vêm à tona e é isso que você pode fazer com elas. Por isso que a música é algo tão poderoso”, contou [transcrição via Metal Injection].
Em Jerusalém, semanas antes do lançamento oficial, sua estreia aconteceu. O show inicial da The X Factour revelou um grande problema: Blaze não tinha capacidade para cantar músicas de seu antecessor no tom original. Enquanto sua voz de barítono casava perfeitamente com o novo disco, ela sofria para atingir as notas mais altas de Dickinson em clássicos como “The Trooper”, “Run to the Hills” e “Hallowed Be Thy Name”.
O problema ficou ainda mais evidente com a recusa da banda em baixar a afinação dos instrumentos. Forçado a gritar para alcançar as notas originais, o desgaste físico foi inevitável, gerando a desaprovação imediata dos fãs mais puristas.
Se o sucesso era estrondoso entre meados dos anos 80 e o início da década de 90, com arenas e estádios lotados ao redor do mundo, o choque de realidade veio no ano seguinte, principalmente nos Estados Unidos. A banda viu-se obrigada a tocar em teatros e clubes para 2.000 a 3.000 pessoas, sendo que muitas dessas apresentações não tinham ingressos esgotados.
Na América do Norte a banda teve reações frias, mas eles apostavam em seu reduto mais fiel para uma boa recepção: a América do Sul. No Brasil, o grupo foi o headliner da terceira edição do Monsters of Rock, no Estádio do Pacaembu, em São Paulo.
Contudo ao chegarem no Chile, conhecido por ter uma das bases de fãs mais intensas e apaixonadas do mundo, se viram diante de uma forte rejeição. Durante uma apresentação em Santiago, um fã cuspiu em Bayley e em Harris repetidamente. O vocalista perdeu a cabeça, interrompeu a execução de “The Trooper” e ameaçou o fã de morte aos gritos.
‘Virtual XI’ e a caótica passagem pela América do Sul
Se The X Factor já mostrava que as coisas não andavam bem, seu sucessor praticamente confirmou isso. Lançado em 23 de março de 1998, Virtual XI é considerado o pior trabalho da banda até hoje. A polêmica “The Angel and the Gambler”, com quase 10 minutos de duração e cujo refrão se repete por exatas 22 vezes, evidenciou isso.
O disco tem seus ótimos momentos, como a épica “The Clansman” e a direta “Futureal”, mas os números foram impiedosos, com o pior desempenho comercial da história da banda até aquele momento. No Reino Unido, o disco amargou o 16º lugar. As vendas globais também tiveram desempenho muito abaixo do esperado. O desinteresse do fã era real.
A turnê fracassou. Apenas 81 shows foram realizados mundialmente. 16 datas foram canceladas após Blaze ter novos problemas com sua voz. Mas o caos teve seu ápice no retorno à América do Sul em dezembro.
Em Campinas, no dia 04 de dezembro, o show agendado para o Estádio Brinco de Ouro foi cancelado em cima da hora. O anúncio gerou uma confusão completa: carros incendiados e o palco depredado. A Tropa de Choque precisou intervir com bombas de gás lacrimogêneo para dispersar os fãs. [via g1].
Nos dias seguintes, a banda cumpriu datas em São Paulo, na Arena Anhembi e em Curitiba, na Pedreira Paulo Leminski. O show na capital paranaense deu sinais claros: o cantor não ficaria no cargo por muito mais tempo. Foi sua última apresentação com a banda no Brasil. Após serem barrados no Chile por questões políticas e encerrarem a turnê na Argentina, ficou evidente que não havia mais clima e o Iron Maiden precisava agir.
Demissão de Blaze Bayley e retorno de Bruce Dickinson e Adrian Smith
Em cinco décadas de existência, o Iron Maiden nunca esteve próximo de acabar. Por conta disso, em janeiro de 1999, Rod Smallwood convenceu Steve Harris de que o retorno de Bruce Dickinson era crucial para voltarem ao topo. Sua volta, juntamente com a de Adrian Smith, transformou o grupo em um sexteto, culminando em uma das maiores reviravoltas da história do metal.
Para Steve, a decisão de dispensar Blaze Bayley foi dolorosa. Em entrevista à Classic Rock, o guitarrista desabafou sobre a dificuldade daquele momento. “Essa é a pior parte de estar em uma banda. Não é algo com o qual eu me sinta confortável. Nunca me senti. Nunca vou me sentir. Mas você tem que fazer o que é certo para a banda.”
Sendo assim, o Bayley foi comunicado oficialmente de sua demissão. Ele encerrou sua fase sem nunca atacar seus ex-colegas. Muito pelo contrário, o cantor sempre demonstrou gratidão pelo tempo que ficou na banda. Em 2016, ele contou ao The Metal Voice que a mágoa pela saída era real e que foram necessário quatro anos para que ele superasse o ocorrido.
“Eu deixei o Iron Maiden, não por escolha, fui demitido. Eles disseram que eu não era bom o suficiente. Perguntei se Bruce estava voltando e eles disseram sim. Acho que o que estava acontecendo no mundo na época é que as vendas de CD estavam caindo. A EMI estava fechando todas as fábricas ao redor do mundo. A indústria do CD estava diminuindo. Diferentes gravadoras estavam se unindo em parcerias diferentes. Então eu acho que foi uma decisão de negócios a volta do Bruce. Eu fiquei muito magoado na época e eu acho que foram quatro anos até eu aceitar de verdade o que havia acontecido”, contou.
Por mais polêmica que seja, esta fase marcou o início da era progressiva da banda. A partir de Brave New World (2000), Steve Harris passou a apostar ainda mais em composições longas e elaboradas. Essa abordagem se torna especialmente evidente em The Book of Souls (2015) e Senjutsu (2021).
Nos dias de hoje, Blaze Bayley se consolidou em sua carreira solo. Com seu carisma, bons álbuns lançados como Silicon Messiah (2000), e conquistando uma base de fãs sólida, ele deu a volta por cima, sendo reconhecido por seu período na banda, mas sem ficar preso ao passado e sempre seguindo com novos projetos.
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