Um dos mais cultuados e melhores guitarristas da atualidade, Richie Kotzen dispensa apresentações. Com uma extensa carreira e tendo dividido os palcos ao lado de nomes como Poison, Mr. Big e The Winery Dogs, o músico virá ao Brasil em abril para realizar duas apresentações do projeto Smith/Kotzen, sendo elas em Curitiba, 24, e São Paulo, 26. Esta última acontece no Bangers Open Air 2026 – ingressos à venda.
Em entrevista ao Wikimetal, Richie falou sobre sua parceria com Adrian Smith, como é compor com o guitarrista do Iron Maiden e mais. Ele ainda comentou se possui planos futuros em sua carreira, abriu o coração ao falar de sua relação com o Brasil e brincou ao dizer o que podemos esperar das apresentações no país. Leia na íntegra.
Wikimetal: No mês passado, vocês se apresentaram em Londres e o Bruce Dickinson subiu ao palco de surpresa para cantar “Wasted Years”. Você já comentou que o seu primeiro show de rock foi do Iron Maiden. Como foi a sensação de dividir o palco juntamente com os compositores de uma das músicas mais icônicas da história do metal?
Richie Kotzen: Foi ótimo! Uma surpresa bastante agradável e fiquei feliz que isso tenha acontecido. O público ficou realmente super animado. Sabe, isso definitivamente elevou a energia no local, e foi algo muito bom, com muitos vídeos por aí que registraram tudo. Então foi uma oportunidade fabulosa e um momento excepcional.
WM: Vocês pensam em incluir mais músicas do Maiden no setlist? Porque o Adrian comentou algumas vezes que “Wasted Years” seria a opção ideal, mas eu sei que há muitas outras que podem ser tocadas.
RK: Bom, na verdade não. A ideia é tocar nosso próprio material, as músicas que Adrian e eu escrevemos juntos. Até incluímos no bis. E, como você pode ver, infelizmente não há mais surpresas. Era para ser meio que um bônus e colocar isso no encore, sabe? Também chegamos a tocar uma música minha, “You Can’t Save Me”. Mas o foco principal é nas músicas que criamos juntos. Então, a ideia de incluir outras músicas que não sejam do Smith/Kotzen está fora de cogitação.
WM: Falando um pouco sobre o Smith/Kotzen: vocês dois dividem vocais e guitarras no projeto. Gostaria de saber como você e ele definem quem cantará determinada parte da música. É algo planejado com antecedência ou resolvido conforme vocês vão compondo?
RK: Resolvemos conforme o processo avança e as músicas são criadas.Às vezes eu tenho uma ideia para um refrão e… Bom, ia dizer que quando ela surge, eu mesmo canto, mas isso acaba não sendo totalmente verdade. Em “Scars”, por exemplo, tive a ideia do refrão e o cantei. Mas, ao mesmo tempo, há outras músicas onde o Adrian teve a ideia e fui eu quem cantei. E também o contrário, quando a ideia é minha e ele canta. Isso faz parte do processo. Muitas vezes as pessoas acham que há um sistema, um método definido de como as coisas surgem.
Mas a verdade é que não há um roteiro a seguir quando se compõe música. Simplesmente acontece de forma muito fluida. Cada ideia, melodia, letra, vem de uma fonte diferente e é tratada de um jeito único. Eu até gostaria de poder dar uma resposta padrão, dizendo: “É assim que se faz”, mas na realidade não é assim.
WM: O Smith/Kotzen inicialmente começou mais voltado para jam sessions. Vocês eventualmente acabaram lançando dois álbuns que tiveram uma boa recepção do público. Isso motiva vocês a já pensarem em um possível terceiro álbum?
RK: Sabe, pessoalmente não costumo olhar muito longe no futuro. Prefiro mais focar no presente e aproveitar o momento. Acho que fizemos dois discos realmente muito legais, e estou feliz por finalmente termos a oportunidade de poder tocar essas músicas ao vivo. Mas eu não sei. Não faço ideia do que vai acontecer. Eu sei que adoro trabalhar com o Adrian, então, se fosse apostar, diria que sim. Quem sabe? Vamos ver.
WM: Black Light / White Noise completará um ano de lançamento agora em abril e é um álbum muito aclamado. Uma das minhas músicas favoritas, “White Noise”, traz uma crítica extremamente atual sobre o vício do ser humano em redes sociais. Como você enxerga o impacto disso em nossa sociedade?
RK: Bom, não sei exatamente o que penso sobre isso. Não quero ser uma daquelas pessoas que ficam falando sobre como é ruim ou algo do tipo. Na verdade, não me importo tanto assim. Ao meu ver, é mais uma forma de manter contato com as pessoas e mostrar o que estou fazendo. É uma ferramenta muito boa para isso, especialmente quando você tem um público, que se interessa por seu trabalho. Por exemplo, ontem [em 17 de março] publiquei um vídeo porque tinha algo que achei legal compartilhar com quem me acompanha.Também encontrei outro vídeo antigo, de um show que fiz anos atrás e que nem lembrava mais. Talvez eu publique esse também. Então, vejo isso como uma maneira bacana de se conectar com as pessoas e deixar todos por dentro do que você anda fazendo.
WM: Sempre gosto de perguntar aos músicos sobre a grande discussão de hoje, que é a criação de músicas geradas por IA. E com você não vai ser diferente, ainda mais sendo um músico extremamente orgânico, que busca inspiração em diversos estilos. Como você enxerga esse cenário atual?
RK: Pessoalmente não me importo muito com isso. Não faz tanta diferença para mim, pois minha música já ficou no passado. Ela já foi feita, lançada, ouvida e simplesmente existe. Acho que isso acaba sendo mais uma questão para outras pessoas. Mas, sinceramente, nem vejo como algo necessariamente bom ou ruim. Para mim, não faz diferença. Não é uma coisa que me deixa preocupado e eu realmente ligue. Talvez não importe justamente pelo fato da minha música já existir. Agora estou trabalhando em material novo, escrevendo novas canções. Em algum momento, terei mais músicas prontas que ninguém ouviu ainda. Aí poderei lança-lás. Se ainda houver um público interessado em escutar, ótimo. Se não, faz parte.
No fim das contas, é apenas algo novo. Isso não existia antigamente. Imagino que, se isso existisse quando eu era jovem, aprendendo guitarra e composição, talvez tivesse influenciado meu caminho. Quem sabe eu nem tivesse me tornado músico profissional, já que haveria máquinas fazendo isso. Mas isso não existia entre as décadas de 70 a 90. Então, para mim, realmente não muda muita coisa.
WM: Você mencionou que está trabalhando em novas músicas. O que pode dizer sobre elas?
RK: Não são músicas ainda. São só ideias. Eu tenho todo tipo delas. Possuo letras anotadas e algumas gravações de parte delas, mas nada está 100% finalizado. Gosto de compor quando não há prazo nem pressão. Não gosto de escrever por obrigação. Prefiro que o motivo seja simplesmente quando surge uma ideia. A partir daí, eu trabalho nela porque é algo que me faz bem. Esse é o meu jeito de trabalhar. Quando a música existe, aí sim eu vejo se quero lançá-lá e compartilhá-la.
No momento estou bem animado com isso, porque tenho feito muitas turnês. Estou na estrada há bastante tempo. O que eu realmente quero agora é ficar em casa por um tempo e aproveitar esse lado da vida. Claro que ainda temos alguns shows pela frente, mas são apenas quatro. Depois disso, quero desacelerar, ficar mais tranquilo e curtir esse período. Isso vai abrir espaço para eu compor mais e voltar a me empolgar em criar novas músicas.
WM: Em 2024, você lançou Nomad, um álbum muito interessante onde você fez tudo sozinho: desde compor, gravar e produzir. Como é o processo de ser a única mente criativa em um trabalho solo e depois trabalhar com parceiros de peso no The Winery Dogs e até mesmo no próprio Smith/Kotzen?
RK: Com certeza é uma postura diferente. Colaborar é muito diferente de simplesmente desenvolver suas próprias ideias. Existe um lado positivo e um lado negativo nisso, e é preciso estar no estado de espírito certo quando você entra em uma colaboração. Você precisa entender que nem todas as suas ideias vão ser bem recebidas. Mas, ao mesmo tempo, é importante acreditar que, no fim, você vai chegar a algo que te empolgue, tenha valor e você deseja compartilhar com as pessoas.
Tenho muito orgulho das minhas parcerias. Gosto muito dos três álbuns que fiz com o Winery Dogs. Claro, também adoro o que fiz com o Adrian, é algo muito empolgante. E quando trabalhei com Stanley Clarke e Lenny White naquele disco de fusion [Vertú, lançado em 1999] lá atrás, também gostei bastante. Existe muito material por aí com o meu nome, então minha visão foi mudando com o tempo. Quando você percebe que já construiu uma obra grande, as coisas passam a ser um pouco diferentes do que eram anos atrás.
Antes era aquela coisa de querer fazer um disco, sair em turnê, sempre seguindo esse ciclo. Hoje eu consigo olhar para trás e pensar que já fiz muita coisa e fico feliz com grande parte disso. Nem tudo, claro, mas a maioria. Sinto que meu trabalho me representa muito bem. Se tudo terminasse hoje, eu pensaria que foi uma trajetória muito boa. E isso muda a forma como eu vejo o futuro. Ele fica mais aberto, porque agora eu só quero trabalhar quando houver uma verdadeira inspiração criativa. Dá até para dizer que, se eu fizer mais coisas, talvez seja em um nível diferente de tudo que já fiz. Só o tempo dirá. Mas tenho muito orgulho de tudo que já fiz e fico feliz por ter vivido tudo isso.
WM: Desde que o Mike [Portnoy] voltou para o Dream Theater, gostaria de saber qual é a situação atual do The Winery Dogs.
RK: No momento está inativo. E, como eu disse, foi uma grande oportunidade trabalhar com aqueles caras. Acho que fizemos músicas incríveis, e tenho muito orgulho do que criamos. O lado positivo da internet é que tudo está lá. Qualquer pessoa pode voltar e assistir, seja apresentações ao vivo, vídeos de estúdio ou gravações. Essa é uma das grandes vantagens de como tudo funciona hoje. Você tem acesso imediato para revisitar esses momentos e aproveitar tudo de novo.
WM: Agora quero falar sobre o Brasil, porque a sua relação com o país é muito interessante. E eu preciso perguntar sobre a Julia, porque além de ser uma excelente baixista, ela também é sua esposa. Como é a dinâmica de dividir o palco com alguém que faz parte da sua vida no dia a dia? Vocês costumam conversar sobre composição em casa?
RK: Sim. Bom, ela é uma ótima compositora. Minha esposa Júlia é uma compositora fantástica. Muitas vezes as pessoas olham e pensam: “Ok, uma baixista que canta e tal”. Mas eu realmente acho que ela é uma compositora incrível. Ela já lançou suas próprias músicas e está sempre escrevendo e criando. Isso é muito inspirador para mim, sabe? Viver com uma pessoa artística e extremamente musical é algo muito especial. Nós já fizemos algumas coisas juntos. Claro, ela toca baixo no álbum novo que fiz com o Adrian e também faz parte da banda, então estamos no palco juntos, o que é ótimo. É simplesmente algo maravilhoso. Sou muito grato por ter isso na minha vida.
WM: Tendo essa convivência familiar com o Brasil e com a nossa cultura, o quanto da musicalidade brasileira você acha que se infiltrou na sua forma de tocar ou compor?
RK: Sabe, os brasileiros estão sempre por perto, na minha casa, e nós temos muitos amigos brasileiros. Eu adoro estar com pessoas do Brasil. É algo muito positivo, a comida é ótima e a energia também. É isso que eu sempre digo: a energia brasileira. Todo mundo parece tão pra cima, e é sempre um prazer estar aí, porque eu simplesmente me sinto feliz. Sabe, há lugares em que você vai e o clima é mais pesado, mais sombrio. Já no Brasil, com as pessoas, a energia é muito mais leve. É uma sensação alegre. Então eu realmente fico ansioso para voltar.
WM: A base rítmica do Smith/Kotzen se destaca por ser 100% brasileira, já que temos a Julia e o Bruno Valverde na bateria. Como isso impacta a dinâmica das músicas, considerando que elas foram gravadas em estúdio e agora estão sendo tocadas ao vivo?
RK: Sim, é ótimo, porque agora existe uma continuidade entre o que foi feito no estúdio e o que acontece ao vivo, e isso funciona muito bem. A conexão entre todos é fantástica, e o nível musical é altíssimo. Os dois tocam em um nível muito elevado. Tudo funciona bem. A ponto de eu até poder cometer algum erro sem que ninguém perceba. Tem sido uma experiência excelente. E sair em turnê com a Julia faz com que muita gente possa imaginar o quão difícil é estar na estrada com a sua parceira.Na verdade, a gente se diverte muito junto.
Isso fez toda a diferença, porque a rotina de turnê pode ser bem cansativa às vezes. Há muitos momentos em que você não está fazendo nada e nem sabe direito o que fazer com o tempo. Mas nós realmente aproveitamos muito a turnê europeia, e estou ansioso para levar isso também para a América do Sul, com certeza.
WM: Quais são os próximos passos de sua carreira e o que podemos esperar do Richie Kotzen no futuro?
RK: A verdade é que eu não tenho planos. Isso me deixa bem animado, porque passei a maior parte da minha vida fazendo planos. Agora eu realmente não tenho, e nem quero. A única coisa que posso dizer é que tenho muitas ideias para música, para composição. Então, o que eu acho que deve acontecer é que, depois dos shows no Brasil, vou ficar por lá mais um tempo, curtindo com a família. Quando voltar para casa, quero descansar e deixar essas ideias musicais tomarem forma, ver no que elas vão dar. Deixar que elas guiem o que virá a seguir. Se, de repente, essas ideias começarem a se desenvolver e eu me empolgar, isso pode me levar a fazer um novo álbum solo, e talvez até uma nova turnê. Mas, se não der em nada, bom, aí acho que vou ficar deitado à beira da piscina até aparecer algo melhor.
WM: No próximo mês, vocês tocarão no Bangers Open Air e também farão uma apresentação em Curitiba. O que podemos esperar desses shows?
RK: Caos total e destruição completa. Não, estou brincando. Bom, acho que vocês podem esperar um show de rock. Vamos tocar nossas músicas da melhor forma possível. Temos uma base rítmica brasileira incrível, então vocês já sabem o que isso significa. O Adrian e eu estamos muito bem ensaiados, porque acabamos de fazer uma turnê de cinco a seis semanas pela Europa. Então sabemos exatamente o que fazer e estamos muito animados para ir até aí tocar para vocês.
WM: Você poderia mandar um recado aos leitores do Wikimetal para encerrarmos nossa conversa?
RK: Sim! A mensagem é: muito obrigado pelos anos de apoio. Faço turnês no Brasil há bastante tempo e adoro me apresentar aí. Vocês sempre foram muito gentis comigo ao longo dos anos, e estou super animado para voltar. Mal posso esperar para tocar aí novamente!
LEIA TAMBÉM: Entrevista: Julia Lage e Bruno Valverde detalham experiência ao lado do Smith/Kotzen
