Poucos vocalistas marcaram o rock tanto quanto Bon Scott. Nascido na Escócia e criado na Austrália, Ronald Belford Scott entrou para o AC/DC em 1974 e rapidamente se tornou a voz e o principal letrista da banda. Seu estilo irreverente, letras cheias de humor e presença de palco ajudaram a transformar o grupo em um dos maiores nomes do rock.
Ao lado dos irmãos Angus e Malcolm Young, Scott gravou discos fundamentais como High Voltage (1975), Dirty Deeds Done Dirt Cheap (1976), Let There Be Rock (1977), Powerage (1978) e Highway to Hell (1979). Este último colocou o AC/DC definitivamente no mercado internacional e preparavou o caminho para um sucesso ainda maior. Porém, a morte trágica de Bon Scott mudou os rumos, e continua cercada de dúvidas, marcada por versões contraditórias, lacunas na investigação e poucos fatos que resistem a uma análise detalhada, proporcionando diferentes teorias sobre a morte de Bon Scott.
Dias que antecederam a morte de Bon Scott
Em 15 de fevereiro de 1980, Bon Scott participou de uma sessão de estúdio com Angus e Malcolm Young. Os guitarristas já trabalhavam em músicas que fariam mais tarde parte de Back in Black, como “Have a Drink on Me” e “Let Me Put My Love into You”. Na ocasião, Scott chegou a tocar bateria durante a sessão, mas ainda não havia escrito as letras do novo álbum.
“Bon, um pouco antes de morrer, se juntou a mim e Malcolm, foi para a bateria e Mal disse a ele: ‘Ah, Bon! Vá para a bateria, nós precisamos de um baterista’, e era isso que ele amava. Bon queria ser o baterista da banda. Foi engraçado, na primeira vez que nos reunimos, apareceu esse cara dizendo: ‘Eu sou seu novo baterista.’ Mal o convenceu a cantar, a ficar na frente do palco. Então, lá estava ele no final novamente. Na última vez que o vimos, lá estava ele, atrás do kit. Ele tocou na introdução de uma das faixas. Acabou não sendo uma das melhores músicas, mas a introdução era ótima, apenas a introdução dela”, relembrou Angus em entrevista ao BraveWords [via Whiplash].
Três dias depois, na noite de 18 de fevereiro, Scott saiu com seu misterioso amigo Alistair Kinnear para beber em Londres. Os dois passaram pelo clube The Music Machine (atual KOKO), no famoso bairro de Camden. Segundo o relato oficial apresentado por Kinnear à polícia, o vocalista ficou extremamente embriagado durante a madrugada. Como não conseguiu acordá-lo nem levá-lo para dentro do apartamento, o amigo decidiu deixá-lo dormindo no banco do passageiro de seu carro, um Renault 5, estacionado em East Dulwich.
Na tarde do dia 19 de fevereiro de 1980, Kinnear retornou ao veículo e encontrou Scott inconsciente. O cantor foi levado ao King’s College Hospital, mas já chegou sem vida. Ele tinha apenas 33 anos.
A causa oficial da morte
O laudo do legista concluiu que Bon Scott morreu por intoxicação alcoólica aguda, classificando o caso como “morte por infortúnio”. A versão mais aceita afirma que o cantor aspirou o próprio vômito após perder a consciência devido ao excesso de álcool.
Durante décadas, historiadores, biógrafos e fãs debateram os detalhes daquela noite. Há muito tempo existe ceticismo em relação a se Kinnear era apenas um conhecido ou se “Alistair Kinnear” era um pseudônimo de alguém do círculo íntimo de Scott. Para aumentar o mistério, Kinnear praticamente desapareceu logo após o incidente e, segundo relatos, sumiu no mar em 2006.
O biógrafo de Bon Scott, Clinton Walker, chegou a acreditar que Alistair Kinnear fosse apenas um pseudônimo e que a pessoa sequer existisse. No entanto, Kinnear era real e, no mesmo ano em que essa teoria ganhou repercussão, em 2005, ele reapareceu e concedeu uma declaração à revistaMetal Hammer. Leia um trecho abaixo:
“Sempre relutei em falar sobre as circunstâncias da morte de Bon Scott, porque sempre considerei que esse era um assunto privado, que dizia respeito à família e aos amigos mais próximos dele. No fim da noite, ofereci uma carona para Bon. Quando nos aproximávamos do apartamento dele, percebi que havia perdido a consciência. Deixei Bon no carro e toquei a campainha de seu apartamento, mas ninguém atendeu. Fui então até a casa de Silver Smith [ex-namorada de Bon]. Ela me disse que Bon costumava desmaiar com frequência e que o melhor era deixá-lo dormir até se recuperar.
“Voltei para meu apartamento e tentei tirá-lo do carro, mas ele era pesado demais para que eu conseguisse carregá-lo sozinho. Reclinei o banco do passageiro, cobri Bon com um cobertor e subi para dormir. Na tarde do dia seguinte, voltei ao carro. Bon parecia estar dormindo, mas não consegui acordá-lo. Levei-o imediatamente ao King’s College Hospital, onde fui informado de que ele já havia chegado sem vida. Lamento profundamente a morte de Bon. O que espero que fique dessa experiência é que todos cuidemos melhor de nossos amigos e, quando não soubermos exatamente o que está acontecendo, preferimos agir com cautela.”
Anos depois, uma nova análise sugere morte por overdose de heroína
Anos depois, em 2016, a reportagem The Last Highway: The Untold Story of Bon Scott’s Death, publicada pela Classic Rock e escrita por Jesse Fink, revisitou as circunstâncias da morte de Bon Scott e questionou diversos pontos da versão oficial.
Um dos principais objetivos de Jesse Fink foi demonstrar que os relatos sobre os acontecimentos apresentam diversas contradições. Ele compara as versões de Alistair Kinnear com as de outras pessoas que viram Bon naquela noite, destacando diferenças sobre horários, ligações telefônicas, deslocamentos e até sobre quem estava presente na noite de 18 de fevereiro. Segundo ele, essas inconsistências tornam a narrativa oficial pouco confiável.
Jesse Fink investigou o ambiente frequentado por Bon Scott naquela época, afirmando que várias pessoas presentes na noite de sua morte tinham ligação com o consumo de heroína e apresentou depoimentos que sugerem que a droga circulava entre alguns frequentadores do clube The Music Machine, em Londres.
O trecho mais controverso traz entrevistas com Zena Kakoulli, esposa de Peter Perrett e empresária da banda The Only Ones, que afirma ter estado com Bon e Alistair naquela noite. “Eu estava lá quando ele morreu, pois passei a noite no apartamento do Alistair. Não o vi usar heroína, mas tanto Alistair quanto Silver eram usuários na época. Acho provável que [Bon] tenha usado heroína, pois não imaginaria que alguém acostumado a beber passaria mal. É sabido que usar heroína após beber, principalmente se não é o hábito, pode causar vômitos e até desmaios. Mas só posso presumir que foi isso que o fez adormecer e vomitar depois. Ele não parecia estar excessivamente embriagado”, revelou Zena.
Koulla Kakoulli, irmã de Zena e integrante da banda Lonesome No More, também viu Bon nas últimas horas de sua vida. Alistair ficou com ele a maior parte da noite. Acho que não devo dizer nada. Tudo o que posso dizer é que Alistair estava muito envolvido com heroína na época da morte de Bon. Eu sei que [Bon] estava morto no carro lá fora.”
Outra pessoa que estava no The Music Machine naquela noite e não quis ser identificada revelou outra informação polêmica: “Bon bebeu muito naquela noite. E eu ficaria muito surpreso se ele também [como Alistair] não tivesse usado muitas drogas naquela noite, principalmente heroína. Não quero chatear ninguém a essa altura do campeonato. No fim das contas, foi um acidente trágico. Mas [falando] como um ex-viciado, Bon parecia estar sob efeito de drogas.”
Com base nesses depoimentos, Jesse Fink sustentou a hipótese de que Bon Scott não morreu apenas por intoxicação alcoólica, como concluiu o inquérito oficial. O autor defendeu que o vocalista provavelmente sofreu uma overdose de heroína, posteriormente encoberta pelas circunstâncias do caso. Ele também criticou a investigação policial e o trabalho do legista, classificando-os como superficiais.
Como ficou o AC/DC após a tragédia
A morte de Bon Scott abalou profundamente os integrantes do AC/DC. Em entrevista ao BraveWords [via Whiplash], Angus Young afirmou que a perda foi devastadora e lembrou do carinho que a banda tinha pelo vocalista.
“Eu acho que é algo que simplesmente faz parte de você. É como quando você perde alguém próximo, da família ou um bom amigo. Você sempre tem a sensação que eles estão lá, mas, eu acho que, você sente falta física deles. Sempre existem as memórias que acabam voltando à sua cabeça, e não importa que situação seja. Você pode estar viajando, pode estar relaxando em algum lugar, indo tocar ou em estúdio, sempre tem alguma coisa que te faz lembrar”.
Logo após a morte de Bon Scott, os integrantes cogitaram encerrar as atividades do AC/DC. A família do cantor, porém, incentivou a banda a continuar. Poucas semanas depois, os irmãos Young escolheram Brian Johnson, então vocalista do Geordie, para assumir os vocais. A decisão também levou em consideração o fato de Bon já ter elogiado Johnson anteriormente.
“Eu lembro que a primeira vez que ouvi o nome de Brian, foi através de Bon. Ele comentou que estava na Inglaterra, uma vez, em turnê com uma banda e que Brian estava em uma banda chamada Geordie e Bon disse ‘Brian Johnson, ele era um ótimo cantor de rock and roll, ao estilo do Little Richard.’ E esse era o grande ídolo de Bon, Little Richard. Eu acho que quando ele viu Brian, naquela vez, para Bon foi como ‘Bem, aí está um cara que sabe do que se trata o rock n’ roll’. Ele comentou isso com a gente na Austrália. Eu acho que quando a gente decidiu continuar, Brian foi o primeiro nome que surgiu para mim e para Malcolm, então dissemos que deveríamos tentar achá-lo”, revelou Angus.
Em julho de 1980, o grupo lançou Back in Black, álbum dedicado à memória de Bon Scott. O disco vendeu mais de 50 milhões de cópias em todo o mundo e se tornou um dos álbuns mais vendidos da história da música.
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