O Cine Joia recebeu um dos nomes mais icônicos e imprevisíveis da história do pós-punk no último dia 08. John Lydon, aos 70 anos, subiu ao palco com o Public Image Ltd (PiL) para um show que entregou intensidade, irreverência e uma sonoridade impecável. Após 34 anos sem tocar no Brasil, a expectativa era grande e a casa estava lotada. O som estava cristalino, potente e fiel ao DNA do PiL, com a banda tocando com precisão cirúrgica do início ao fim.  

Logo ao entrar no palco, Lydon foi direto: “Boa noite, esse é o PiL. Tivemos 2 horas de sono desde ontem, mas não vou ficar me desculpando”. E cumpriu a promessa. Sem enrolação, a banda atacou com “Home” e “Know Now”, já mostrando que a performance não seria de qualquer jeito. Em “Corporate”, antes mesmo de começar a música, John assoou o nariz na mão e cuspiu no chão, mostrando que sua rebeldia continua viva e bem-humorada, longe de qualquer protocolo de etiqueta.

A partir de “World Destruction” (cover do Time Zone), o público, que inicialmente parecia um pouco contido, começou a se soltar de verdade. A dançante “This Is Not a Love Song”, fez o Cine Joia vibrar. A sequência com “Poptones” e a emocionante “Death Disco”, dedicada aos amigos e parentes perdidos, demonstrou a profundidade e a versatilidade do repertório da banda, enquanto “Flowers of Romance” ganhou textura única com o guitarrista usando arco de violino na guitarra.

Em um raro e tocante momento de afeto, Lydon expressou sentir falta dos brasileiros e revelou que a próxima música, “Shoom”, foi inspirada em seu pai. A banda seguiu com “Warrior”, mantendo a intensidade e a atmosfera densa que caracterizam seu som.

A banda se despediu com “Public Image”, talvez a faixa que mais evoca a energia de sua ex-banda, os Sex Pistols, principalmente nas linhas vocais. Lydon comentou que normalmente fumaria um cigarro naquele momento, o que levou alguns fãs a jogarem cigarros no palco em um misto de humor e admiração. A música foi amplamente celebrada e cantada em uníssono pelo público. Lydon se despediu, alegando que estava muito quente e que precisavam de “3 minutos” para voltar, pedindo a todos que esperassem.

O retorno para o bis foi marcado pelo deboche característico de Lydon, que brincou dizendo que o público estava “fazendo uns velhos trabalharem para viver”, antes de agradecer a presença de todos. O encore começou com uma versão bem dançante de “Open Up” (cover de Leftfield), seguida pelo maior hit da banda, “Rise”, que fez todos cantarem e marcou o momento das apresentações dos integrantes da banda.  A noite se encerrou com a poderosa tríade “Annalisa / Attack / Chant”, na qual Lydon, injuriado e com sua voz potente, mostrou toda a sua fúria e paixão, deixando os fãs extasiados. A despedida foi à altura do espírito provocador de Lydon, que pediu ao público que o xingasse, resultando em uma gritaria generalizada e calorosa.

Mais do que um simples show, a apresentação do PiL no Cine Joia foi um encontro com a história viva do pós-punk. Com execução impecável e uma banda em plena forma, ficou claro que a força do repertorio do PiL é suficiente para suprir as expectativas do público sem recorrer a sua ex-banda. Depois de mais de três décadas, valeu cada minuto de espera. O pós-punk clássico ainda tem muito a dizer, e sem dúvidas,  Lydon continua sendo um dos seus maiores porta-vozes.

Atual editora-chefe do Wikimetal. Jornalista musical há 4 anos, entusiasta de metalcore, nu metal e post-hardcore. Fã de cultura pop e cinéfila de Twitter e Letterboxd. Contato: [email protected]