Pauta: Jéssica Marinho
Entrevista: Vitor Melo

Nevermore, uma das principais bandas de metal dos anos 1990, está de volta aos palcos após um hiato de quinze anos. Com uma nova formação, o quinteto norte-americano retorna ao Brasil pela primeira vez desde 2006 como uma das principais atrações do Bangers Open Air 2026 – ingressos à venda no Clube do Ingresso

Em entrevista ao Wikimetal, o guitarrista e membro fundador Jeff Loomis falou sobre o processo de escolha dos novos integrantes, como foi o show de retorno da banda, o legado de Warrel Dane e mais. Ele ainda comentou quais são os planos futuros do grupo e disse o que podemos esperar da apresentação no festival. Leia na íntegra. 

Wikimetal: Depois de tantos anos de hiato, o que fez você sentir que este era o momento certo para trazer o Nevermore de volta?

Jeff Loomis: Bom, eu estava comentando com os outros entrevistadores que, basicamente, após minha passagem pelo Arch Enemy, onde passei bons dez anos, que realmente comecei a conversar com Van Williams, o baterista do Nevermore, sobre a possibilidade de reformulamos a banda. E a pergunta que surgia muito era se isso seria sequer possível. Porque, como sabem, o Warrel tinha um estilo vocal muito distinto, certo? Como diabos você encontra alguém que consiga realmente dar conta do estilo vocal dele? Então, para encurtar a história, nós simplesmente seguimos o método antigo e fizemos uma daquelas audições tradicionais em busca de um novo vocalista e de um novo baixista, e acabamos recebendo mais de setecentas inscrições. 

É muita coisa. Nós passamos literalmente cerca de dois meses analisando cada uma delas e encontramos esse cavalheiro chamado Berzan Önen, de Istambul. E ficamos tipo: “Meu Deus, esse cara consegue realmente cantar como o Warrel”. Ele tem a mesma essência nos vocais e consegue atingir as notas corretamente. Mas, ao mesmo tempo, possui seu próprio estilo também, porque não estávamos procurando por um clone exato do Warrel Dane. Queríamos alguém que pudesse cantar as músicas antigas, mas que também fizesse algo próprio, do seu jeito. Então pensamos, é isso, esse cara consegue. Basicamente ligamos para ele e o conhecemos um pouco melhor. O mesmo aconteceu com o baixista,Semir [Özerkan], que também é turco, mas vive nos Estados Unidos.

Já com o Jack [Cattoi], o guitarrista, foi um pouco diferente. Eu o encontrei quando estava na Califórnia fazendo vídeos para a marca de captadores de guitarra Seymour Duncan, que é onde ele trabalha; Eu estava lá gravando, entreguei minha guitarra para ele segurar e ele começou a tocar coisas do Nevermore. E eu fiquei tipo: “meu Deus, você é um guitarrista muito bom, o que anda fazendo?” Então perguntei isso e Jack foi o primeiro a realmente se juntar à nova formação do Nevermore.

Dito tudo isso, nos reunimos coletivamente como banda em janeiro para ensaiar vinte e cinco músicas. E este é o vídeo que você viu com o [youtuber] Ola Englund que acabou de ser lançado. Basicamente descobrimos que poderíamos fazer isso como uma banda. E aqui estamos nós, seis dias após o primeiro show que acabamos de fazer em Istambul, que foi simplesmente fenomenal. Estava mais do que lotado. O público cantava todas as músicas. E foi realmente uma daquelas situações em que pensamos: “ok, o primeiro já foi, agora podemos fazer isso como uma banda”. E aqui estamos, a caminho da América do Sul agora

WM: Falando sobre o Warrel, sua ausência é inevitavelmente sentida pelos fãs. Como você equilibra a homenagem ao legado dele com a necessidade de seguir em frente?

JL: Quando a banda se desfez lá por volta de 2010, nossa relação interna não era das mais saudáveis, sabe? Van e eu estávamos seguindo por um caminho e o Warrel e o Jim [Sheppard, baixista] seguiam por outro. Era tipo um cabo de guerra, uma disputa por controle; Era péssimo. Não era um lugar legal para se estar. Dito isso, muita gente está perguntando sobre o Jim com coisas como: “Por que você não o convidou para voltar à formação?” Bom, a resposta curta para isso é que Van e eu não falamos realmente com ele nesses últimos dez anos, sabe? Ele está morando em algum lugar no Alasca com sua esposa.

E, basicamente, Van e eu queríamos apenas começar do zero, e ao mesmo tempo honrar o legado do Nevermore, do Warrel Dane e tocar essas músicas para as pessoas que querem ouvi-las novamente. E, claro, vamos compor faixas novas também, o que deve acontecer muito em breve. Nós realmente queríamos voltar como uma banda sólida para tocar as músicas, escrever material novo, mas também honrar o legado dele, suas canções e que pudéssemos tocá-las novamente para pessoas que são grandes fãs da banda.

WM: A morte de Warrel Dane aconteceu em São Paulo e teve um impacto ainda mais intenso para os fãs e para toda a cena local. Agora, a banda retorna para São Paulo, como você está processando tudo isso, tanto no aspecto pessoal quanto musical?

JL: É difícil. Sabe, a morte não é uma situação fácil. E havia um monte de coisas que eu gostaria de ter dito antes dele falecer. Mas, infelizmente, o tempo de Warrel Dane nesta terra foi curto, sabe? É realmente triste. O que você diz diante de algo assim? É apenas algo prematuro, claro. E eu gostaria de tê-lo de volta, sabe, para poder passar um tempo com ele e conversarmos. Mas o melhor que podemos fazer agora é simplesmente honrar o seu legado, as suas letras e seguir em frente, sabe? E escrever mais músicas e nos manter positivos. É isso que queremos fazer.

WM: Olhando para toda a trajetória do Nevermore, o que esse retorno significa para você em nível pessoal? Existe algo que você faria diferente dessa vez?

JL: Bom, acho que muita gente sabia antigamente que o Nevermore era conhecido como uma banda festeira. Estou fazendo muitas coisas de forma diferente hoje em dia. Não caio mais na farra e nem bebo mais. Estou sóbrio desde 2013, sabe? Então a música para mim é a minha única paixão. E poder voltar e fazer isso de forma adequada, sair em turnê direito e fazer as coisas do jeito certo significa tudo para mim. Ter essa segunda oportunidade de novo para fazer isso é fenomenal. E é isso que estou fazendo. Estou aproveitando a oportunidade para fazer as coisas do jeito certo.

WM: Você acompanha comentários e reações do público nas redes sociais sobre o retorno da banda ou prefere se manter distante desse tipo de pressão?

JL: Dou uma olhada rápida por cima deles, entende o que quero dizer? Só para ver qual é a vibe geral e, para ser sincero com você, 98,9% de tudo o que tenho lido tem sido extremamente positivo. É claro que você vai ter aqueles 2% por aí que não estão felizes com isso, é assim mesmo. Muita gente por aí ama e valoriza o Warrel Dane, mas, ao mesmo tempo, há outras pessoas dispostas a aceitar que estamos tentando seguir em frente e fazer algo legal, sabe?

Mas se isso afeta a maneira como me sinto ou penso? Não. Quero dizer, tenho feito isso a minha vida toda. Desde os meus vinte e poucos anos e estou com cinquenta e quatro agora; Então, quando vejo um ou outro comentário negativo, tipo, qual é a novidade? Sempre vai ter gente por aí destilando esse tipo de coisa, então eu realmente não me importo. E, no fim das contas, todo mundo tem direito à sua própria opinião, certo?

WM: E na última semana, como você mencionou, a banda retornou aos palcos pela primeira vez em onze anos para se apresentar na Turquia. Gostaria de saber como você se sentiu com isso

JL: Foi fenomenal. O show estava com os ingressos esgotados e o público cantou basicamente todas as músicas. Foi simplesmente matador, sabe? Sentimos que tivemos muito apoio naquela noite e fomos muito bem recebidos. Foi realmente um ótimo show. Algo para definitivamente entrar para a história. É um dos melhores shows que já fizemos, com certeza.

WM: Já existem planos para material inédito? A banda já começou algum processo de composição ou o foco está totalmente nos shows?

JL: Tudo está acontecendo ao mesmo tempo. A maneira como fizemos isso foi meio que de trás para frente. Sabe, muitas bandas lançam um single primeiro, nós voltamos como a reformulação de uma nova banda e começamos a marcar shows. Mas as músicas estão sendo trabalhadas coletivamente agora como banda e provavelmente lançaremos um disco novo em algum momento no início do ano que vem. Então estamos trabalhando em tudo. Shows e músicas novas. Vamos sair em turnê para abrir alguns shows do Savatage neste verão [na Europa] e também faremos o mesmo com  o Judas Priest. Então, com certeza, muitas coisas boas estão a caminho.

WM: E nos anos 90, o Nevermore surpreendeu a música ao misturar thrash, prog e power metal e usar guitarras de sete cordas de um jeito tão único. Agora esse tipo de som se tornou o padrão para muitas bandas da atualidade. Como você vê a cena do metal hoje? Porque, de certa forma, o Nevermore ajudou a criar esse caminho.

JL: Essa é uma ótima pergunta. Como eu vejo o metal hoje? Sabe, as coisas evoluíram muito, não é mesmo? Tipo, muita gente consegue simplesmente compor um álbum inteiro em seu próprio porão. Antigamente, quase parecia que um álbum era tratado com mais importância, tipo o produtor aparecia, ia aos seus ensaios e começava a juntar ideias e tal, e todos discutiam bastante sobre as músicas uns com os outros. Mas agora tudo é feito meio que na casa de cada um, por conta própria. E as coisas estão bem diferentes hoje em dia. Se é para melhor? Não sei.

Com o Nevermore, nós vamos manter à moda antiga. Não estamos usando nada de Inteligência Artificial nem nada do tipo para compor. Tudo é muito orgânico. Eu gosto de começar a música com uma base simples com baixo e bateria, apenas, e então criar o riff em cima disso, sabe? Sou muito das antigas quando se trata de compor músicas. Gosto de manter as coisas assim. Acho que isso mantém tudo fresco e, é assim que continuaremos a fazer as coisas como banda.

WM: Sua ex-banda, o Arch Enemy também se apresentará no Bangers Open Air e como headliner do primeiro dia. Sua saída em 2022 já estava relacionada com os planos da volta do Nevermore? Existe uma chance de você reencontrar seus ex-colegas lá?

JL: Eu não sei. Sei que eles tocam em um dia diferente do nosso. Acho que no dia anterior. Como todo mundo sabe, deixei a banda de forma amigável. Sou muito amigo de todos aqueles caras e da [ex-vocalista] Alissa [White-Gluz]; Mas não acho que eu já estivesse pensando no Nevermore ao final da minha passagem pelo Arch Enemy, mas foi logo em seguida. Depois que eu saí da banda de vez, foi quando o Van e eu começamos a conversar e as ideias sobre a banda começaram a fluir de verdade. Quanto a encontrar o pessoal do Arch Enemy, ainda somos grandes amigos, e passamos um bom tempo juntos. Dez anos é muito tempo para ficar em uma banda e sair em turnê juntos. Tenho muitas memórias ótimas de lá e ainda nos falamos o tempo todo.

WM: Os fãs brasileiros são conhecidos mundialmente pela recepção nos shows. Qual a expectativa para o show no Bangers Open Air?

JL: Espero que eles enlouqueçam de vez. Tenho ótimas lembranças de tocar na América do Sul no início dos anos 2000, e a galera ficava simplesmente maluca, então espero que seja uma bela repetição disso. E vamos ver se vocês conseguem superar o público de Istambul.  Vamos ver se isso vai acontecer (risos).

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Categorias: Entrevistas

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