O My Chemical Romance voltou aos palcos com a turnê Long Live: The Black Parade e finalmente retornou ao Brasil após 18 anos. A banda se apresentou na noite da última quinta-feira, 05, no Allianz Parque, com abertura especial do The Hives. Nesta sexta-feira, 06, a banda fará um show extra no mesmo local – ainda há alguns ingressos disponíveis.
The Hives, necessários e sempre bem-vindos
Os suecos do The Hives construíram uma carreira marcada pela urgência do garage rock e por uma postura cênica que sempre flertou com a provocação. A banda ganhou projeção internacional no início dos anos 2000 com Veni Vidi Vicious (2000), impulsionados pela energia contagiante nos palcos – e não havia banda mais apropriada para abrir os shows do My Chemical Romance pela América Latina.
O show manteve o mesmo conceito que sustenta a trajetória da banda – e foi apresentado na sua última passagem pelo Brasil, em 2024 -, cheio de intensidade, comunicação direta e controle absoluto do público. E, mesmo que não seja a sua base de fãs, o público enalteceu a performance que os aqueceu para o show principal.
A apresentação foi um ataque contínuo, com músicas curtas, executadas sem pausas longas, criando uma sensação de puro rock’n’roll, direto e reto. O repertório de apenas 11 músicas equilibrou clássicos da discografia com faixas mais recentes, mantendo o ritmo sempre em alta.
Desde os primeiros acordes, o público responde com pulos, gritos e participação constante, seguindo as provocações do vocalista Pelle Almqvist e transformando o show em uma troca de energia.
Aliás, Pelle é um dos elementos centrais do espetáculo, atuando como mestre de cerimônias, conduzindo o público com comandos precisos e ensaiados em português. Logo na primeira música, “Enough Is Enough”, Pelle ordenou ao público: “Pular, pular, paulistas”, reforçando o caráter performático do show, que mistura humor, arrogância e carisma de forma consciente e eficaz.
The Hives apostam na simplicidade, onde os tradicionais ternos pretos e brancos (dessa vez, com luzes), a iluminação direta e o palco sem excessos ajudam a manter o foco na atuação e na interação. Em vários momentos, o vocalista foi até o público, sentiu a energia e o calor que o recebeu de braços abertos, sendo o ápice durante a faixa “Tick Tick Boom”. The Hives trouxe uma energia jovial, mas com a experiência e confiança de veteranos.
A pressão em tocar em um estádio lotado, com um público que em maior parte não é o seu, parece um enorme desafio, mas foi aceito e entregue com maestria. Ao encerrar o show com “The Hives Forever Forever The Hives”, a banda deixou clara a necessidade de mais bandas com essa no cenário. The Hives, que provou que não precisa de muito para fazer um show digno de headliner e já conquistar lugar na lista de melhores do ano de 2026.
My Chemical Romance superou as expectativas
A reunião recente do My Chemical Romance tem transformado cada apresentação em um evento carregado de memória afetiva, confirmando o impacto cultural que a banda construiu desde o início dos anos 2000. O grupo ganhou projeção com Three Cheers for Sweet Revenge (2004), alcançou o auge criativo e comercial com The Black Parade (2006) e consolidou sua versatilidade em Danger Days: The True Lives of the Fabulous Killjoys (2010). E essa turnê mostra isso, focando na obra conceitual The Black Parade.
O público literalmente voltou aos anos 2000, todos trajados com o visual icônico da banda – roupa preta e gravata vermelha. Além dos itens obrigatórios do visual emo, aguardando ansiosamente para cantar hinos de uma banda que marcou uma geração.
A turnê Long Live: The Black Parade amplia o universo criado pelo álbum, que originalmente abordava temas como identidade, vida e morte a partir da história de “O Paciente”. No novo espetáculo, o My Chemical Romance resgata o alter ego da era de 2007 e o insere em uma narrativa mais elaborada, ambientada no país fictício de Draag, governado por um regime autoritário liderado pelo Grande Ditador Imortal – leia mais detalhes do conceito em nossa matéria especial..
Ao longo do show, a banda executou o disco na íntegra, onde as faixas ganharam arranjos exclusivos para a turnê, como a faixa “Mama”, cantada com participação da cantora de ópera Charlotte Kelso, que deu papel à personagem Enfermeira, e “Ternangers”, que ganhou uma cenografia de programas infantis retrô – e macabros.
O My Chemical Romance apostou muito na parte visual, tornando o espetáculo grandioso, com projeções, iluminação, pirotecnia e cenografia que reforçam o clima sombrio e operístico do álbum, entrando no patamar dos shows grandiosos que investem no visual para transformar o concerto em uma experiência narrativa, indo além da execução musical. Para encerrar, uma cena cômica, mas macabra, onde o vocalista Gerard Way mostra seu lado artístico atuando como um ceifador de filmes gore, criando um espetáculo que podemos chamar de “Absolute Cinema”.
Gerard Way conduz a apresentação com uma atuação teatral equilibrada por discursos pontuais, enquanto a banda sustenta um show intenso, tão grandioso que pode calar a boca dos haters de emo.
A banda presenteou os fãs de diferentes gerações, que retribuíram cantando cada verso em coro, transformando momentos como “Welcome to the Black Parade” – que se tornou o hit do emo -, “I Don’t Love You” e “Famous Last Words” em pontos de catarse coletiva – esta última faixa encerra o primeiro ato incendiando literalmente o Allianz Parque.
O ápice foi no segundo ato do show, onde a banda apresentou os maiores hits, dando espaço para estrear nesta turnê a faixa “The World Is Ugly” e o b-side queridinho dos fãs “Cemetery Drive”, dedicada ao quadrinista brasileiro Gabriel Bá, com quem Gerard Way trabalhou na The Umbrella Academy. O final previsível, mas intenso, ficou com “Helena”, o hit imortal.
My Chemical Romance fez valer a pena tantos anos de espera, e voltaram tão grandiosos quanto no seu auge, nos anos 2000, provando que sua obra permanece atual e respeitada, mesmo décadas após sua criação.
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