Texto por Matheus Jacques

Não deve ser tarefa simples para uma banda, havendo é claro a presença de uma vontade de se locomover e progredir, conseguir apresentar um certo frescor e ares de originalidade e boa vontade após mais de dez anos de existência. É um tempo suficiente para se perder na mesmice, via de regra. E não é o que ocorre por aqui com o quarteto lisboeta Miss Lava.

Forjada no luso poderio do heavy rock e do rock ‘n’ roll, a banda formada em 2006 na capital portuguesa chega em seu quarto material de estúdio com uma renovada aura. Não é uma banda que talvez ainda tenha explodido fora de seu país, apesar de turnês exteriores e participações em grandes festivais. Mas é certamente uma banda que demonstra clara inspiração e capacidade de atrelar renovação à sua sonoridade. Com Doom Machine, lançado em 15 de janeiro pelos selos Kozmik Artifactz (Alemanha) e Small Stone Records (E.U.A), a banda prova novamente  que consegue estender seus tentáculos e impressionar fora de sua terra natal.

Doom Machine é um trabalho uniforme, empolgante e bastante convidativo de doze faixas (mais as bônus), severamente baseado e enraizado em riffs convincentes e elétricos. Bandas como Queens of the Stone Age e Kyuss certamente se sentiriam orgulhosas da faíscas que esses lusos emanam. A sonoridade aqui presente é uma amálgama de Stoner Rock, Rock´n Roll e elementos que se atribuem ao “rock alternativo”. A criatividade presente nos riffs é, talvez, a primeira coisa a se ressaltar, presente em faixas como “In the Mire” e “Brotherhood of Eternal Love”, dentre várias outras. Para os que já acompanham a banda há certo tempo (como eu mesmo, desde os idos de 2012 ou 2013) é evidente a forma com que se permitiram avançar em “corpo musical”, criatividade e atmosfera fazendo talvez pequenas concessões à diminuição de “peso” aqui e ali. Maturidade.

Lampejam esses toques de inspiração e diferenciação aqui e ali, como na intro da própria “Brotherhood of Eternal Love”. Miss Lava demonstra ser daquelas bandas que não se incomodam de galgar passos pouco a pouco, construindo sem pressa. Intros aclimatadas, progressões groovadas e bem ritmada, tudo a seu tempo. Não é um som que possa ser facilmente ser rotulado como “isso” ou “aquilo”, mas que pode facilmente ser digerido e soar familiar para os que já tem familiaridade com as vertentes. O tempo vem trazendo ao quarteto cada vez mais manejo com as nuances da extensão de seu som.

Entre os destaques do álbum, segue-se o apontamento com faixas como “Alpha” e “The Great Divide”, que tange o atmosférico e quase transcendental ainda que tomando como pilar o denso, o sólido, direcionado pela qualidade vocal de Johnny Lee e suas possibilidades. O ritmo não é serpenteante, não é uma montanha-russa, mas certamente ajuda a compor um bom painel, e temos a sempre bem afiada cozinha da banda, composta por Ricardo Ferreira (baixo) e J.Garcia (bateria). E claro, a presença sempre, mas sempre eficiente nas seis cordas de Rafael “Ripper”, inclusive nascido no Brasil e “radicado” em Portugal, que desde o começo vem entregando performances notáveis em seu posto na banda. 

Talvez menos denso e “garageiro” que seus antecessores, mas igualmente arrebatador e talvez mais maduro e convicto de si, o álbum Doom Machine nos apresenta uma banda que partilha o mesmo idioma, ainda que cante em Inglês, e que evoca os elementos de um cenário (Portugal) riquíssimo em todas as formas de sonoridade, do stoner ao metal extremo e muito mais. Se para um extremo temos nomes totalmente representativos como Besta e seu grindcore fulminante, para o lado do “rock chapado” e do heavy rock temos um dos nomes mais poderosos que Portugal já entregou: Miss Lava e seu ótimo novo trabalho, que espero captar cada vez mais público e já me deixou no aguardo do próximo.

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