20 anos depois ele estão de volta. Com um dos projetos mais ousados da carreira da banda, o Metallica voltou a se apresentar com a orquestra sinfônica de São Francisco, que também acompanhou a banda no primeiro S&M em 1999. No ano passado eles voltaram a se encontrar para realizar a segunda edição do trabalho, o S&M2, anunciado em abril e gravado em 6 e 8 de setembro de 2019, inaugurando um novo espaço para eventos em São Francisco, o Chase Center.

A música clássica, o rock e o metal sempre estiveram lado a lado, desde que os Beatles começaram a usar instrumentos sinfônicos em suas gravações, o Led Zeppelin também fez isso em estúdio na faixa “Kashmir”, mas foi o Moody Blues que fez o primeiro projeto inteiramente conceitual e executado por uma orquestra, o álbum Days of Future Passed de 1967. O Deep Purple, por vontade do seu tecladista Jon Lord, gravou o primeiro disco ao vivo com uma orquestra, o Concerto For Band and Orchestra gravado no Royal Albert Hall em 1969, primeiro álbum de Ian Gillan e Roger Glover na banda.

Nos anos 70 foram várias as bandas que lançaram álbuns ou se apresentaram com orquestras, principalmente no rock progressivo. O projeto mais bem sucedido desse período talvez tenha sido Journey To The Centre of the Earth de Rik Wakeman, tecladista do YES, baseado na obra homônima de Júlio Verne.

Nos anos 80 o Jethro Tull lançou A Classic Case acompanhados pela Sinfônica de Londres. O guitarrista sueco Yngwie Malmsteen também foi outro que desde os anos 80 sempre misturou música clássica com heavy metal, foi em 1998 que lançou o seu álbum tocando guitarra com a orquestra filarmônica japonesa.

O projeto do Metallica de 1999 foi muito bem sucedido comercialmente, James Hetfield e Lars Ulrich disseram na época que o projeto foi inspirado na paixão que Cliff Burton tinha pela música clássica, em especial por Johann Sebastian Bach. Como Lars sempre foi um fanático por Deep Purple, acredito que a banda inglesa também tenha influenciado essa decisão.

O projeto virou um álbum duplo na época, ganhou um Grammy, e eles até fizeram uma tour com orquestra. O disco de 1999 teve arranjos e regência do maestro e compositor Michael Kamen, falecido em 2003. Já nos shows gravados em 2019, o Metallica veio com a proposta de novamente “jogar em casa”, na sua cidade São Francisco, e filmar as duas apresentações, sem sair em turnê dessa vez, o que levou 40 mil pessoas de 70 nacionalidades diferentes ao Chase Center. O filme chegou a ser exibido em mais de 3 mil salas de cinema do mundo inteiro em outubro passado, e a banda decidiu lançar uma série de produtos que vão desde, disponibilizar o álbum em todas as plataformas de streaming até uma limitadíssima caixa super deluxe com vinil colorido quádruplo, CD duplo, blu-ray, palhetas, pôster e as partituras usadas nos shows e autografadas pelos integrantes, disponível apenas no site oficial da banda e apenas 500 unidades.

E o que dizer de S&M2? O álbum realmente mostra uma sonoridade incrível, muito superior ao primeiro, que muitas vezes soa embolado nas partes mais rápidas e energéticas de algumas músicas. Em 20 anos, sem dúvida alguma, houve uma evolução tecnológica capaz de deixar o som ainda mais claro e grandioso. Sobre o repertório, das 20 músicas do álbum, mais da metade já haviam sido gravadas no álbum anterior, uma pena já que a banda poderia ter incluído grandes músicas do excelente Death Magnetic, do EP Beyond Magnetic e até outras do St. Anger. Mesmo assim as escolhas de Hardwire… to Self Destruct ficaram bem interessantes com orquestra e mostram que a banda ainda tem muita energia e segue lançando álbuns de estúdio de altíssimo nível.

S&M2 foi produzido por Greg Fidelman, juntamente com Lars Ulrich e James Hetfield. Contou com arranjos de Michael Tilson Thomas e a regência de Edwin Outwater. O filme conta com uma nova edição feita por Joe Hutching (o mesmo que editou o filme Through the Never de 2013) e tanto o áudio quanto as imagens foram elevadas a outro nível, mesmo se comparadas com a versão que foi exibida nos cinemas no ano passado.

S&M2 vale a pena? Sim, vale, e muito. Vale a pena pelo som e imagens incríveis, vale pelos arranjos com orquestra, vale pelas músicas que nunca tinham sido tocadas com orquestra, como “Confusion”, “Moth Into Flame” e “Halo on Fire”, vale pela lindíssima versão de “Unforgiven III”, vale por terem desenterrado a obscura “All Within My Hands”, vale pela lindíssima homenagem ao mestre Cliff Burton em “Anesthesia Pulling Teeth”. Vale pelas releituras de “The Outlaw Torn”, “No Leaf Clover”, “Master of Puppets”, “One” e “Wherever I May Roam”. Vale pela tradicional intro, The Ecstasy of Gold do já saudoso Ennio Morricone, vale pelas obras sinfônicas muito bem escolhidas de 2 compositores russos, “The Iron Foundry” de Alexander Mosolov de 1927 e “Scythian Suite”, de Sergei Prokofiev, composta em 1915.

S&M2 vale a pena, vale para vermos a maior banda americana de metal de todos os tempos em plena forma, quase 40 anos depois da sua formação. Vale a pena vermos os seus dois membros principais sempre se reinventando e pensando em novas formas de interagir com seu público, com seus membros “coadjuvantes” extremamente competentes, carismáticos e criativos, tocando para a banda, do jeito que deve ser. O Metallica ainda tem muito “FUEL” pra queimar, e isso é uma grande e maravilhosa constatação para quem ama a música pesada. 

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