Ao longo de suas mais de quatro décadas de carreira, o Metallica passou por perdas trágicas, uma ascensão meteórica e um sucesso comercial estrondoso no início dos anos 1990. 

No entanto, em 1996, com o lançamento de Load, a banda mudou radicalmente tanto seu visual quanto sua identidade sonora, causando um choque imediato e grande estranheza no público da época. Antes de entrar na história sobre o álbum em si, é necessário voltar alguns anos antes e relembrar o trabalho anterior, o Black Album, lançado em 1991. 

Metallica em 1996. Crédito: Reprodução/Facebook.

Sucesso com Metallica e expectativa para uma continuação

O grupo havia conquistado o topo do mainstream, lotado estádios ao redor do mundo e vendido dezenas de milhões de cópias, fazendo do seu disco autointitulado o álbum de heavy metal mais bem-sucedido de todos os tempos. Devido a isso, a expectativa dos fãs e da indústria para uma possível continuação era alta, ainda mais porque, até aquela época, os norte-americanos nunca haviam ficado cinco anos sem lançar músicas inéditas. 

Metallica. Crédito: Reprodução/Reddit.

No entanto, James Hetfield e Lars Ulrich não queriam repetir fórmulas ou ficar na zona de conforto. Com a explosão do rock alternativo e do grunge naquela década, o Metallica decidiu seguir muitos desses elementos, marcando uma mudança de direção: músicas mais cadenciadas e fortes influências de blues, country e hard rock. 

Cabelos cortados, maquiagem e capa controversa

Como se a mudança sonora não fosse o suficiente para chocar os fãs mais puristas, o Metallica foi além e mexeu em um aspecto crucial: o visual. Os cabelos longos dos integrantes foram substituídos por cortes curtos. Eles também passaram a vestir roupas de grife e usar maquiagem, criando uma estética alternativa que ditou o tom do clipe do primeiro single do álbum, “Until It Sleeps”, que garantiu o primeiro número um da banda na parada de rock da Billboard

Encarte de ‘Load’. Crédito: Reprodução/Reddit.

A polêmica, no entanto, ficou marcada com a capa do álbum, criada pelo fotógrafo norte-americano Andres Serrano, cujo trabalho é considerado transgressor por usar fotos de cadáveres e fluidos corporais.  Intitulada Semen and Blood III, a obra produzida em 1990 consiste em uma mistura de sangue bovino e sêmen do próprio fotógrafo prensada entre duas placas de acrílico, causando um resultado que remete às chamas de carros hot rod. 

O guitarrista Kirk Hammett, que encontrou a foto em um livro de arte chamado Body and Soul no Museu de Arte Moderna de São Francisco, apresentou a obra para o restante da banda, fascinando Lars. James, por outro lado, nunca escondeu seu descontentamento com a estética do disco, admitindo em entrevistas posteriores que não gostava da capa, mas acabou cedendo para manter a união do grupo. 

“O Lars e o Kirk gostavam muito de arte abstrata, [ficavam] fingindo que eram gays. Eu acho que eles sabiam que me incomodava. Era uma afirmação girando em torno de tudo isso. Eu amo arte, mas não se for feita só pra chocar os outros. Acho que a capa do ‘Load’ foi só uma tirada com relação a tudo isso. Eu só acabei indo junto com a maquiagem e todas essas merdas loucas e estúpidas que eles achavam que tinham que fazer”, contou James à Classic Rock em 2009 [transcrição via TMDQA]. 

Apesar da opinião contrária do frontman e da recepção negativa dos fãs, Lars decidiu defender a estética, fazendo com que o Metallica ousasse ainda mais no ano seguinte, 1997, com o álbum sucessor, Reload. O disco contou novamente com outra polêmica obra de Serrano, Piss and Blood XXVI, desta vez trazendo uma mistura de urina e sangue bovino.

“Os álbuns Load e Reload com as peças incríveis do Andres Serrano, eles sempre vão ter um lugar especial no meu coração. Eu o amo enquanto artista, as imagens e o fato de que nós conseguimos colocar Serrano nas capas desses dois discos. São provavelmente as minhas duas favoritas”, disse Lars à Revolver em 2018. 

‘Semen and Blood III’. Crédito: Reprodução/Andres Serrano.

Maturidade musical

Longe da velocidade do thrash metal, as composições ganharam espaço com arranjos complexos e temas mais complexos como luto, depressão e vícios. Essa abordagem fica especialmente evidente em “Bleeding Me”, que retrata, de forma indireta, a luta de James contra o alcoolismo. 

A faixa de encerramento “The Outlaw Torn”, focada em retratar a perda e a dor de não conseguir substituir alguém que se foi, possui nove minutos de duração, e frequentemente apontada por fãs e críticos como uma das composições mais subestimadas da carreira do Metallica. 

Outro destaque fica para a balada “Mama Said”, com uma melodia bastante influenciada pelo country e com um dos relatos mais íntimos já escritos pelo vocalista: o doloroso processo de luto e a relação mal resolvida com sua mãe, Cynthia, que faleceu de câncer quando ele tinha apenas 16 anos. Criado em uma família cristã de fortes crenças religiosas, o músico a viu recusar qualquer tipo de tratamento médico ou quimioterapia, causando nele uma grande revolta que já havia inspirado a música “The God That Failed”, do Black Album

Segundo ele, a música não foi escrita originalmente para a banda, pois achava que os outros integrantes não aceitariam algo tão country e pessoal. No entanto, Lars e o produtor Bob Rock ouviram a fita demo, viram o quão profunda ela era e insistiram para que entrasse no álbum.

Três décadas após seu lançamento, as controvérsias iniciais sobre Load ficaram no passado, dando lugar a uma análise muito justa sobre o álbum, cujo legado provou ser um passo fundamental para a longevidade do Metallica. Em vez de tentarem recriar a fórmula do Black Album, James Hetfield, Lars Ulrich, Kirk Hammett e Jason Newsted preferiram explorar novos horizontes para mostrar que a música do quarteto ia muito além da agressividade responsável pela consagração deles nos anos 1980. 

Tendo músicas como “King Nothing” e “Until It Sleeps”, além das já citadas “Bleeding Me” e “The Outlaw Torn”, que continuam a aparecer nos shows e setlists do grupo até hoje, o disco se tornou uma peça chave para entender melhor um dos capítulos cruciais na história de uma das maiores bandas de metal da história. 

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Estudante de Jornalismo e fã de Rock e principalmente Heavy Metal, gosta de nomes como Judas Priest, Black Sabbath e em especial Iron Maiden, banda que já viu 3 vezes, acompanha desde os 12 anos e sonha assistir um show em Londres. Seu primeiro contato com a música pesada veio ao jogar Guitar Hero e de lá nunca mais parou. Sempre gostou de escrever e tem a música como uma de suas paixões. Dentro do meio, tem Steve Harris, Bruce Dickinson, Rob Halford e Ozzy Osbourne como seus ídolos.