Texto: Marcelo Gomes

Nos dias 22 e 23 de agosto, o Parque Ibirapuera foi tomado por uma verdadeira imersão na era de ouro do rock brasileiro.

O C6 no Rock reuniu no sábado Plebe Rude, Paulo Ricardo, Titãs, Paralamas do Sucesso e alguns dos maiores nomes do rock nacional, em apresentações especiais, nas quais seus respectivos discos, O Concreto Já Rachou (1986), Rádio Pirata ao Vivo (1986), Cabeça Dinossauro (1986) e Selvagem? (1986), foram executados na íntegra, proporcionando ao público a rara oportunidade de reviver obras que ajudaram a moldar a identidade do gênero no país, além de um merecido tributo a Rita Lee.

A proposta do festival, portanto, ia muito além da nostalgia: tratava-se de colocar frente a frente artistas, discos e uma geração que ajudou a transformar o rock brasileiro em um dos principais fenômenos culturais dos anos 1980.

Plbe Rude – O Concreto Já Rachou (1986)

Coube à Plebe Rude a responsabilidade de abrir a programação, e a escolha não poderia ser mais simbólica. Com Philippe Seabra e André X acompanhados por Clemente Nascimento e Marcelo Capucci, a banda brasiliense trouxe ao palco a urgência que sempre esteve no centro de sua música. A execução de O Concreto Já Rachou recuperou a atmosfera combativa de um disco que nasceu em meio às transformações políticas do país e permanece surpreendentemente atual. 

“Censura”, “A Serra”, “Este Ano”, “A Ida” e “O Que Se Faz” deram o tom inicial da apresentação, enquanto “Pressão Social” e, principalmente, “Johnny Vai à Guerra (Outra Vez)” fizeram o público assumir os vocais. Na faixa “Proteção”, Philippe desceu para cantar na grade, bem próximo ao público, e logo emendaram com “Pátria Amada”, um dos maiores clássicos da banda Inocentes. O encerramento com “Até Quando Esperar” elevou ainda mais a temperatura, transformando o gramado do Ibirapuera em uma espécie de extensão daquela Brasília dos anos 1980, inquieta, crítica e inconformada.

RPM – Rádio Pirata ao Vivo (1986)

Se a Plebe Rude abriu a tarde olhando para o lado mais político e contestador do rock, Paulo Ricardo tratou de transportar o público diretamente para o fenômeno de massa que foi o RPM. Ao revisitar Rádio Pirata ao Vivo, o cantor não apresentou apenas um conjunto de músicas, mas recuperou a dimensão grandiosa de um espetáculo que, quatro décadas atrás, levou o grupo a um patamar poucas vezes alcançado por uma banda brasileira. 

Como foi à tarde, faltaram aqueles jogos de luzes e lasers impactantes, mas, no fim, o que realmente importa é a música. Desde a abertura com “Revoluções por Minuto”, passando por “Alvorada Voraz” e “Louras Geladas”, que ganhou um remix em sua parte inicial para lembrar uma versão feita nos anos 80, todas trouxeram de volta a histeria que cercava o RPM. “A Cruz e a Espada” foi dedicada ao saudoso Renato Russo, enquanto “London, London”, de Caetano Veloso, funcionou novamente como um dos momentos mais emblemáticos do repertório, no qual o duo de Paulo Ricardo e o tecladista Fábio Ribeiro (ex-Shaman) emocionou a todos. 

A apresentação ainda ganhou espaço para outros sucessos, como “Juvenilia” e “A Fúria do Sexo Frágil Contra o Dragão da Maldade”, que foi incluída especialmente para esse show, fazendo com que a plateia cantasse praticamente cada verso. Os clássicos “Olhar 43” e “Rádio Pirata” encerraram a apresentação mais sólida do dia, tirando o público do chão.

Titãs – Cabeça Dinossauro (1986)

Então chegou a vez dos Titãs, e o que se viu foi uma espécie de explosão coletiva que, sem dúvidas, foi o show que mais agitou o público. Cabeça Dinossauro continua sendo um daqueles discos que parecem não envelhecer, justamente porque sua agressividade e suas provocações ainda encontram eco no presente. Desde a faixa-título, passando por “AA UU”, “Igreja”, “Polícia” e “Estado Violência”, a banda foi construindo uma apresentação marcada por tensão e catarse. 

Quando vieram “Porrada”, “Tô Cansado”, “Bichos Escrotos”, “Família”, “Homem Primata” e “Dívidas”, já não havia praticamente distância entre palco e público: todos cantavam, gritavam e reproduziam versos que fazem parte da história do rock brasileiro. “Bichos Escrotos”, em particular, ganhou a força simbólica de uma música que chegou a enfrentar a censura e que, quatro décadas depois, era entoada em alto e bom som por milhares de pessoas. 

Como se ainda houvesse algo a acrescentar, os Titãs retornaram para o bis com “Flores”, encerrando uma apresentação que conseguiu preservar a essência transgressora do álbum, mesmo que representado apenas por três integrantes originais, Branco Mello, Tony Bellotto e Sérgio Britto, sem transformá-la em peça de museu.

Os Paralamas do Sucesso – Selvagem? (1986)

Com o cair da noite e a temperatura mais baixa no Ibirapuera, Os Paralamas do Sucesso assumiram o palco para mostrar por que Selvagem? permanece como um dos trabalhos mais importantes da música brasileira. Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone atravessaram o álbum explorando justamente aquilo que sempre diferenciou o trio: a capacidade de fazer o rock dialogar naturalmente com reggae, dub, ska e ritmos brasileiros. Selvagem? e “Selvagem/Polícia” deram início ao percurso, seguidas por “Teerã”, “Você/Gostava Tanto de Você”, “Melô do Marinheiro”, “Marujo Dub”, “O Homem” e “A Dama e o Vagabundo”. 

A partir daí, a apresentação emocionou ainda mais com “A Novidade” e “Alagados”, antes de Herbert transformar “Lanterna dos Afogados” em um daqueles momentos que ficam gravados na memória: a plateia ergueu os celulares, criando um mar de luzes no meio do parque. O repertório ainda passou por “Aonde Quer Que Eu Vá”, “O Beco”, “Uma Brasileira”, “Lourinha Bombril”, “Óculos” e “Meu Erro”, encerrando uma apresentação em que passado e presente pareceram perfeitamente conectados.

Tributo Rita Lee – Meu Sonho é Ser Imortal

Já passava das oito da noite quando Beto Lee subiu ao palco para comandar Meu Sonho é Ser Imortal, homenagem à sua mãe, Rita Lee, e a atmosfera ganhou outro significado. Depois de quatro apresentações marcadas pela força das guitarras, pela contestação e pela memória do rock dos anos 1980, o festival encontrou na obra da Rainha do Rock Brasileiro uma maneira de celebrar não apenas uma artista, mas toda uma atitude diante da música e da própria vida. Alice Caymmi, Baby do Brasil, Catto, Fernanda Abreu, Letrux, Marina Sena, Miranda Kassin e Sandra Sá se alternaram no palco, algumas vezes individualmente, outras em duetos, imprimindo suas próprias personalidades a canções que atravessaram gerações. 

“Nem Luxo, Nem Lixo”, com Sandra Sá, “Doce Vampiro” e “Amor e Sexo”, com Marina Sena, “Ando Meio Desligado”, dos Mutantes, e “Jardins da Babilônia”, com Baby do Brasil, e “Ovelha Negra”, do Tutti Frutti, com Alice Caymmi, provocaram diferentes reações na plateia, transitando entre a sensualidade, a irreverência e a emoção. Perto do fim, Beto Lee assumiu os vocais em “Papai Me Empresta o Carro”, que dedicou ao seu pai, Roberto de Carvalho.

O grande momento veio no encerramento, quando todas as convidadas se reuniram para cantar “Lança Perfume”. Sob uma noite já fria e diante de um público menor do que aquele que acompanhou as atrações anteriores, a celebração ganhou um caráter quase familiar, como se o festival terminasse não com um simples show, mas com uma despedida carinhosa de alguém cuja presença continua impossível de ignorar.

Ao deixar o Parque Ibirapuera, ficava a sensação de que o C6 no Rock havia conseguido cumprir sua proposta sem transformar o passado em uma simples peça de nostalgia. O grande mérito da primeira noite esteve justamente em mostrar que O Concreto Já Rachou, Rádio Pirata ao Vivo, Cabeça Dinossauro e Selvagem? continuam funcionando quando retirados das prateleiras e devolvidos ao palco, diante de um público disposto a cantar cada palavra. 

Mais do que celebrar quatro décadas de discos fundamentais, o festival trouxe à tona a efervescência cultural dos anos 80 que ajudou a redefinir a música brasileira. E, ao encerrar a noite com Rita Lee sendo celebrada por vozes tão distintas, o C6 no Rock deixou uma mensagem simples e poderosa: algumas obras pertencem ao seu tempo, mas as verdadeiramente importantes continuam vivas pelos olhos de quem as vê. O festival foi impecável em sua estrutura, horários e experiências para o público. Que venham mais edições em 2027!

Ira! — Vivendo e Não Aprendendo (1986)

Texto: Jéssica Marinho

O segundo dia do C6 no Rock, no domingo, 23, levou ao Parque Ibirapuera uma seleção de discos fundamentais do rock brasileiro dos anos 1980. A proposta do festival foi simples: apresentar os álbuns na íntegra e deixar que as músicas fossem protagonistas. Entre Ira!, Blitz, Legião Urbana, Marina Lima e a homenagem a Cazuza, o domingo mostrou que esses trabalhos não dependem apenas da memória afetiva para continuar funcionando. A grande sacada foi uma Feira de Vinil durante o evento, claro, com todos os clássicos apresentados à venda – e os mais sortudos conseguiram alguns autógrafos em suas cópias.

O dia começou a execução de Vivendo e Não Aprendendo, que consolidou o Ira! entre os principais nomes do rock brasileiro. O álbum traz clássicos como “Envelheço na Cidade”, “Dias de Luta” e “Flores em Você”. É um disco marcado por guitarras, juventude e inquietação.

No palco, Nasi e Edgard Scandurra mostraram que o repertório continua afiado. “Envelheço na Cidade” rapidamente virou coro coletivo. “Dias de Luta” manteve a intensidade e Scandurra foi um dos destaques da apresentação. A banda não precisou reinventar as músicas para fazê-las funcionar. O show mostrou a força de um álbum que continua conectado ao público quatro décadas depois. Como o álbum tem menos de 1 hora – tempo que cada banda tinha de apresentação – sobrou alguns minutos para o Ira! revisitar outros clássicos da carreia além do disco. Fato que alegrou mais ainda o público, que cantou junto “Eu Quero Sempre Mais”, “Tarde Vazia” e “Núcleo Base”.

Blitz feat. Fernanda Abreu — As Aventuras da Blitz (1982)

As Aventuras da Blitz chegou às lojas em 1982 como o primeiro álbum da banda e ajudou a mudar o jeito de fazer rock no Brasil. O disco misturava rock, pop, humor, teatro e uma linguagem coloquial que parecia conversar diretamente com a juventude. “Você Não Soube Me Amar”, “Mais Uma de Amor (Geme Geme)” e “O Beijo da Mulher Aranha” estão entre os destaques de um trabalho com 13 faixas e forte personalidade.

A Blitz levou essa característica para o palco sem tentar transformar o repertório em peça de museu. Evandro Mesquita comandou a apresentação com o humor e a teatralidade que fazem parte da identidade do grupo. O reencontro com Fernanda Abreu foi um dos momentos mais simbólicos da tarde, recuperando uma parte importante da formação e da história da banda. “Você Não Soube Me Amar”, “Mais Uma de Amor” e outras músicas fizeram o público dançar, cantar e, por alguns minutos, abandonar completamente a postura de espectador.

Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá — Dois

Lançado em 1986, Dois apresentou uma Legião Urbana mais melódica e concentrada nas possibilidades poéticas de Renato Russo. O álbum reúne “Tempo Perdido”, “Eduardo e Mônica”, “Quase Sem Querer”, “Índios” e “Fábrica”, entre outras músicas que se tornaram parte permanente do repertório brasileiro. Com 12 faixas, o disco ampliou o alcance da banda sem abandonar a tensão presente em suas letras.

Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá entraram no palco acompanhados por André Frateschi nos vocais para revisitar o álbum. A escolha de preservar a sequência e a estrutura de Dois fez com que a apresentação funcionasse menos como um show de sucessos e mais como uma audição coletiva do disco. “Eduardo e Mônica” provocou uma reação imediata, enquanto “Quase Sem Querer” trouxe um momento mais delicado. Mas foi “Tempo Perdido” que transformou o Ibirapuera em um enorme coro, mostrando que a ausência de Renato Russo não diminuiu o impacto das canções.

Marina Lima — Fullgás (1984)

Marina apresentou o disco Fullgás, ao lado de Lobão e Liminha, disco que marcou uma mudança importante na trajetória da cantora ao aproximar MPB, pop rock, new wave e synthpop. A faixa-título, composta com Antônio Cícero, tornou-se um dos grandes símbolos de sua carreira. O álbum também reúne versões de “Mesmo Que Seja Eu” e “Me Chama”, além de parcerias que envolvem nomes como Lobão, Liminha e Lulu Santos.

Marina apresentou o disco na íntegra em um dos shows mais elaborados do domingo. A cantora recriou os arranjos originais e utilizou as projeções do Auditório Ibirapuera para construir uma apresentação mais visual e conceitual. Lobão apareceu na bateria em “Me Chama”, enquanto Liminha também participou do espetáculo, aproximando o show das pessoas que ajudaram a construir o próprio disco. Marina ainda transformou o repertório em uma homenagem ao irmão Antônio Cícero, cuja presença atravessa Fullgás e ganhou novo significado após sua morte em 2024. No Bis, a cantora ousou em uma nova versão da faixa-título com uma introdução de “Billie Jean”, do Michael Jackson.

Cazuza — Todo Amor Que Houver Nessa Vida

O encerramento não teve um álbum específico como ponto de partida, mas a obra de Cazuza. Todo Amor Que Houver Nessa Vida reuniu músicas de diferentes momentos da carreira do cantor, desde sua passagem pelo Barão Vermelho até sua trajetória solo. A escolha funcionou como contraponto aos discos apresentados durante o restante do festival, ampliando a homenagem para além de um único período ou lançamento.

Arnaldo Antunes, Frejat, Johnny Hooker, Léo Jaime, Leoni, Lobão e Maria Gadú dividiram o palco para revisitar diferentes faces do repertório de Cazuza. A presença de Frejat trouxe uma ligação direta com os primeiros anos do Barão Vermelho, enquanto os demais artistas apresentaram interpretações com personalidades distintas. “O Tempo Não Para” e “Blues da Piedade” estiveram entre os momentos de maior impacto da noite. O encerramento com “Brasil”, conduzido por Frejat, colocou o público novamente para cantar e deu à homenagem um caráter coletivo. Mais do que reproduzir Cazuza, o espetáculo mostrou como suas músicas continuam atemporais e abertas a novas vozes e leituras – emocionante.

O C6 no Rock acertou ao colocar os discos no centro da programação. Em vez de uma sequência previsível de hits, o público teve a oportunidade de ouvir obras inteiras e reencontrar músicas menos óbvias. A proposta simples fez o festival se tornar grandioso. Foram dois dias de nostalgia e imersão, onde o público relembrou momentos únicos e teve a oportunidade de assistir a shows inéditos ao lado da família e amigos, onde a música continua encontrando novas gerações. Um encontro de quem realmente queria viver a experiência, e, ao contrário da maioria dos festivais, este não estava cheio de pessoas só querendo desfilar ‘looks’, não tinha vários celular o tempo todo gravado e nem cenários “instagramaveis”. Foi simples e único, era como viver um festival da época, unidos apenas pela música e sem todo esse cenário que a rede social impôs.

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