Black Veil Brides lançou em janeiro o novo single “Certainty”, com videoclipe inspirado nos filmes da produtora A24 e letra inspirada no longa vencedor do Oscar, Conclave (2024). A faixa, junto com as já lançadas “Hallelujah” e “Bleeders”, fará parte do novo álbum de estúdio da banda.
Em entrevista exclusiva ao Wikimetal, o vocalista Andy Biersack falou sobre o conceito principal do disco e comentou o cancelamento da turnê latinoamericana que deveria ter passado pelo Brasil em 2025.
Apesar do novo álbum permanecer sem nome e data de lançamento divulgados, o cantor garantiu ao Wikimetal que o projeto estará disponível “mais cedo do que as pessoas esperam”.
Confira a entrevista na íntegra:
Wikimetal: As músicas que vocês lançaram até agora, especialmente “Hallelujah” e “Certainty”, mostram um lado mais pesado do Black Veil Brides e parece um grande salto em relação ao último álbum, The Phantom Tomorrow. Algo que me surpreendeu foi ouvir sua voz em screamo de novo. Como foi trabalhar com a voz novamente nesse lugar?
Andy Biersack: Nossos dois primeiros discos têm bastante vocal gritado, especialmente o primeiro. E nós tocamos todas essas músicas ao vivo, então ao vivo eu grito bastante e sempre gritei. Acho que em algum momento, provavelmente por volta de Wretched and Divine (2013), eu realmente me interessei pela melodia como a força definidora das coisas. Era como se, no primeiro disco, muitas vezes as partes gritadas fossem quase secundárias ao canto. Então era tipo, eu escrevia uma melodia e não sabia o que fazer na ponte, então eu simplesmente gritava, sabe? Eu era uma criança naquela época. Então muitas vezes eu não pensava nisso intencionalmente, como se pudesse transmitir uma emoção mais forte dessa forma. Era mais tipo, “Ah, acho que isso soa legal”.
Quando chegou a hora de fazer este disco, muitas das músicas, em termos de tom e letra, são muito… não necessariamente raivosas, mas muito sérias no tom. E estou tentando transmitir uma perspectiva muito mais emocional. Então, fazia sentido que o vocal fosse mais pesado ou agressivo em alguns trechos. Há músicas neste álbum em que 75%, 80% são gritos e quase nada é cantado porque é o que a música pede, o tom da letra e o que estou dizendo na música pediam disso. Então, não acho que tenha sido necessariamente tipo, “Ah, vamos colocar mais gritos neste álbum”. Acho que a história que estou tentando contar me pareceu que poderia ser contada melhor com um vocal mais agressivo.
WM: Desta vez vocês estão produzindo esse disco de forma independente. O que vocês, como banda, experimentaram de novo neste álbum, que não puderam explorar antes ou que simplesmente não tiveram a oportunidade de explorar?
AB: Não é culpa de ninguém, mas nós estamos em uma posição em que somos uma banda que teve muito sucesso comercial com certas músicas, e sempre que você está numa posição com um produtor, esse produtor é contratado por uma gravadora principalmente para fazer você produzir um material tão bem-sucedido quanto o seu material de maior sucesso. Então existe muita pressão para que as músicas sejam tão grandes quanto “In The End” ou qualquer outra coisa neste álbum. Então, não é culpa de ninguém, mas muitas vezes somos pressionados a tentar fazer o álbum mais comercialmente viável possível. E com este álbum, tivemos muita sorte de que não foi o caso. Pudemos fazer exatamente o álbum que queríamos. E, felizmente, uma música como “Bleeders” se saiu muito bem comercialmente. “Certainty” também se saiu bem até agora. Então, sem ser intencionalmente comercial, estamos alcançando o sucesso que, digamos, uma gravadora desejaria. Mas conseguimos fazer o disco exatamente do jeito que queríamos, e não se tratava dos interesses de outra pessoa.
WM: Eu li algo muito interessante sobre “Certainty”, que foi que o filme Conclave inspirou uma parte da letra. O que nesse filme chamou sua atenção a ponto de te inspirar a escrever essa faixa?
AB: O álbum começou como um projeto conceitual mais direto, uma espécie de recontagem da história de Paraíso Perdido, de Milton. Essa era a ideia principal do álbum. E conforme fomos avançando… Acho que comecei a escrever a história do álbum lá por 2023. As primeiras versões das músicas eram muito focadas em contar essa história, mas com o tempo, meu interesse em fazer isso diminuiu. Eu ainda amo essa história, mas fiquei muito mais interessado em falar sobre como esses conceitos arquetípicos me afetaram na minha vida real, as coisas que eu estava observando e vivenciando. Então, meio que mudou.
E, sabe, tudo isso é diferente para mim, porque eu cresci católico. Então, Conclave é um filme sobre algo que eu aprendi na escola. Sabe, quando um papa morre e um novo é empossado, como aconteceu recentemente, havia dias inteiros dedicados a isso nas aulas, discutindo o significado daquilo, as diferentes cores da fumaça e tudo mais. Então, eu tenho um conhecimento íntimo do assunto porque fui criado dessa forma. E achei interessante. Mas assistindo ao filme, achei o discurso que Ray faz sobre a certeza, a certeza da existência e da crença como algo quase contrário à fé, muito interessante para mim, porque sinto que muito do que temos culturalmente são essas certezas filosóficas ou emocionais, e isso quase impede a capacidade de pensar, raciocinar ou ter nuances. Então, foi inspirado, de certa forma, mas não é como se a música não fosse sobre Conclave nesse sentido.
WM: Você acha que isso se encaixa também com o clima político atual no mundo todo, onde a religião tem desempenhado um papel tão importante?
AB: Até certo ponto. Quer dizer, acho que obviamente tudo o que vivenciamos é filtrado pelas lentes de crenças ideológicas, religiosas ou políticas, porque tudo acontece na internet. E a internet é uma espécie de microcosmo dos sentimentos das pessoas, certo? As pessoas dizem coisas nas redes sociais que não diriam em um restaurante. Elas se sentem encorajadas a ter uma opinião muito rígida sobre alguém ou algo, de uma forma que talvez não teriam se estivessem conversando com uma pessoa de verdade. Então, acho que é mais… Estou falando sobre as linhas rígidas que traçamos de uma forma irrealista ou desumana.
Porque eu faço turnês, então convivo com muitos tipos diferentes de pessoas que acreditam em muitas coisas diferentes. E sempre me fascina a desconexão que as pessoas têm entre a vida real e a internet, acreditando fervorosamente em algo até se depararem com algo diferente. O exemplo que sempre dou é o seguinte: as pessoas ficam muito irritadas quando alguém faz turnê com outra pessoa, ou algo do tipo. E acho interessante porque é muito raro alguém com um emprego, um emprego normal, pedir demissão só porque um colega de trabalho tem uma ideologia diferente. Entende? É quase impossível, porque você precisa conciliar a vida pessoal e profissional. Então, só porque a pessoa com quem você não interage, que trabalha do outro lado do prédio, acredita em algo diferente, não significa que você deva pedir demissão e colocar sua família em risco. Mas na internet, as coisas funcionam assim. Existem microcosmos tão distintos que, se alguém no seu círculo social pensa diferente de você, você tem que sair desse círculo.
WM: Falando um pouco mais sobre o álbum, que tipo de spoilers você pode nos dar?
AB: Se você ouvir o disco do começo ao fim, da primeira à última faixa, verá que estruturei as letras de uma forma que, acredito, conta uma história completa, uma história emocional. E acho que o spoiler seria dizer que a intenção é que ele acabe em um looping e retorne ao início. O disco é cíclico nesse sentido, pois a maneira como vivenciamos as emoções, na minha perspectiva e como letrista, é que passamos por tudo isso, depois passamos por tudo de novo e assim por diante. Portanto, a intenção é representar a emoção e a experiência humana de forma realista. Então, o disco em si é cíclico. Você pode ouví-lo do começo ao fim e, ao retornar ao início e ele recomeçará com a mesma emoção..
WM: Você explorou novos gêneros musicais neste álbum também?
AB: Acho difícil dizer porque, musicalmente, você pode pensar: “Ah, isso é diferente para eles”. Mas não sei. Acho que somos uma banda de rock, compomos rock. É muito difícil definir, sabe? Eu não sou muito… Estou mais interessado em contar histórias através da lente do que acho mais interessante e do que eu… é o que eu ouço. Não tenho nada contra outros gêneros musicais, mas é… Sabe, é um disco de hard rock/metal em sua essência.
WM: Gostaria de falar um pouco mais sobre turnês, pois no ano passado você teve que cancelar os shows na América Latina. Você gostaria de comentar o que aconteceu?
AB: É difícil porque eu não quero prejudicar ninguém nem criar problemas. Mesmo que algumas pessoas tenham tentado fazer isso conosco, não é algo que me interesse. Vou colocar desta forma: estávamos numa situação muito difícil com algumas coisas acontecendo nos bastidores. E quando isso se somou a alguns problemas de saúde que afetaram nossa equipe, foi uma decisão muito difícil que teve que ser tomada. E fizemos o que achamos certo. E sabendo que pretendíamos voltar, e ainda pretendemos voltar a tocar, porque tínhamos acabado de… A questão é… Tudo o que vou dizer é que, se alguém está procurando um significado mais profundo por trás disso, estávamos em todos esses lugares em 2024. Então, sabe, nós… Tocamos em todos esses lugares, só que com uma equipe diferente, digamos assim. Então, pretendemos voltar. Não quero fazer disso um grande problema porque eu estava um pouco… Fiquei surpreso que algumas pessoas tenham tentado criar drama em cima disso, mas acho que não deveria me surpreender nos dias de hoje.
WM: Você acha que ainda pode acontecer este ano, ou você ainda não sabe?
AB: Sim, estamos tentando descobrir. Acho que a coisa mais difícil é tentar planejar o ano quando você está participando de muitos festivais e coisas do tipo, e tentar descobrir como encaixar os shows em meio a tudo isso. Então, eu diria que não é impossível que aconteça este ano, mas definitivamente acontecerá no próximo, durante o ciclo de gravação do álbum.
WM: Ainda falando sobre shows e festivais, há 10 anos, o Black Veil Brides participou do Monsters of Rock e acho que vocês não tiveram a melhor experiência com o público.
AB: Ah, sabe, é engraçado, na verdade não. As pessoas acham eu fiquei mais chateado com isso do que eu realmente fiquei. Vocês precisam entender que nós recebíamos esse tipo de tratamento em praticamente todo o lugar naquela época. Era muito comum tocarmos em festivais e sermos vaiados e ter coisas jogadas na gente. Então, quero dizer aos fãs brasileiros, eu sei que os fãs brasileiros dizem isso há anos, que eles se desculparam ou disseram que estávamos chateados com isso. Posso dizer a vocês: está tudo bem. Sabe, era só uma época da nossa carreira. Lidamos muito com isso naqueles dias. E não foi uma experiência única. Diria que talvez tenha sido única no sentido de que foi a vaia mais alta que já recebemos, a ponto de eu mal conseguir me ouvir nos meus fones de ouvido por causa do barulho das vaias. Mas, de novo, a gente tocava em festivais na Europa e recebia garrafadas e tudo mais. Então, eu não olho para aquilo e penso: “Nossa, foi só aquela vez no Brasil”. Eu considero aquilo como uma fase da nossa carreira que não acontece com tanta frequência hoje em dia.
WM: Os fãs de rock e metal mais conservadores geralmente não abraçam bandas novas. E eu tenho certeza de que o Black Veil Brides não foi o único que passou por isso. Você acha que isso melhorou ao longo dos anos?
AB: Sim, é interessante. Acho que vem em ondas. Dá para quase perceber em que ponto da conversa sobre nosso gênero [musical] a pessoa parou baseada no que ela diz sobre nós. Porque nos últimos dois anos tivemos uma grande onda de positividade no mundo do rock e do metal. Mas a internet é tão segmentada que, sabe, nem todo mundo vê tudo. Ontem anunciamos a turnê norte-americana e eu pude perceber quais eram as pessoas que não viam nosso nome há um tempo, porque eles estavam usando clichês antigos sobre nós. E eu penso: “não é mais esse o foco da conversa”. Gostaria de poder dizer que tudo isso passou, mas é assim mesmo. Acho que sempre seremos uma banda que, por algum motivo, provoca uma reação muito intensa em muita gente. Para o bem ou para o mal. Eu não acho que estaríamos onde estamos hoje se não fosse por isso. Tem muitos artistas que surgem e as pessoas dizem: “Isso é ótimo”. E aí eles meio que somem porque não há conversa. Ninguém está realmente falando sobre eles, sabe? Então, eu acabei aceitando que as pessoas vão dizer coisas irrelevantes ou irracionais sobre a nossa arte, e eu simplesmente ignoro.
WM: Eu queria falar um pouco sobre filmes com você porque me parece que isso é uma parte importante do processo criativo de vocês como banda. Os vídeos de vocês têm muitas influências cinematográficas. Como assistir a filmes afeta o seu processo criativo enquanto artista?
AB: É quase como se eu visse as coisas de maneiras diferentes. Eu consigo saber rapidamente se estou assistindo a algo que vai me ser útil artisticamente. Por exemplo, lembro de ter assistido ao novo Frankenstein e imediatamente pensei: “Ah, vou catalogar os elementos visuais disso porque é uma referência”. Entende? Tipo, estou vendo coisas aqui que quero usar como referência em termos de paletas de cores e coisas assim. Minha esposa e eu assistimos a muita coisa e gostamos de uma grande variedade de mídias. Nós dois adoramos filmes de terror. Gostamos de super-heróis e tudo mais. Mas eu sei se estou assistindo a algo que vou catalogar como ponto de referência ou se estou apenas assistindo.
Se você falar sobre o terror folclórico que influenciou o vídeo de “Certainty”, é uma combinação de várias coisas diferentes. E o George, o diretor, sendo um artista parecido em termos de visual e das coisas que ele curte agora, estamos trabalhando em algo para a próxima música que terá um vídeo. É um gênero totalmente diferente, mas acho que as pessoas vão reconhecer as referências. Então eu gosto disso. Mas eu diria que absorvo um pouco de tudo que me inspira. E isso provavelmente começou quando eu era criança e cresci amando histórias em quadrinhos e outros universos, pensando nessas ideias de construção de mundos em grande escala.
WM: Você tem uma lista de filmes que te inspiraram a criar esse novo álbum?
AB: Não necessariamente filmes. Há muita coisa diferente. Como eu disse, pode ser que Paraíso Perdido, de Milton, inspire tanto quanto o disco do Jimmy Eats World. Há uma gama enorme de coisas que te inspiram e, se você ouvir o disco, não vai necessariamente perceber. Entende o que quero dizer? Tipo, você não vai pensar: “Ah, acho que este disco foi inspirado por um poema cristão muito antigo e um disco emo de 2010”. Mas na minha cabeça, essas são as coisas que servem de fio condutor, que me fazem pensar: “Ah, eu sei o que peguei daqui e dali e juntei tudo”.
WM: Quais são suas expectativas e ambições para o novo álbum do Black Veil Brides?
AB: Sabe, eu realmente não tenho expectativas porque acho que isso está além do que um artista pode ter, já que não é uma meritocracia, sabe? Não dá para simplesmente dizer: “Este disco é muito bom, então vai bombar”. O que eu espero é que ele continue fazendo sucesso a ponto de as pessoas pensarem: “É, vocês podem continuar fazendo isso”. É tudo o que eu espero: a oportunidade de continuar criando exatamente o que queremos fazer. Sabe, esse é o sonho de um artista: ter sucesso o suficiente para viver uma vida dedicada à arte e à criação. E tenho sido muito sortudo por, até agora, ter conseguido. Então, espero que o disco faça sucesso para que possamos continuar fazendo discos incríveis.
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