O horror é uma grande influência para o Cradle of Filth.”

Dani Filth: Alô?

Wikimetal (Nando Machado): Oi, Dani Filth, por favor?

DF: Sim, falando. Olá.

W (NM): Oi, aqui é o Nando e o Daniel, do Wikimetal, nós pedimos desculpas que estamos um pouco atrasados, nós temos uma entrevista com você agora, podemos começar?

DF: Sim, tudo bem. Sim, é claro.

W (NM): Muito obrigado.

W (Daniel Dystyler): Excelente, Dani. Aqui é o Daniel, do Wikimetal. Você lançou um ótimo álbum no final do ano passado, como está sendo a repercussão dos fãs em relação ao “The Manticore and Other Horrors”?

DF: Está sendo muito boa, na verdade. Supreendentemente boa, no momento que nós começamos a fazer a promoção dele, na Europa, de repente tinha um monte de jornalistas, e muita atenção concentrada ao redor do álbum, e isso se tornou uma surpresa, na verdade, porque obviamente nós não fazíamos promoção para a imprensa há alguns anos, e logo se tornou uma grande questão, e arrebatadora. Obviamente, nós saímos em turnê pela Europa, com o God Seed e o Rotting Christ nos apoiando antes do Natal. E foi uma loucura por toda parte, foi uma ótima reação, eu aproveitei muito.

W (NM): Isso é ótimo. Você vem para o Brasil novamente, e vai tocar em São Paulo no dia 20 de abril, o que os fãs brasileiros podem esperar desse show, em termos de set list?

DF: Em termos de set list, nós vamos… Obviamente, porque nós não vamos para o Brasil frequentemente, nós vamos tocar um set longo, e vai ser composto por faixas de praticamente todos os nossos álbuns, então não vai ter muita ênfase em uma era ou outra, são muitas faixas antigas… Coisas do “Dusk…”, “V Empire” e “Cruelty”, vão ter faixas do “Midian”, “Damnation”, então sim, vai ser muito equilibrado. Obviamente, nós vamos tocar algumas faixas de… Duas ou três músicas do nosso álbum atual do Cradle of Filth, “The Manticore and Other Horrors”, mas como eu disse, sabe, vai ser muito visual, cinemático, uma grande noite. E nós vamos tocar o máximo de material possível do nosso passado.

W (DD): Muito bom, Dani. Nós estamos muito empolgados para esse show também. Como era a cena de Metal na Inglaterra quando vocês formaram a banda, no começo dos anos 90, e como você vê a cena de metal na Inglaterra hoje em dia?

DF: A cena de Metal na Inglaterra era surpreendentemente boa no começo dos anos 90. Aliás, eu estou escrevendo um artigo sobre isso, eu estou aterrorizado nesse momento… Mil palavras, ou algo assim, sobre esse período da história. Sim, era uma cena muito boa – não tanto em relação às bandas de Black Metal, nós realmente éramos um dos poucos naquele tempo. E tinham muitas bandas incríveis na época, como Anathema, Paradise Lost, Carcass – até, você sabe, o Carcass vai lançar um álbum novo, que vai ser demais. Então eu acho que muitas dessas grandes bandas que estavam tocando no começo dos anos 90 estavam se formando, e fazendo coisas muito modernas e atuais naquele momento, e eu acho que dá para se fazer uma comparação entre os dois períodos.

W (NM): Antigamente, quando você começou a sua carreira musical, quais eram suas principais influências?

DF: Eu acho que na época era meio que um híbrido das bandas que nós crescemos ouvindo, como Venom e Bathory, e bandas como Paradise Lost que estavam lançando álbuns fenomenais, como “Gothic”. Nós éramos muito fãs de trilhas sonoras, que ainda somos. Pessoas como Mercyful Fate, Autopsy, sabe, porque o Death Metal era muito grande naquela época, e tinham muitas bandas que nós gostávamos de todas as fases da vida, então nós nos inspiramos em diferentes coisas. Sabe, o Maiden também… E nós nos juntamos com uma espécia de quimera da banda, chamada Cradle of Filth.

O núcleo da banda se manteve através dos altos e baixos e 20 anos de loucura de Metal.”

W (DD): Muito bom. Dani, você concorda que o Metal está passando por um período muito frutífero atualmente, no mundo todo, com muitas bandas de muitos países conquistando sucesso comercial? Por que você acha que isso está acontecendo agora? Você acha que a internet tem um papel importante para que isso aconteça?

DF: Eu acho que são duas coisas ao mesmo tempo: está ruim para o Metal atualmente, e também está muito bom. O que eu quero dizer é, tem muitas bandas, e sim, elas podem se divulgar pelo mundo todo através da internet, as pessoas podem acessar a música com muita facilidade. Antigamente, tudo era feito através da troca de fitas, então você podia ser conhecido mundialmente, mas era um processo muito mais lento, comparativamente. Mas sim, isso é bom por um lado. O que é ruim por outro, é que tem tantas bandas, e as pessoas querem tudo imediatamente, que obviamente as bandas estão sofrendo, porque não há tanto dinheiro na indústria musical, muitas gravadoras estão fechando. Então é bom por um lado e ruim por outro, ruim pelo fato de que você tem muitas bandas que são muito parecidas, também. Mas sim, são dois lados de uma mesma moeda, eu acho.

W (DD): Muito bom. Nós vamos ouvir uma música agora, então nós perguntamos a todos os convidados que nós recebemos: imagine que você está ouvindo o seu iPod no modo shuffle, ou você está ouvindo uma estação de rock no radio, e de repente uma música começa a tocar que faz você perder a cabeça, você não consegue se conter, você não consegue parar de headbangear, você sente que você precisa headbangear onde quer que você esteja. Que música é essa, para que nós possamos ouvi-la no nosso programa?

DF: Nesse momento… Eu diria “For Those About to Rock, We Salute You”, do AC/DC.

W (DD): É uma das melhores, cara… A parte do final, quando a música começa a acelerar, eu fico arrepiado toda vez que eu ouço, é uma música ótima, cara.

W (NM): Me conte, Dani, você acredita que o seu merchandising chocante ajudou a promover a banda? E isso foi intencional? Vocês tinham consciência de que essas ações poderiam ajudar a banda a se tornar mais popular, ou eram também dois lados de uma mesma moeda?

DF: Sim, de novo, são dois lados de uma mesma moeda. Algumas coisas ajudaram, outras não. Mas sim, nós sabíamos o que nós estávamos fazendo, nós sabíamos que queríamos fazer camisetas que as pessoas iriam querer comprar, mas não era a única carta na nossa manga – eu acho que esse é o termo que eu usaria para descrever isso. Nós tínhamos outras coisas que nós perseguimos também, então não eram só as nossas camisetas, mas era o modo como a nossa arte era apresentadas, os vídeos, as performances no palco, sabe, a qualidade do som, os estúdios que nós usamos… O nosso visual no palco, nosso visual nas fotos… E acima de tudo na nossa abordagem, obviamente, a música era o fator mais importante. Mas nós tentamos nos concentrar em tudo para trazer o Cradle of Filth para uma plateia maior, e quando essa plateia foi alcançada, já havia o suficiente para que as pessoas não nos vissem como uma coisa bidimensional, mas algo com profundidade, e descobrissem mais coisas, então todas as facetas da banda eram importantes para nós, assim como o merchandising. E ainda é.

W (DD): Dani, como foi a experiência de trabalhar com a Film Orchestra and Choir, quando vocês estavam gravando “Damnation and a Day”, em 2002?

DF: Foi uma experiência incrível. Nós estávamos com a Sony naquela época, para aquele álbum, e nós fizemos coisas incríveis, mesmo que tenha sido por pouco tempo, como a maioria das bandas de Metal que se encontram nessa posição. Mas durante esse período, nós fomos a atração principal do palco B do American AllFest por dez semanas, como pessoas como Killswitch, Shadows Fall, e Chimera nos apoiando… Sim, e obviamente nós fizemos o álbum “Damnation and a Day” e nós pudemos trabalhar com pessoas incríveis, incluindo a Budapest Film and Radio Orchestra, que foi… É uma orquestra de 80 membros e mais 21… São mais ou menos 101 pessoas… Foi épico. E isso era algo que nós queríamos realizar há muito tempo. E desde que nós fizemos isso, muitas pessoas têm nos seguido, mas nós ficamos felizes que pudemos fazer isso naquele momento específico da nossa carreira.

Nós sempre tivemos muito apoio da gravadora. É uma sensação de que todo o nosso trabalho duro valeu a pena”

W (NM): Dani, por que você acha que o Cradle of Filth teve line ups tão diferentes durante esses últimos 20 anos?

DF: Bom, eu suponho que é um pouco como trabalhar em uma estação de rádio, não é? É como se você quisesse o melhor da estação de rádio, e as pessoas vão e vem, as pessoas escolher caminhos diferentes, algumas pessoas acham que podem mais do que você, então elas formam suas próprias bandas… Às vezes as pessoas acham que é muito trabalho, sabe, muitas viagens, muitas horas sem socialização trabalhando como músico… Às vezes você tem que deixar as pessoas irem, porque elas não estão trabalhando o suficiente… Essencialmente, os membros chaves do Cradle of Filth sempre estiveram lá, então a chama sempre se manteve. O núcleo da banda o carregou através dos altos e baixos e 20 anos de loucura de Metal.

W (DD): E falando sobre isso, nesse mesma época, vocês assinaram com muitas gravadoras, da Sony Music até gravadoras independentes, e também a Roadrunner e agora a Nuclear Blast. Quais foram as melhores e as piores experiências que você se lembra de trabalhar com uma gravadora?

DF: Imediatamente, do topo da minha cabeça, eu diria que a pior experiência provavelmente teria que ser com a Cacophonous Records, há muito tempo, entre o “Dusk… And her Embrace” e “The Principle of Evil made Flesh”. Nós até gravamos o “V Empire” como uma forma de fugir do nosso contrato com a gravadora, e entregamos o “V Empire” como meio que um gesto de adeus, etc., etc. Nós tínhamos levado a Cacophonous Records para o tribunal naquela época, então nós estávamos em uma espécie de limbo. Então foi bem ruim, porque isso foi logo depois do lançamento, e teve uma repercussão muito boa da imprensa, e a próxima coisa que aconteceu foi que metade da banda saiu, e ficou só eu, o Nicholas Barker e o Robin Graves mantendo a chama acesa na época, então esse foi um ponto baixo. Eu diria que os pontos altos foram todas as vezes que nós lançamos um álbum em uma gravadora, nós sempre tivemos muito apoio da gravadora, vídeos e promoções… É uma sensação de que todo o nosso trabalho duro, e todo o tempo no estúdio escrevendo valeu a pena, e se transformou em um produto físico que nós promovemos, então sim… Eu diria que é isso.

W (NM): Você poderia escolher agora uma música do Cradle of Filth, para que nós possamos ouvi-la no nosso programa agora?

DF: Bom, é melhor eu escolher algo do nosso último álbum, então eu provavelmente escolheria – e tem um motivo para isso também – uma faixa chamada “For Your Vulgar Delectation”, eu acho que é a segunda faixa do nosso novo álbum, e a razão pela qual eu escolhi essa é porque nós acabamos de gravar um vídeo disso, que é uma espécie de mini filme de terror. Muitos zumbis nele, pessoas pegando fogo, levando tiro, sendo comidas… É um filme de terror muito, muito legal, um vídeo muito moderno, que vai sair, curiosamente, bem em tempo da turnê da América do Sul, em algumas semanas.

W (DF): Bem em tempo. E já que você falou sobre isso, qual é a importância do cinema, teatro e artes visuais nas performances do Cradle of Filth? Isso também é uma grande influência na sua música e composição?

DF: Filmes? Sim, é claro… Eu sou um enorme fã de filmes de terror. A inspiração vem de todos os lugares, vem da literatura, vem do ambiente ao nosso redor, sabe, de artefatos, do que este acontecendo na época… Mas sim, os filmes de terror, e tudo o que tem a ver com isso são grandes influências, e isso pode ser lido no “The Gospel of Filth”, que é o livro que nós lançamos há alguns anos, porque há capítulos lá sobre filmes de terror e as suas influências, e entrevistas com estrelas, e mais. E obviamente, nós tivemos pessoas como a Ingrid Pitt e o Doug Bradley como convidados nos seus álbuns. E também, nós fizemos há algum tempo o filme de terror “Cradle of Fear”, então nós temos muito gosto pelo gênero de horror. Sim, eu definitivamente diria que o horror é uma grande influência para o Cradle of Filth.

Nós éramos o completo oposto do que estava acontecendo na época, que era o pop e o grunge.”

W (NM): Sim, eu ia perguntar sobre a sua experiência de trabalhar como um ator no Cradle of Fear. Isso é algo que você gostaria de fazer novamente?

DF: Sim, foi muito divertido. Não tanto a parte de atuação, foi o envolvimento no processo todo. E é algo que nós gostaríamos de fazer novamente. Nós pesquisamos sobre isso, mas é um projeto tão grande, e requer muita verba. Naquela época, nós tivemos sorte de conhecer muitas pessoas que estavam trabalhando em outros filmes, e eles vieram trabalhar no nosso filme entre outros projetos, o que basicamente significava que se o filme tivesse lucro, eles seriam pagos, o que aconteceu. Mas você só consegue esse tipo de coisa uma vez, e se nós fossemos fazer isso novamente, nós teríamos que captar muito dinheiro, e é quase absurdo pensar em quanto dinheiro é investido nos filmes. Eu acho que nós fizemos aquele por mais ou menos 80 mil, 100 mil dólares. Você está falando em dois ou três milhões só para um filme barato hoje em dia.

W (DD): Sim, é muito dinheiro. Dani, você começou a sua carreira no início dos anos 90, um período em que a maioria das bandas de Metal não eram muito populares. Por que você acha que o Cradle of Filth teve tanto sucesso e popularidade provavelmente no pior período do Metal, em termos de popularidade?

DF: Eu acho que porque nós éramos o completo oposto do que estava acontecendo na época, o que era, efetivamente, a música pop e o grunge. Quando o grunge apareceu, ele praticamente matou o Metal, no aspecto da popularidade, ele sobreviveu fortemente no underground. Mas não tinha muito metal fazendo muita coisa. E eu acho que nós éramos diferentes e, como você disse, nós somos muito cinemáticos, teatrais, visuais, e a música suporta isso, então eu acho… Eu acho que nós prendemos a atenção das pessoas em um tempo em que tudo era um pouco neutro.

W (NM): Para mim, Dani, há muitas bandas tocando o mesmo tipo de música que vocês ajudaram a criar no começo dos anos 90. Por que você acha que esse gênero está se tornando tão popular hoje em dia? Você se orgulha de ser uma grande influência para todas essas bandas?

DF: Sim, é claro. Mas como você disse antes, a cena está saturada com todos os tipos de bandas. Há bandas como o Tribune, que são bandas mais americanas – muitas tatuagens e o cabelão e tudo isso, que se tornaram populares há quatro ou cinco anos, e de repente todo mundo estava fazendo isso. E foi a mesma coisa quando o New Metal aconteceu. Sabe, tinha o Korn, e tinha o Mushroomhead e o Slipknot, e de repente todo mundo estava fazendo isso, e é a mesma coisa. Mas sim, há algumas pérolas aí fora, música genuinamente boa. É que tem tanta coisa, que você realmente tem que procurar muito para encontrar as coisas boas.

W (DD): Muito bem, Dani. Muito obrigado pelo seu tempo, pela sua paciência, e obrigado por participar do Wikimetal. Você poderia deixar uma mensagem para todos os seus fãs brasileiros e convidar todos os headbangers de São Paulo para o show do Cradle of Filth no dia 20 de abril?

DF: Sim, eu gostaria de falar para todo mundo ir para o show, vai ser incrível, vai ser caótico, divertido, barulhento e lotado. No meio tempo, muito obrigado a todo mundo que apoia a banda no Brasil, eu aprecio muito. Obviamente, vocês estão no outro lado do mundo para nós, então é ótimo saber que temos apoio até aí. Então muito obrigado por isso, e nos vemos quando nós viermos para o Brasil, em algumas semanas.

W (NM): Perfeito, Dani, muito obrigado por participar do Wikimetal, e nos vemos no dia 20 de abril, com o Cradle of Filth em São Paulo!

DF: Legal, obrigado. Muito obrigado pelo seu tempo.

W (DD): Cheers, cara. Tchau, tchau.

DF: Tchau. Cheerio.

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