Claustrofobia lançou recentemente o novo single “AQUI NÃO” com participação de João Gordo, do Ratos de Porão. Esse é o primeiro trabalho inédito da banda após o álbum Unleeched, lançado pelo selo americano M- Theory Audio e disponível no Brasil pelo selo Wikimetal Music.

Fundada e liderada pelos irmãos Marcus e Caio D’Angelo, a banda vive nos Estados Unidos desde 2018, conquistando o público internacional por meio de shows com grandes nomes da música.

Em uma conversa com o Wikimetal, o vocalista e guitarrista Marcus D’Angelo falou sobre o novo single, a turnê americana com Sepultura e Crypta, planos do novo álbum, e vinda ao Brasil.

Wikimetal: Em “AQUI NÃO” existe um diálogo entre o hardcore, o metal extremo e a cena alternativa nessa música. Isso reflete um caminho que a banda pretende explorar mais?

Marcus D’Angelo: A gente sempre fez isso. Desde as primeiras demo-tapes já existia esse diálogo, algumas músicas mais explícitas, outras mais discretas, talvez com menos experiência, mas sempre rolou. Temos muitas influências e somos afetados por tudo: o ambiente, o dia a dia, o rádio, as notícias, estilos diferentes como rap, eletrônico e samba.

A raíz no metal é forte, isso não muda. Mas nada é tão planejado. A ideia nunca termina do jeito que começa. Em algum ponto, a música assume o controle e passa a revelar o instinto e a intuição. A gente só acompanha o caminho que ela vai abrindo. Com esse leque de influências, as coisas surgem naturalmente. Vai ter mais músicas assim, como também vai ter metal mais direto e tradicional.

WK: O novo single com João Gordo chamou atenção pela força simbólica e sonora. Como surgiu essa parceria? 

MD: Já tínhamos essa ideia de fazer uma parceria com o João desde a época do Peste [álbum de 2011] e nunca deu certo, sempre acontecia alguma coisa que não dava certo. Mas finalmente aconteceu em uma boa hora. E o Gordo, ele tem uma energia, ele carrega uma energia que muda o ambiente. Quem já viu o show do Ratos de Porão sabe do que eu estou falando. Ele sempre foi uma voz que provoca, que incomoda as pessoas, sem pedir licença, ignora. 

A gente já tinha a música, já tinha feito a letra, é uma música de confronto mesmo, de resistência, identidade forte, meio polêmico. Eu mandei a música para ele e o convidei. Ele falou, ‘Me manda para eu ouvir’, eu mandei a música, mandei a letra, ele curtiu muito e falou, ‘Tô dentro’. A presença dele, a voz dele meio que ampliou essa mensagem, a força da música. O nome dele por si só também já traz essa tensão imediata de reações opostas. Então isso se fortaleceu. Os Ratos de Porão lançaram clássicos absolutos do crossover brasileiro, são discos extremamente importantes para a cena, não só brasileira, do mundo mesmo. Influenciou demais o Claustrofobia no começo da carreira, os discos Brasil, RDP Ao Vivo, Descanso em Paz e todos os recentes também.

Sempre foi uma banda verdadeira e a gente se influenciou demais pelas bandas dessa época, nos apegamos nesse estilo, porque não era parecido com o americano ou europeu, realmente, tinha um lance próprio. E a gente se apegou nisso e manteve isso até hoje, mas claro, com algumas mudanças. Correndo de acordo com como as coisas vão mudando no mundo, mas a gente mantém essa raiz. Então foi uma honra ter o Gordo, é uma coisa bem simbólica ter esse gancho daquela época com agora. Também o Gordo é um grande amigo, coração gigante… A gente ficou feliz demais com a presença dele. Finalmente rolou. 

As conquistas com o último disco Unleeched

WK: O último disco Unleeched dialoga muito com temas como libertação, sobrevivência e identidade. Essas ideias vieram da experiência de ter se mudado para os Estados Unidos?

Marcus D’Angelo: Não exatamente a mudança para os Estados Unidos em si. Na verdade, já fazia alguns anos que a gente vinha mudando muitas coisas nas nossas vidas e também na banda. Existiam várias questões que estavam nos acorrentando: maus hábitos, escolhas erradas, companhias, pensamentos, etc.

A mudança para os Estados Unidos acabou sendo uma oportunidade alinhada com esse desejo de transformação. Estávamos muito estagnados, presos numa situação difícil de sair. Quando conseguimos nos estabilizar, as coisas começaram a dar resultado quase de imediato. Foi então que entrou a pandemia, que acabou sendo o estopim para uma reflexão mais profunda sobre valores e sobre o que realmente importa na vida.

Tudo isso influenciou diretamente o momento de finalizar o álbum. Foi um período muito importante, que se refletiu na nossa música e na nossa arte, assim como em todos os outros discos, que sempre foram um paralelo da nossa própria vida. Unleeched é um disco muito forte na nossa carreira, do qual tenho um orgulho enorme. E o mais legal é que hoje a maior parte do nosso set ao vivo vem desse álbum.

WK: Existe algum show nos Estados Unidos que vocês consideram um divisor de águas nessa nova fase da banda?

Marcus D’Angelo: Acho que não teve um show específico que possa ser considerado um divisor de águas aqui nos Estados Unidos. Na verdade, cada passo que a gente dá por aqui acaba sendo um divisor. É um mercado muito fechado, e cada degrau conquistado é uma vitória. Já fizemos turnês memoráveis nos Estados Unidos, com bandas como Exciter, Generation Kill, Exmortus, Hatriot, Sepultura, Obituary, Agnostic Front e, mais recentemente, com a Crypta. Todo esse trabalho tem um peso enorme para nós, e cada passo dado aqui tem um valor muito grande.

A vida nos Estados Unidos e shows com Sepultura e Crypta

WK: Como é viver e trabalhar em um mercado musical tão competitivo influenciou a postura profissional e artística do Claustrofobia?

Marcus D’Angelo: Viver e trabalhar aqui nos obrigou a nos profissionalizar de vez. Nos Estados Unidos, uma banda só funciona se tiver mínima estrutura: gravadora, management e booking. Esse é o jogo. Como sempre quisemos manter uma base oficial aqui, tivemos que encontrar as pessoas adequadas para caminhar conosco. Isso levou muito tempo e paciência.

Ao mesmo tempo, sempre fomos uma banda acostumada a fazer tudo na raça. Nunca esperamos nada de ninguém. Se ninguém faz por nós, a gente faz. E isso chamou a atenção de muita gente por aqui, que não entendia como conseguimos chegar a certos lugares sem uma máquina por trás.

Esse é o peso real do “do it yourself” que vem do Brasil. Hoje estamos equilibrando estrutura com independência, e isso só fortalece a banda. Sabemos do que somos capazes e fazemos acontecer. Não vivemos de hype. Vivemos de trabalho duro, consistência e devoção à arte, e os fãs percebem isso.

WK: Dividir o palco com o Sepultura em solo norte-americano carrega um peso simbólico enorme. O que essa experiência representou para vocês?

Marcus D’Angelo: Não tem como negar, foi um sonho realizado, com mérito. Estar no lugar certo, na hora certa, com o trampo em dia. Uma turnê desse porte só acontece quando muitas coisas, em diferentes camadas, se alinham de verdade.

Existe muita gente que acha que pagamos para entrar nessa turnê, assim como em outras, mas a realidade é o oposto. Fomos pagos para participar de todas elas e tivemos estrutura digna em cada uma. Claustrofobia e Sepultura juntos em solo norte-americano carregam um peso enorme para o headbanger brasileiro, e encaramos isso com o máximo de responsabilidade, atitude e profissionalismo.

Sem dúvida, foi a turnê mais intensa e emocionante que já fizemos. Uma experiência que não se esquece e que nos trouxe ainda mais bagagem, confiança, conhecimento e maturidade.

WK: Vocês também abriram shows da Crypta, que vem de uma geração mais recente mas já com forte presença internacional. O que esse encontro entre gerações do metal brasileiro trouxe de aprendizado?

MD: A gente está sempre aprendendo, mas essa turnê deixou algo muito claro: o mundo dá voltas e ninguém sabe o dia de amanhã. Por isso, desmerecer ou atacar o trabalho de alguém é sempre ignorância.

Muita gente critica bandas sem ter a menor noção do que é estar numa banda de verdade, encarando estrada, pressão, riscos e responsabilidades. Eu vi essas meninas começarem do zero, ainda na época da Nervosa, e hoje todas são headliners por onde passam. Amanhã pode ser outro cenário, com outras bandas ocupando esse espaço, e o ciclo continua. O que não muda é a necessidade de respeito, postura e consciência do próprio valor, sem pisar em ninguém. 

A turnê com a Crypta foi intensa e extremamente profissional: shows lotados, clima tranquilo e foco total no trabalho. Metal brasileiro mostrando força e dando orgulho.

Novo álbum e shows no Brasil

WK: O Claustrofobia está em processo de composição de material novo? Já existe uma ideia clara para o próximo disco?

MD: Já temos cerca de 11 músicas em estágio bem avançado, que devem compor o próximo álbum. Posso adiantar que será um trabalho cravado nas raízes do Claustrofobia e do metal brasileiro. Por isso, nós mesmos vamos dirigir a produção.

A ideia é buscar algo cada vez mais orgânico, com uma concepção mais antiga mesmo, microfonar tudo e sair tocando. Fizemos essa experiência no single “AQUI NÃO” e ficamos muito satisfeitos com o resultado, então a tendência é seguir por esse caminho.

Será um álbum com músicas em inglês e algumas faixas em português, mantendo a tradição e a identidade da banda, já que temos fãs que curtem os dois lados. Também teremos participações especiais surpreendentes e um experimento que deve causar impacto.

Depois de décadas de estrada e de revisitar nossa própria história, vamos entregar exatamente o que todos esperam do Claustrofobia. O momento agora é de cravar de vez o estilo da banda.

WK: Em termos de shows, quais são os próximos objetivos: mais turnês nos EUA, retorno ao Brasil ou novos territórios?

MD: Nossa base aqui está cada vez mais sólida. No momento, estamos finalizando toda a parte burocrática para poder voltar a viajar. A pandemia acabou atrasando nossos planos em pelo menos três anos e nos obrigou a rever muitas coisas. Por isso, ficamos bastante tempo sem retornar ao Brasil, mas estamos perto de deixar tudo 100% resolvido e começar a planejar os próximos passos.

A ideia é viajar mais e tocar ao vivo, que é a nossa paixão, mas de uma forma mais segura, profissional e saudável. Queremos seguir expandindo nos Estados Unidos, voltar ao Brasil no momento certo e também explorar novos territórios, sem fantasia, com os pés no chão, e lado a lado com nossos fãs e seguidores.

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Repórter e Fotógrafa em cobertura de shows, resenhas, matérias, hard news e entrevistas. Experiência em shows, grandes festivais e eventos (mais de mil shows pelo mundo). Portfólio com matérias e entrevistas na Metal Hammer Portugal, Metal Hammer Espanha, The Metal Circus (Espanha) Metal Injection (EUA), Wikimetal e outros sites brasileiros de cultura e entretenimento. Também conhecida como A Menina que Colecionava Discos - [email protected]