O lançamento de Roots levou o Sepultura ao maior sucesso da carreira. O álbum conquistou o mercado internacional e mudou o heavy metal nos anos 1990. Porém, a banda vivia uma crise que acabaria com sua formação clássica.
Em entrevista resgatada pela Metal Hammer, Max Cavalera, Andreas Kisser, Paulo Jr. e Iggor Cavalera relembraram os acontecimentos que culminaram na saída do vocalista no fim de 1996.
Durante as gravações de Roots, o clima ainda era positivo. Max Cavalera afirmou que o grupo tinha liberdade para experimentar e não sentia pressão para repetir a fórmula de Chaos A.D., mas o cenário mudou durante a turnê mundial.
O último show da turnê europeia aconteceu em 16 de dezembro de 1996, em Londres. Naquele mesmo dia, terminou o contrato da empresária Gloria Cavalera, esposa de Max, com o Sepultura. Foi nesse momento que os problemas acumulados explodiram.
Os relatos mostram que cada integrante guarda uma lembrança diferente daquela noite. Para Max, o show foi um sucesso: “O show foi fantástico, super energético. Estávamos tocando muito bem.” Andreas Kisser enxergou outra realidade: “Foi um grande show, mas poderia ter sido muito melhor se fôssemos realmente uma banda.”
Paulo Jr. foi ainda mais direto: “Foi um show muito ruim. Já Iggor Cavalera disse que aquele momento deixou claro que o grupo havia chegado ao limite: “No fim do show, pensamos: ‘Não dá mais para continuar assim’. Foi quando tomamos a decisão.”
Andreas afirmou que, após o encerramento da apresentação, os integrantes decidiram encerrar a relação profissional com a então empresária Gloria Cavalera. Segundo o guitarrista, a decisão levou Max e Gloria a deixarem o Sepultura. “É claro que tentamos convencer o Max a não ir embora.”, revelou Andreas.
Max confessou: “A Glória tentou me dissuadir. Ela me disse para ir com eles. Eu não consegui. Simplesmente não consegui. Eu não sou esse tipo de pessoa. Não consigo prejudicar as pessoas assim. Ela é uma pessoa incrível – simplesmente ir com eles, ficar com eles. Eu pensei: ‘Não vou fazer isso com vocês. É um absurdo.’ Eles marcaram uma reunião para tentar me convencer a voltar. Eu poderia ter dito: ‘Que se fodam todos, esta é a minha banda’. Eu poderia ter feito isso se quisesse. Era a minha banda, criada por mim, o nome e tudo mais. Só achei mais fácil ir embora. Mas foram seis meses de inferno. Eu vivia no meu quarto, só bebendo e usando drogas o dia todo. Eu não queria mais nada com música”.
Os músicos continuam com versões diferentes sobre o rompimento. Ainda assim, todos concordam que aquele foi o momento em que a formação clássica chegou ao fim.
“Fomos abandonados. Perdemos tudo o que levamos 10 anos para construir. Tivemos que cancelar shows na Austrália e no Japão – foi muito ruim. Houve muita animosidade com os promotores e tudo mais. Todos os orçamentos e o dinheiro pesado foram para a Soulfly. Ross Robinson e Andy Wallace foram para a Max. Tivemos que reconstruir tudo”, revelou Andreas.
“Sinceramente, eu não sabia o que eles iam fazer. Mas o Andreas é um cara muito ambicioso. Eu sabia que ele provavelmente ia encontrar alguém e tentar. Pensei que eles poderiam até contratar alguém como o Robb Flynn [vocalista do Machine Head]. Eu pensei: ‘Se isso acontecer, estou ferrado”, disse Max.
Max Cavalera tentou voltar ao Sepultura após a separação
Anos depois da ruptura, Max e Iggor Cavalera voltaram a se aproximar. Segundo Iggor, a reconciliação começou quando ele decidiu procurar o irmão. O baterista afirmou que a morte de Dimebag Darrell o fez perceber que a vida era curta demais para manter a distância entre os dois. “Minha esposa disse que aquilo não estava certo. Então procurei o Max. Esse foi o primeiro passo.”
Max revelou que o reencontro terminou com um pedido de desculpas do irmão. “Ele voltou e pediu desculpas. Disse para a Glória que estava errado. Foi muito importante ouvir isso”. Iggor contou que viajou até Phoenix para passar um tempo com Max. Segundo ele, os dois decidiram deixar as diferenças para trás.
Apesar da reconciliação entre os irmãos, a volta de Max ao Sepultura nunca aconteceu. Em 2010, grandes promotores chegaram a oferecer cifras elevadas para reunir a formação clássica, mas as duas partes continuaram distantes e uma reunião permaneceu improvável.
Max confessou que tentou uma reunião: “Eu estava tentando. Achei que seria muito legal. Principalmente depois de ver o Faith No More voltar. É tipo, ‘Por que não podemos fazer o mesmo?’ Eu até conversei com o Andreas por telefone sobre isso, tipo, ‘Vamos lá, cara, vamos fazer isso. Vamos nessa. O mundo inteiro quer. Seria ótimo.’ E ele concordou comigo, mas algumas semanas depois tudo voltou a dar errado. Então eu pensei, ‘Quer saber? Não vou tentar mais.’”
Na época, Andreas disse que houve tentativas, mas sem sucesso. “Tem havido muitas conversas sobre reencontros, especialmente com a Glória. São sempre eles que nos procuram. Nós dois tocamos em um festival na Alemanha [em 2009], Sepultura e Soulfly, pela primeira vez. Nosso ônibus estava estacionado aqui e o deles estava estacionado a poucos metros de distância. Eu fui até lá, Glória estava lá. Eu a abracei: ‘E aí, tudo bem? Como vai?’ E desde então, ela disse: ‘OK, talvez possamos deixar de lado todas essas coisas ruins e tentar de novo.’ Não foi além disso, porque é algo completamente fora da realidade. Não faz parte do que somos. Esse Sepultura que eles têm em mente não somos nós.”
Iggor revelou que houve algumas conversas. “Mas eu nunca me sentei com esses caras para discutir nada, então não sei o quão sérias eram essas coisas.”
Para Max, se não houvessem as brigas, o Sepultura seria muito famoso. “Acho que teríamos feito muito sucesso se tivéssemos continuado juntos. Não tão populares quanto o Metallica, mas populares. Houve bons momentos, nem tudo foi ruim. Na verdade, nos divertimos bastante. As amizades eram legais, sabe? Sinto falta daquela sensação de ‘Nós conseguimos, podemos conquistar o mundo’. Talvez devêssemos ter tirado um ano de folga e voltado melhor do que nunca. Talvez tivéssemos encontrado uma solução para toda a questão da Gloria, toda a questão da gestão. Naquela época, não estávamos pensando nisso. Os ânimos se exaltaram. Eu teria feito algo diferente? Não sei. Acho que era para ser assim.”
Já Andreas continua mantendo sua opinião até os dias de hoje: “Sinto falta de estar numa banda com o Max? Não. De jeito nenhum. Eu não o conheço hoje. Não conheço a pessoa que ele é, não há arrependimento nenhum. Não vejo por que deveríamos nos arrepender quando estamos em uma situação melhor agora.”
Tentativa de reunião para show de despedida
De acordo com Andreas Kisser, os irmãos Max e Iggor Cavalera foram convidados para a apresentação de despedida, marcada para novembro, em São Paulo, mas optaram por não fazer parte do evento.
O guitarrista afirmou que houve tentativa direta de contato com os ex-integrantes. Segundo ele, além de conversas entre empresários, o próprio guitarrista chegou a falar com Iggor Cavalera por telefone.
“Conversei pessoalmente com o Iggor por telefone há alguns meses e começamos a nos comunicar. Até nossos empresários foram conversar com a equipe deles e tal. Mas eles não querem participar, e tudo bem. É uma escolha deles”, confessou Kisser.
Dias depois, Gloria Cavalera afirmou que Max não recebeu nenhum convite para participar da despedida do Sepultura. Por meio das redes sociais, Glória rebateu as declarações recentes de Andreas Kisser. “Para todo mundo por aí cujas bundas pegaram fogo hoje por conta de manchetes falsas, só para que saibam, ninguém nunca me contatou e ninguém nunca contatou o Max. Fim da história. Sigam seus dias.”
Último show do Sepultura no Brasil
O histórico show de despedida do Sepultura acontecerá em São Paulo, na Mercado Livre Arena Pacaembu, no dia 07 de novembro. Os ingressos já estão à venda por meio do site da Ticketmaster.
Entre as atrações internacionais já confirmadas está o supergrupo Metal Allegiance, além da banda americana de thrash metal Sacred Reich. A programação também contará com as participações confirmadas do Krisiun.
Ex-integrantes e músicos que fizeram parte da trajetória do Sepultura ao longo das décadas também serão convidados para esta despedida definitiva, como Jean Dolabella e Jairo Guedz, integrante da formação original da banda. Demais convidados serão anunciados em breve.
LEIA TAMBÉM: Sepultura: Confira atual setlist da turnê de despedida
