E foi depois desse segundo beijo, que ele olhou pra ela e disse: Eu reparei logo que olhei pra você que seus olhos são  cor de Metal.

 

No quintal da casa de sua avó ele passava as tardes a contar as folhas secas que caiam do velho abacateiro e escutando Led Zeppelin. Brincadeira besta de menino, menino que cresceu ali criado por avós de bolo de fubá, de pesca no final de semana, de avós que perderam os filhos, e de uma velha Strato deixada na herança.

E o menino grande magro e pálido resolveu sair àquela noite de barba por fazer, mesmo com a chuva anunciada pela meteorologia dos olhos e dos trovões escutados a distancia. Foi jantar. A cantina de sempre.

Sempre comia ali com seus pais, depois com seus avós e há muito, sempre sozinho. Espaguete ao sugo, simples e rápido, mas segundo sua avó o prato que realmente mostra quando o restaurante é bom. Vinho tinto da América do Sul. Não importa o país, mas importa o sabor dessa terra, que ele tanto queria ver unida. Claro que no final junto com a conta, ele pediria café, mas nessa altura o paladar já tinha sido trocado pela garrafa vazia do vinho da América do Sul.

E foi naquela noite que ele andava de braços dados com o outono, que ela toda clorofila, fotossindeou aquela alma sem poros.Como um acorde certeiro, sem desafinar. Saindo da cantina, a chuva fazia a sua função com muita competência. E completamente molhado ele reparou na moça que mal podia se equilibrar parada naquele ponto de ônibus. Camiseta do Purple, o lápis do olho escorrendo pelo rosto.

Assim como ele, ela também havia trocado a boa xícara de café por alguma garrafa vazia. A conversa cheia de sorrisos e risos descontrolados durou pouco, durou pouco pois foi calada pelo mais educado “cala a boca” de lábios grudados.

Aquele beijo durou muitas gotas de chuva, e de olhos fechados eles não perceberam que o ônibus que já não era mais esperado, já tinha passado. Então eles ocuparam o tempo pra chegada do próximo com a mais tranqüila espera, falando de musicas da vida, solos inigualáveis, palhetadas (lábios colados) abafadas. E foi depois desse segundo beijo, que ele olhou pra ela e disse: Eu reparei logo que olhei pra você que seus olhos são  cor de Metal. Ela apenas sorriu e disse que isso era papo de bêbado. –O Metal tem cor de vida, insistiu ele na poesia. Foi então que ela respondeu com a mais linda poesia. A dos lábios colados.

No banco do ônibus foi onde eles trocaram os nomes, as idades e outras informações que os beijos e a música tinham impedido até o momento. Ela disse que gostava de Pablo Neruda um poeta chileno, e ele disse que do Chile  ele só conhecia os vinhos.

Ela disse que um dia ele teria que acordar sem preguiça lavar o rosto, mas não fazer a barba. E com AC/DC na vitrola, colocar o melhor terno, a gravata mais cara, usar um perfume francês e correr para a igreja. E que ela estaria lá, o esperando de véu e grinalda para que ele nunca mais tivesse um coração de outono.

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