Em maio de 1996, o Cannibal Corpse atravessava um dos momentos mais delicados de sua carreira. A saída turbulenta do vocalista Chris Barnes colocou em dúvida o futuro da banda pouco antes das gravações de Vile, disco lançado em 21 de maio daquele ano.
Trinta anos depois, o álbum continua sendo lembrado como um marco do death metal, não apenas pela brutalidade sonora, mas também por ter se tornado o primeiro trabalho do gênero extremo a entrar na parada Billboard 200.
Primeiro álbum com George Fisher
O Cannibal Corpse entrou no Morrisound Studio com o produtor Scott Burns para gravar aquele que seria seu quinto álbum, inicialmente chamado Created to Kill. Na época, o vocalista Chris Barnes já dividia atenções com o Six Feet Under, que havia lançado o disco Haunted poucos meses antes. Mesmo com os rumores sobre desgaste interno, Burns acreditava que o Cannibal Corpse ainda vivia um grande momento, especialmente após a exposição conquistada com “Hammer Smashed Face” no filme Ace Ventura: Um Detetive Diferente (1994).
As gravações, porém, rapidamente se transformaram em uma das sessões mais tensas da história da banda. Os conflitos sobre os vocais de Barnes, que já existiam desde The Bleeding, aumentaram durante o processo. Segundo relatos publicados pela Decibel Magazine, discussões entre Barnes, o baixista Alex Webster e o baterista Paul Mazurkiewicz eram frequentes no estúdio. “Barnes tinha uma atitude do tipo: ‘Eu sou o vocalista, eu escrevo as letras e vou fazer o que eu quiser. Ponto final’. Aí virou uma briga”, relatou o guitarrista Rob Barrett em trecho retirado do livro The Scott Burns Sessions: A Life in Death Metal 1987 – 1997.
A situação piorou quando Barnes deixou as gravações inacabadas para seguir em turnê europeia com o Six Feet Under, decisão que acabou marcando sua saída definitiva do Cannibal Corpse antes da conclusão do álbum, posteriormente renomeado como Vile.
Para substituir Barnes, o grupo recrutou George “Corpsegrinder”Fisher, então conhecido pelo trabalho no Monstrosity. A chegada de “Corpsegrinder” representou uma mudança importante na identidade do Cannibal Corpse.
Os membros do Cannibal Corpse afirmaram que o novo vocalista trouxe mais potência e precisão aos guturais, especialmente durante a regravação de “Devoured by Vermin”, uma das faixas mais conhecidas do álbum. O baixista Alex Webster também destacou no documentário Centuries of Torment: The First 20 Years que a entrada de Fisher ajudou a renovar a energia criativa da banda.
Death metal extremo na parada da Billboard
Musicalmente, Vile elevou o nível técnico do Cannibal Corpse. As linhas de baixo de Webster ganharam ainda mais destaque, enquanto as guitarras apostaram em riffs rápidos e mudanças constantes. “A banda trouxe guitarras de sete cordas, e o Alex começou a usar uma de cinco cordas. Isso as deixou instantaneamente mais pesadas”, disse o produtor Scott Burns.
Ao mesmo tempo, o Cannibal Corpse continuava cercado por polêmicas. A arte do disco acabou censurada em diversas lojas e versões promocionais, mantendo a reputação controversa do grupo em uma época em que o death metal ainda enfrentava forte resistência comercial e midiática.
Apesar de tudo, Vile alcançou um feito histórico ao entrar na Billboard 200, algo raro para bandas extremas nos anos 1990. O desempenho mostrou que o death metal podia ultrapassar o circuito underground sem abandonar sua identidade. Em entrevista de 2021 ao site Dead Rhetoric, Alex Webster comentou que jamais esperava ver um álbum tão pesado chegar às paradas americanas.
“Essa foi nossa primeira aparição nessa parada. Então, ficamos muito felizes com isso, como você pode imaginar. Estávamos em turnê quando recebemos a notícia. Acho que estreou em 151º lugar na parada, e aí, claro, caiu imediatamente na semana seguinte, mas mesmo assim, estar naquela parada, especialmente em 1996, era um grande feito para uma banda de death metal. Estávamos animados e ansiosos para ver como as pessoas reagiriam a George, e foi extremamente positivo”, disse Alex.
“Talvez tenha sido em parte devido ao trabalho árduo que fizemos com The Bleeding, e também porque amadurecemos como banda. Mas foi um grande momento quando Vile entrou nas paradas. Foi a prova de que as pessoas haviam abraçado o que estávamos fazendo, em números maiores do que nunca. E foi uma confirmação da nossa decisão de trazer o novo integrante”, revelou o baterista Paul Mazurkiewicz ao site Lauder
O disco não apenas consolidou George “Corpsegrinder” Fisher como uma das vozes mais reconhecidas do metal extremo, mas também abriu portas para que o death metal conquistasse novos públicos nos anos seguintes.
Vale ressaltar que o primeiro álbum de death metal a entrar na parada foi Scream Bloody Gore (1987), do Death, seguido por The End Complete (1992), do Obituary. Porém, o feito alcançado pelo Cannibal Corpse com Vile teve um peso diferente dentro da música extrema.
Enquanto Death e Obituary ajudaram a consolidar o death metal em sua fase inicial, o Cannibal Corpse levou a sonoridade a níveis ainda mais brutais e controversos – definido como brutal death metal. Vocais mais agressivos, letras explícitas, capas censuradas e uma abordagem musical mais extrema fizeram da banda um alvo constante de polêmicas nos anos 1990.
Por isso, a entrada de Vile na Billboard 200 representou mais do que um bom desempenho comercial. O disco judou a popularizar o lado mais pesado e radical do death metal e gore, conseguindo ultrapassar o circuito underground e alcançar visibilidade.
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