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No meu artigo cientifico de conclusão de pós-graduação em História Cultural, abordei um pouco da história da cena Heavy Metal em Goiás. O recorte temporal realizado foi de 1982 até o ano passado. Justamente para abordar a chegada do rock pesado no Estado e, o seu prosseguimento nas décadas posteriores.

A cena de rock goiana tem suas deficiências, é verdade, mas não deixa de ter seus méritos e também seu destaque. Bandas com renome nacional como SPIRITUAL CARNAGE e HEAVEN’S GUARDIAN mostraram que existe sim, grupos de qualidade em terras localizadas no centro-oeste brasileiro. Este trabalho teve como objetivo recriar o cenário social que os headbangers de Goiás vivenciaram e, vivem atualmente. Primeiras bandas, primeiros shows, pontos de encontro e ainda, depoimentos de dois importantes integrantes da cena oitentista. Sigam para leitura o meu trabalho completo abaixo.

por Paulo Henrique de Assis Faria

Sem a música, a vida seria um erro.
Nietzsche

Resumo: O presente trabalho tem como objeto a consciência histórica dos fãs de Heavy Metal do Estado de Goiás. Buscou-se relatar o surgimento do estilo musical no começo da década de 80 e, seu posterior desenvolvimento enquanto representação cultural nos anos posteriores, até os dias atuais. O foco principal desta pesquisa foi descobrir a consciência histórica que os antigos agitadores e fãs metaleiros possuem e, qual a atual representação percebida pelos mesmos.

A GÊNESE DO PESO: O início do Heavy Metal no mundo

No final da década de 1960, mais precisamente no ano de 1968, a banda inglesa Led Zeppelin havia sido formada e, apresentava-se com um som mais pesado que o habitual rock da época. Suas composições tinham muita influência de Blues e, com um peso sonoro que viria a ser reconhecido mais tarde como Hard Rock. Os contemporâneos e conterrâneos do Deep Purple, executavam um som semelhante, porém com a presença mais incisiva do teclado. (CHRISTIE, 2010). Não obstante, no dia 13 de fevereiro em 1970 é que o termo “Heavy Metal” finalmente é empregado a um grupo roqueiro, pois nessa data é lançado o primeiro disco do Black Sabbath, mais um grupo inglês que tinha ligação com a sonoridade pesada. (CHRISTIE, 2010). Para descrevê-lo, Ian Christie explica:

“Formado em Birmingham, na Ingleterra, no final dos anos de 1960, o Black Sabbath é a origem do heavy Metal, a primeira banda com guitarras altas a sair do tempo e explorar dimensões sonoras únicas numa atmosfera de sons explosivos. (…) Eles estavam à frente de qualquer um – mais barulhentos, rápidos, inventivos e versáteis. Mais que isso, faziam os melhores riffs, suas guitarras eram poderosas, e as linhas de baixo inesquecíveis.” (CHRISTIE, 2010, p. 24).

Em termos teóricos musicais os instrumentistas usavam uma estrutura harmônica e melódica conhecida como power chords2. Seu uso era constante e era somado com super distorção e amplificadores cada vez mais potentes. O guitarrista do Black Sabbath Tony Iommi abaixava a afinação de sua guitarra para obter um som mais forte e carregado, enquanto o vocalista Ozzy Osbourne cantava de forma gritada, letras que falam de bruxaria, ocultismo, suicídio, esquizofrenia, entre outros assuntos carregados de tabu social (FIORE, 2011).

Antes do surgimento destes grupos, o termo “heavy” era associado mais a um estado de espírito do que propriamente a um estilo musical. No movimento hippie era usado para adjetivação de algo mais potente do que já se existia. Por isso “O ‘Metal’ do heavy doou uma vitalidade de aço a essa luta, uma força temática inquebrável que garantia tensão, além de emoção desimpedida” (CHRISTIE, 2010, p.22).

O crítico americano Lester Bangs foi o primeiro a usar o termo “Heavy Metal” para falar de música. Anteriormente a expressão era dita por militares do século XIX para referir-se ao poder de fogo de armas ou mesmo na química quando se descobria elementos com alta densidade molecular. (CHRISTIE, 2010).

O power chord pode ser também chamado como 5 chord ou 5th (em português: “acorde de quinta”), por exemplo: D5, E5, G5. A essência na construção do power chord é a união da nota principal (a tônica) com a sua quinta correspondente. A tradicional convenção de ensino musical considera as tríades maiores ou menores o alicerce de toda a formação harmônica, e alguns teóricos rejeitam o power chord porque nele não se incluem as terças maiores ou menores. (FIORE, 2011).

O rock e o seu mais novo integrante, o Heavy Metal estavam cada vez mais populares na década de 1970, sobretudo nos Estados Unidos. O festival estadunidense Cal Jam, por exemplo, abrigou mais de 450 mil fãs que estavam ávidos para assistir ao Black Sabbath, isso exatamente no ano de 1974. A banda que mais fazia sucesso na época, o Led Zeppelin, além de algumas outras de som pesado levavam suas músicas repletas de guitarras distorcidas para shows em estádios, angariando verdadeiras multidões. (CHRISTIE, 2010).

O principal público desse movimento contracultural era composto por adolescentes e jovens adultos. Estes, por sua vez, contestavam fortemente as instituições sociais e econômicas de suas nações (EUA e Inglaterra). Com essa “rebeldia” aparente, os desentendimentos familiares eram crescentes. Representantes governamentais a partir daí, não hesitaram em atribuir esse “caos social” ao Heavy Metal e ao Hard Rock. (FIORE, 2011).

O Metal, enquanto estilo musical e comportamental surgiu logo após o período compreendido como “anos dourados” (décadas de 1950 e 1960); no qual o capitalismo encontrava-se estável e os jovens tinham empregos em abundância e, por conseguinte foram os grandes consumidores dos principais produtos comercias, sobretudo os de origem americana. (HOBSBAWM, 1995). Em 1968, na Europa, houve revoltas estudantis, que se mostraram mais como mudanças culturais do que econômicas e políticas. Porém, esse descontentamento seria a prévia de que os “anos dourados” estavam chegando ao fim. A partir de 1973, a inflação estaria muito alta e a taxa de desemprego alarmante, ou seja, o que era confortável passou a ser uma verdadeira crise. (HOBSBAWM, 1995).

Outro problema nesse período setentista é o conflito de gerações. Antes os jovens viviam bem e sem muita preocupação, mas agora eram obrigados a trabalhar e ajudar no mantimento de casa mais precocemente. (HOBSBAWM, 1995). Eric Hobsbawm sobre esse choque geracional afirma que: “(…) o aumento de uma cultura juvenil específica, e extraordinariamente forte, indicava uma profunda mudança na relação entre as gerações”. (HOBSBAWM, 1995, p.317). Nesse contexto contraditório dos anos 70 é que o Heavy Metal surge e se forja. Suas letras e atitudes incisivas são explicadas por Eric Hobsbawm como:

“A radicalização política dos anos 60, antecipada por contingentes menores de dissidentes culturais e marginalizados sob vários rótulos, foi dessa gente jovem, que rejeitava o status de crianças e mesmo de adolescentes (ou seja, adultos ainda não inteiramente amadurecidos), negando ao mesmo tempo humanidade plena a qualquer geração acima dos trinta anos de idade, com exceção do guru ocasional.” (HOBSBAWM, 1995, p. 318).

Após a década de 1970 e início de 1980 o Heavy Metal foi crescendo mundo afora, vários fãs e subgêneros diferentes foram surgindo. Bandas como o “Judas Priest”, “Iron Maiden” e “Metallica”, ganhavam discos de platina com seus álbuns vendidos e, conquistavam assim uma legião de adoradores. (CHRISTIE, 2010). Sobre a fragmentação do Heavy Metal Fiore comenta:

“A capacidade de hibridação do Heavy Metal é tão extraordinária que, hoje em dia, é impossível enumerar a totalidade dos gêneros que dele procedem. Eis alguns, tais como: o Power Metal, o Death Metal, o Grindcore Metal, o Black Metal, o Doom Metal, o Gothic Metal, o Funk Metal, o Prog Metal, o A Capela Metal, o Nu Metal, o Glam Metal, o Melodic Death Metal, o Christian Metal, o Thrash Metal.” (FIORE, 2011, p. 23).

O HEAVY METAL CHEGA AO BRASIL – Goiás se deleita com o novo estilo

Não existe um relato certeiro de como o estilo Heavy Metal embarcou em terras brasileiras, entretanto, de acordo com pesquisas em blogs e sites relacionados, possivelmente a primeira banda metálica foi o “Stress” de Belém do Pará, criada no ano de 1975. (PIMENTEL, 2012). Seu primeiro nome era “Pingo D’água” e inicialmente tocavam covers de suas principais influências (Led Zeppelin, Black Sabbath, Deep Purple, Nazareth, Sweet e Rolling Stones). (PIMENTEL, 2012).

Em 1982, o grupo paraense foi para o Rio de Janeiro e gravou o seu primeiro disco e homônimo, que contava com músicas com letras em português. Faixas intituladas como “Sodoma e Gomorra”, “A Chacina”, “2031”, “O Oráculo do Judas”, “O Viciado” e “Mate o Réu”, fizeram parte do registro, que pouco tempo depois já era conceituado no meio independente do rock nacional. (PIMENTEL, 2012).

Influenciados pela rebeldia, qualidade sonora e principalmente pioneirismo dos metaleiros do norte, os cariocas do “Dorsal Atlântica”, formados em 1981, dividiram a gravação de um disco com os conterrâneos “Metalmorphose”, e assim entraram para lista de bandas importantes para o cenário de Heavy Metal no Brasil. (PIMENTEL, 1989).

Em São Paulo, o Metal oitentista começou a ganhar dimensão com o “Salário Mínimo”, grupo de Heavy Metal que tinha como maior influência os ingleses do “Judas Priest”. Em 1985, ainda na capital paulista surge o promissor “Viper”, grupo que possuía grande semelhança com o “Iron Maiden” e, que mais tarde, acabou fazendo sucesso no Brasil e até mesmo no Japão. (PIMENTEL, 1989).

Dois anos antes, surgia em Belo Horizonte, capital mineira, aquela que se tornaria o maior nome do movimento Heavy Metal no país, o “Sepultura”. Com um som extremo e altamente influenciado por sons de bandas de Thrash Metal, Death Metal e Black Metal gringas, os até então garotos logo caíram nas graças do público nacional e até internacional, pois a banda faria sucesso nos EUA, na Europa e também no Japão. (PIMENTEL, 1989). Sobre a importância da banda mineira, Christie fala: “O Sepultura, que não é apenas uma história de sucesso no Metal, era a mais conhecida das bandas de rock a sair do Brasil, um país com vasto panorama musical”. (CHRISTIE, 2010, p. 337).

O início da tribo social goiana do Heavy Metal ou simplesmente o surgimento dos headbangers3, foi na própria capital do estado, Goiânia. Para remontar essas lembranças foi utilizado o recurso da História Oral, como 3 Headbangers tem como tradução para o português os “balançadores de cabeça”, como alusão a forma como que os amantes do Heavy Metal curtem seu estilo nos shows. O termo foi criado por uma revista de rock inglesa da década de 1970, chamada “Sounds”. (FIORE, 2011).

O livro “A Voz do Passado: história oral”, do historiador Paul Thompson, foi o escolhido para embasamento teórico neste quesito. (THOMPSON, 1992). A data específica de quando o Metal chegou por aqui é indeterminável, mas segundo relatos, apontam de que foi em meados da década de 1980, como foi possível constatar nos depoimentos coletados na história oral realizada. Um dos entrevistados, Giovanni Seabra, é apontado como um dos pioneiros da cena metálica goianiense e, o próprio afirma:

“Eu comecei a curtir o som rock n’ roll, não era nem Metal, era mais rock n’ roll mesmo, blues e o Metal veio surgindo e a partir daí fui pegando o gosto pela coisa mesmo, admirando e gostando cada vez mais. Eu comecei a entrar na cena como músico tocando. Eu montei minha primeira banda em 85, se chamava ‘Guilhotina’ que depois em 86 ela passou para ‘Mortuário’ né (…).”

Giovanni Seabra contou ainda que sua participação no Metal goiano não se restringiu à apreciador e integrante de banda:

“(…) Eu comecei como ouvinte né, passei a ser músico e com o andar das coisas passei a produzir eventos também. Produzi uns oito eventos na década de 80, trazendo bandas de fora, trouxemos ‘Overdose’, ‘Psychic Possessor’, ‘P.U.S.’, ‘Botchery’, trouxemos uma galera de bandas aqui; que agente tinha uma loja também que era a ‘Metallize’, tinha o apoio da loja (…)”

Metallize

Os pontos de encontro dos headbangers goianos eram limitados e correspondiam em alguns lugares específicos, como revelou em entrevista Giovanni Seabra:

“(…) a gente mesmo organizava a maioria dos nossos shows, a gente que organizava. Tinha muita coisa na ‘Academia do Sobrinho’, ‘2M’, na ‘Metallize’ ou no ‘Multishow’ que era onde rolava as cenas mais fortes assim, de eventos”.

Já no que diz respeito ao surgimento das primeiras bandas de Heavy Metal em Goiás, Giovanni Seabra fala da sua própria, a Mortuário, além de outros grupos contemporâneos em Goiânia:

“(…) bandas metais a primeira foi (sic) ‘Asgard’ e ‘Mortuário’, foram as pioneiras, aqui da cena Metal né, bandas de rock já existia (sic) algumas, de rock, pós-punk, algumas coisas, agora de Metal mesmo foi ‘Asgard’ e ‘Mortuário’, tinha ‘Encruzilhada’, ‘Escola Alemã’, ‘Terminator’ e ‘Mandatory Suicide’ essa geração assim. A… e ‘Spiritual Carnage’.”

Banda Encruzilhada (1987)

A outra fonte oral ouvida foi Marcelo Kozlowski, que tem opiniões e lembranças semelhantes à de Giovanni Seabra. Segundo Marcelo, começou a “(…) gostar de Heavy Metal eu tinha praticamente 15 anos de idade. Mas quando eu comecei a me integrar à cena, quando começou (sic) a aparecer os primeiros headbangers vestindo camisa de bandas, foi mais ou menos final de 80, 89 (…)”.

Marcelo Kozlowski disse, que a exemplo de muitos outros fãs de Metal goianienses, passou “(…) um bom tempo na cena frequentando shows que rolava na ‘Academia do sobrinho’, que rolava no próprio bar e lava-jato ‘2M’ né e tinha também o bar ‘Metallize’(…)”. Mas sua participação na cena de Metal goiana também não ficou somente no apreço, como explica: “(…) eu era apenas espectador, mas depois eu comecei a participar de uma banda que chamava ‘Crucificator’, era uma banda de Death Metal, eu nem tocava guitarra direito era apenas um curioso (…)”.

No começo da década de 1990, Marcelo contou que se afastou um pouco da cena de Metal regressando em uma vertente White Metal depois de ter entrado para a igreja evangélica, ele confirma: “(…)o ‘Light Hammer’ ele começou em meados de 95, assim mais ou menos né (…) junto com o ‘Heaven’s Guardian’, que foi na época do ‘Light Hammer’ e que com outras bandas aí(…)”.

Ainda perpassando na década de 90, Goiânia presenciou alguns desentendimentos entre tribos diferentes dentro do rock. Assim como em São Paulo e Brasília, os fãs de Metal não se entendiam com os fãs de punk, todavia, com o tempo isso foi modificado, como revela Giovanni Seabra:

“(… ) Na década de 90 teve muito problema, assim de surgir turma nova, culturas novas. Houve alguns atritos, começou a entrar a cena Punk aqui também em Goiânia. Eu acho que hoje tá tudo tranquilo, tá tudo unido. Teve essa época de 80, era bastante unida e na época de 90 começou a dar uma divergência das coisas e depois todo mundo se uniu. Agora, a turma que era da década de 80, com outros estilos, com outras coisas, cara todo mundo sempre se deu bem. Uma geração que foi vindo em 90 que foi mais conflitante.”

Outro fator de extrema relevância é a prolífica relação entre as cenas de Metal de Goiânia e Brasília. (GALVÃO, 2010). Essa união do Metal no centrooeste pode ser conferida no depoimento de Marcelo Kozlowski, que cita a banda brasiliense “Volkana” como participante em um dos shows que compareceu: “Então ali tinha a ‘Academia’ e ali, centralizava muitos shows, naquela época veio ‘Volkana’”.

Essas visitas de bandas de candangos em terras goianas são corroboradas por Rosane Galvão, vulgo “Zanny”: “Lembro-me de um show da Flammea que fizemos com a Volkana em Goiânia, por volta de 1990”. (GALVÃO, 2010, p. 136). Essa “irmandade metaleira” é descrita pelo “zineiro” Rômulo Campos ainda como:

“Conexão Pequi é o nome de umas das seções do fanzine Brasília, Fina Flor do Rock, onde é resenhado materiais das bandas oriundas do Goiás. Sempre planejei um evento maior com bandas dos dois estados (DF e GO) e finalmente essa hora chegou. É uma forma de dar continuidade a esse importante intercâmbio cultural que começou nos anos 80, quando a Mosh’s Produções abriu suas portas para receber bandas como Mortuário, Asgard e Escola Alemã e o cenário goiano recebia as candangas P.U.S., Flammea, Volkana e Butchery. Essa irmandade alcançou os anos 90 e continua a pleno vapor até os dias atuais. Produtores , selos e bandas, todos juntos por um Underground mais vivo, forte e ativo. Que essa união persista por outras longas décadas…” (CAMPOS, 2011).

Mas o Metal não era limitado apenas às capitais. Existia e, ainda existem, eventos em cidades do interior de Goiás e até mesmo do entorno do Distrito Federal, como revela Rosane Galvão: “Em Alexânia, em 1985, pegamos um ônibus da ‘Viplan’ e fomos assistir a ‘Fallen Angel’, num bar daquela ‘cidadela’”.(GALVÃO, p. 144). E ainda, como conta a vocalista da banda feminina de Death Metal “Valhalla”, Andréa Tavares: “Eis que um dia apareceu a oportunidade de ensaiarmos numa casa junto com outra banda que possuía aparelhagem. A casa era na cidade Ocidental (cidade goiana localizada no entorno do Distrito federal”. (TAVARES, 2010, p. 44-45).

Localizada a 50 quilômetros de Goiânia, a cidade de Anápolis também começou a ganhar destaque na cena metálica na década de 90. Márcia Priscila, organizadora do festival de Metal “Headbanger’s Attack” conta um episódio no qual vivenciou na cidade Anapolina: “Uma certa vez a Death Slam foi tocar em Anápolis – GO, junto com o Amenthis, na chácara da 51(…)”. (PRISCILA, 2010, p. 123).

Nos anos 2000, essa intensificação do Metal em Anápolis pôde ser conferida com a organização do festival “Anápolis Metal”, que no ano de 2012 já está em sua terceira edição. (ALVES, 2012). Desbravando novamente os anos 2000, o Heavy Metal goiano já possuía uma cena consolidada e, como consequência resultou no surgimento de inúmeras bandas, de vários estilos diferentes. Em depoimento Marcelo Kozlowski afirmou que voltou a fazer parte de uma banda de Metal nos anos 2000, com a sua entrada no “(…) ‘Fate Cross’ como ‘batera’ e então surgiu a necessidade de ter um vocalista, eu já fazia vocal também (…) e o ‘Fate Cross’ durou aí uns seis anos mais ou menos, agente fez vários shows”.

Contemporâneos de Marcelo, o grupo “Heaven’s Guardian”, começou sua trajetória no Metal goiano em 1997. Dois anos depois lançou um álbum demo chamado “Roll of Thunder”, que foi bem recebido pelo público headbanger daqui. (TRAMA VIRTUAL, 2007). Já nos anos de 2001 e 2004, a banda lançou seus dois álbuns completos de estúdio, intitulados “Strava”
e “D.O.L.L”, respectivamente; o que fez com que a banda alcançasse projeção no cenário brasileiro e até internacional. (TRAMA VIRTUAL, 2007). Com o renome conquistado, o “Heaven’s Guardian” tocou em casas grandes nacionais como “Via Funchal (SP)”, “Claro Hall (RJ)”, constantemente dividindo palco com “pesos pesados” do Metal mundial, como os ingleses do “Saxon”, os alemães do “Blind Guardian” e também o “Sepultura”. (TRAMA VIRTUAL, 2007).

Escola Alemã

Em 2007, o “Heaven’s Guardian” completou uma década de existência e como comemoração lançou o seu quarto trabalho, que foi o CD e DVD ao vivo “Live at Gyn Arena-X (TEN) Years on the Road”. (TRAMA VIRTUAL, 2007). Um ano depois, exatamente no dia cinco de junho de 2008, o grupo abriu o show do renomado grupo americano de Thrash Metal “Megadeth”, em evento realizado no “Sol Music Hall” (Clube Jaó). (DIAS, 2008).

CONSCIÊNCIA HISTÓRICA DOS HEADBANGERS EM GOIÁS

Ao retratarmos a tribo social do Heavy Metal em Goiás, sobretudo com o enfoque no seu surgimento – nos idos dos anos 80 – é praticamente impossível deixarmos de lado a “Consciência Histórica” apresentada por seus adeptos – os headbangers. De acordo com Jörn Rüssen “São as situações genéricas e elementares da vida prática dos homens (experiências e interpretações do tempo) que constituem o que conhecemos como consciência histórica”. (RÜSEN, 2001, p.54).

A realizarmos o exercício da consciência histórica, comparamos o que vivenciamos no passado – lembranças mais significativas – com o que lidamos no presente. (RÜSEN, 2001). Jörn Rüsen, ainda salienta:

“Não há outra forma de pensar a consciência histórica, pois é ela o local em que o passado é levado a falar – e o passado só vem a falar quando questionado; e a questão que o faz falar origina-se da carência de orientação da vida prática atual diante de suas virulentas experiências no tempo.” (RÜSEN, 2001, p.63).

Partindo por esse prisma pragmático, se analisarmos os depoimentos coletados, é possível notar fragmentos de consciência histórica, como se verifica na fala de Giovanni Seabra:

“Existia uma cena muito forte. Era carente de locais e coisas assim, de acesso a discos a tudo, mas tinha um público muito fiel, a gente na década 80, a gente nunca fez um show pra menos de 600 pessoas, era nessa faixa de 600 a 1000 pessoas. E a cena era muito mais, como se diz… mais unida do que é hoje. Existia um evento a galera ia lá, todo mundo comparecia, entrava, não ficava ninguém do lado de fora, coisa que acontece hoje. Hoje tem muito mais variantes de estilos né, antes era Heavy Metal , Death, Thrash, mais no peso assim mesmo.”

Ao estudarmos esse comportamento, temos que estar cientes de que existem dois tipos de consciência do tempo, no qual, uma perpassa pela “experiência” (tempo vivido) e a outra a “intenção” (tempo desejado). (RÜSEN, 2001). Ainda, seguindo os ensinamentos de Rüsen, o que é possível compreender é que na fala de Giovanni Seabra, o mesmo aponta aquilo que ele viveu, dando ênfase para o que guarda com bons olhos e, ainda faz um contraponto com a situação “desfavorável” atualmente. Isso é salientado como “A consciência histórica é, assim, o modo pelo qual a relação dinâmica entre experiência do tempo e intenção no tempo se realiza no processo da vida humana”. (RÜSEN, 2001, p.58).

A consciência histórica dos headbangers é semelhante, isso porque na entrevista da outra fonte, Marcelo Kozlowski, o próprio revelou:

“O ‘Light Hammer’ também fez vários shows, a gente já fez show no ‘Jaó’, alcançou uma média de público aí de 8.000 pessoas e tal. Naquela época a cena, na minha opinião, era muito mais forte, a cena hoje é maior, tem muito mais gente né, mas naquela época a cena era bem unida, bem forte mesmo. A galera era sedenta, até mesmo por não ter recurso, por não ter lugar. Então tudo que acontecia, a galera ia em peso mesmo, era uma época muito mágica assim.”

O que é notável é que ambos os depoimentos são “saudosistas”, de maneira que o tempo vivido foi uma experiência única na vida dos dois. Ao aprofundarmos nas lembranças pessoais, outros fatores destacáveis são os lugares e o grupo social
do qual pertenciam. Giovanni Seabra completa:

“Cara, as lembranças era a turma mesmo assim, que era todo mundo muito unido. Se agente ia tocar em Minas, ia tocar no interior de Goiás, Brasília, ia todo mundo, saía ônibus aqui cheio. Ia 50 a 60 pessoas de Goiânia pra assistir show nosso.(…) Tinha muita coisa na ‘Academia do Sobrinho’, ‘2M’, na ‘Metallize’ ou no ‘Multishow’ que era onde rolava as cenas mais fortes assim, de eventos. E essas são as lembranças boas que eu tenho dessa turma, dessa união que existia dessa galera, que era muito ‘massa’(…).”

Marcelo Koslowski possui lembranças bem similares sobre a cena de Heavy Metal em Goiânia na década de 1980:

“Rapaz, eu gosto de relembrar muito a época mesmo do ‘2M’ né, que pra mim foi o estopim né, foi uma coisa marcante, ali onde eu conheci muita figura né, o próprio pessoal do ‘Mortuário’, o ‘Foka’, o ‘Paulera’ que tocou um tempo no ‘Heaven’s Guardian’, então é uma galera das antigas, que veio tudo dessa época e os grandes shows que aconteciam na ‘Academia do Sobrinho’, que hoje não existe mais, que ficava, eu nem sei o nome daquela praça ali… uma praça que fica acima da praça Tamandaré. (…) E uma época muito marcante também foi a época do ‘DCE da UFG’ onde acontecia um movimento bem forte ali né (…).”

Mortuário

Rüsen explica ainda que é possível levar em consideração as interpretações alcançadas pela consciência histórica, a partir do momento em que se realiza uma dicotomia de duas qualidades de tempo intrínsecas e, complementa falando que “As experiências do tempo são carentes de interpretação na medida em que se contrapõem ao que o homem tenciona no agir orientado por suas próprias carências”. (RÜSEN, 2001, p. 59).

Esses ensinamentos são seguidos em prática, como finaliza Marcelo Kozlowski ao comparar a dimensão da cena de Heavy Metal do passado, com da atualidade:

“(…) eu acho que isso cresceu, de uma certa forma, em aglomerado, em população vamos dizer assim. Em agrupamento de gente. Mas filosoficamente, não. (…) Tinha mais proposta no que agente tava fazendo. Tinha mais amor, agente sabia o porquê que agente tava fazendo isso. Hoje não, hoje virou um movimento de ‘mauricinhos’ e ‘patricinhas’, de uma certa forma falando né, muito ‘auê’ (…) O movimento hoje tá muito ‘poser’ né, não tem aquela seriedade, aquela vontade de mostrar a sua expressividade, tanto musical, quanto ideológica né. Então hoje tá muito disperso, é muita farra né (…) Infelizmente na minha opinião é isso. E isso traz o que? Um desânimo, né? E se enfraquece o movimento.”

REFERÊNCIAS

ALVES, Gabriel. Whiplash Net: Anápolis Metal 2012 (Parque JK, Anápolis- GO, 29/01/12) (Matéria). Disponível em
Acesso em 31 de dez. de 2012.

CAMPOS, Rômulo. Blog Coffee Music Cine (Conexão Pequi). Disponível em Acesso em 31 de dez. de 2012.

CHRISTIE, Ian. Heavy Metal: A história completa. Tradução de Milena Durante e Augusto Zantoz. São Paulo: Arx, 2010.

DIAS, Artur. Universo Rock: Megadeth – Goiânia/GO – Clube Jaó. (matéria) 2008. Disponível em:
Acesso em: 28 de dez. de 2012.

FIORE, Adriano. Carnavalização Bakhtiniana do grotesco em imagens do Hard Rock e Heavy Metal. (Dissertação de Mestrado). Londrina: UniversidadeEstadual de Londrina, 2011. Disponível em Acesso em: 10 de dez. de 2012.

GALVÃO, R. et al.Mulheres do Rock: O rock do DF e do Entorno sob o ponto de vista feminino. Brasília: Zine Oficial, 2010.

HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. Trad. Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

PIMENTEL, Luiz César. Yes, nós temos metal. Revista Superinteressante. São Paulo: Editora Abril. Jun. de 1989. Disponível em: Acesso em 27 de dez. de 2012.

____________________ et al. Fúria – a história e as histórias do Heavy Metal no Brasil. Capítulo 3: A primeira explosão acontece em Belém do Pará. São Paulo: Wikimetal, 2012. Disponível em: Acesso em 29 de dez. 2012.

RÜSEN, Jörn. Razão Histórica: teoria da história: fundamentos da ciência histórica. Trad. Estevão de Rezende Martins. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.

THOMPSON, Paul. A voz do passado: história oral. Trad. Lólio Lourenço de Oliveira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
TRAMA VIRTUAL. Heavens Guardian. 2007. Disponível em: Acesso em 28 de dez. de 2012.

FONTES CONSULTADAS: Entrevistas de História Oral

Giovanni Seabra – 18 de dezembro de 2012.
Marcelo Kozlowski – 14 de dezembro de 2012.

Paulo Henrique de Assis Faria é graduado em jornalismo e trabalha como assessor de comunicação do Sindego. É especialista em História Cultural: Imaginários, Identidades e Narrativas (UFG) e teve seu trabalho orientado pelo Prof. Dr. Rafael Saddi Teixeira.

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