Há 15 anos, entrei no Bar Opinião para ver o HIBRIA lançando seu primeiro disco, Defying the Rules, 2004. Na época, o metal vivia dias de glória, e o quinteto gaúcho apontava como uma das grandes revelações nacionais, trazendo ao público uma verdadeira aula de velocidade, riffs matadores e um vocal simplesmente acima da média, pra dizer o mínimo. Disco após disco, figuraram o topo de inúmeras listas de melhores do ano, além de roubarem a cena no Japão, onde inclusive gravaram um DVD que mostrava que sim, aquilo tudo era real.

Entre as várias formações, o agudo infalível de Iuri Sanson e a segurança e criatividade do guitarrista Abel Camargo somavam as forças que mantinham o grupo adiante. Até que um dia, em dezembro de 2017, a fatídica notícia: num êxodo generalizado, embora sem conflitos aparentes ao público, Abel estava sozinho no barco. O grupo seguiria junto até a agenda se esgotar, e então o guitarrista daria início à reconstrução do HIBRIA.

Após incontáveis audições, confirmações equivocadas e a angústia de um futuro incerto, o HIBRIA finalmente ressurge com um lineup inteiramente novo, inaugurando o time, sob produção da Ablaze, no palco do Bar Opinião no primeiro sábado de dezembro de 2019. Na cozinha, são recrutados o jovem baterista Otávio Quiroga e Alexandre Panta, o qual vem há anos construindo uma trajetória de esforço e reconhecimento no universo do contrabaixo brasileiro.

O guitarrista selecionado foi Bruno Godinho, com audições de altíssimo nível. Sabe-se que a criatividade e exigência instrumental do HIBRIA são grandes diferenciais na obra do grupo, mas ainda havia mais um papel, talvez o mais dramático, a ser atribuído: quem será capaz de substituir Iuri Sanson? O recrutado para a ilustre e ingrata missão foi Victor Emeka, uma das vozes do emergente Soulspell. Talvez nunca se tenha duvidado do potencial do novo vocalista, mas a questão permaneceria até o dia 7 de dezembro deste ano que se encerra: será que Emeka vai trazer uma boas alternativas ao drive agressivo e aos agudos explosivos de Iuri Sanson?

Para aquecer os trabalhos, foi recrutado o Vakan, de Santa Maria (RS). Pelas 19h15, o quinteto entrou no palco com não mais que 40 pessoas habitando a casa. O fio condutor da apresentação da banda certamente foi sua vontade de mostrar seu som, um metal melódico com nuances progressivas, com referências de Edguy – com melodias de “Beyond Mankind”, sua música de abertura, idênticos aos de “Under the Moon”, dos alemães – e Helloween, embora com uma guitarra apenas e um par de teclados inaudíveis nos PAs.

Visualmente e na presença de palco, a insegurança parecia falar mais alto: figurinos desencontrados, imobilidade e caras fechadas pareciam conter o enorme potencial de canções como “Russian Roulette” e “Euphoria”. Infelizmente, nem os sidedrops com logo e design que ilustram o último lançamento da banda – Vagabond, de 2018, o qual que traz elementos de música tradicional gaúcha, completamente deixados de lado na apresentação -, nem a camisa social do baixista foram o suficiente para dar à performance uma sensação de profissionalismo.

Felizmente, o que salvou o show do Vakan foi o bom repertório, recheado de versatilidade e ótimas sacadas melódicas. O vocalista Matheus Oliveira, o melhor em cena, buscou com naturalidade notas bastante altas – um caso raro de quem convence mais ao vivo do que no disco -, circulou pelo palco, ajoelhou-se ao chão, mostrando-se o integrante mais à vontade no palco. A banda ainda disparou um cover de “Waiting Silence”, do Angra, bastante funcional, trazendo familiaridade e animação aos presentes, que iam pouco a pouco habitando novos espaços da casa.

Com quase uma hora de apresentação, os gaúchos encerraram a apresentação com um segundo cover, dessa vez: “Wasted Years”, do Iron Maiden, garantindo uma finalização infalível. O Vakan já tem o mais difícil – as músicas, e quem as toque. A importância da identidade visual – estamos falando de metal! -, bem como da presença de palco, eis os elementos necessários para trazer a música à vida ao olhar – e não apenas nos ouvidos – do público.

Às 20h30, entraram no palco Quiroga, Panta, Godinho, seguidos do muito aplaudido Abel Camargo, caminhando para o grande momento. A banda deu início aos trabalhos com o “A Life For Yourself”, faixa do álbum Moving Ground, o último trabalho com Iuri e cia. Finalmente, Victor Emeka entrou no palco aos pulos, com um imenso sorriso no rosto e óculos escuros na cara para esconder o nervosismo – não adiantou. O vocalista chegou mostrando a que vem no melhor clima The Voice Brasil. Mas o público ainda não pareceu convencido pela voz do novo frontman.

Para “Shoot me Down”, a banda veio ensaiada. Dupla coesa, os novatos Panta e Godinho, juntos à direita, deram mostras de entrosamento e parceria na aventura, tocando com técnica, entusiasmo e respeito aos arranjos originais. Na ponta esquerda, Abel pareceu agora comandar o time, vivendo com emoção os acertos de sua nova aposta. Em “Silent Revenge” e “Blinded by Faith”, a voz de Emeka começou a surgir com mais força, chegando a explodir em longas notas altas. Eis a primeira brecha para comunicar-se com o público, e aqui o vocalista finalmente deságua um pouco de seu nervosismo.

Notável até o último momento, Emeka gosta de falar. Agradeceu muito, saudou a vida e a carreira de todos os ex-integrantes que passaram pela banda e assim consagrou seu rito de passagem junto aos fãs da cidade natal da banda. Considerando-se o imenso problema para a imagem e para o futuro de uma banda que troca seu frontman, Emeka foi calorosamente recebido pelo público. Notável também é a dificuldade que o vocalista tem de falar no microfone com propriedade – ainda não está claro se era apenas ansiedade, mas até o final do concerto, Emeka é um cara difícil de se fazer entender, desviando a voz da cápsula do microfone e falhando em articular. Um problema a ser acertado já de cara, mas que felizmente não afeta a música – embora prejudique sua retórica, e consequentemente a maneira como o público o vê fora das canções. Prende o grito, Emeka!

O vocalista ainda nos lembra dos 15 anos do debut do HIBRIA, e a banda finalmente atacou com um dos temas mais emblemáticos e esperados da primeira fase da banda. “Steel Lords on Wheels”, para muitos a prova de fogo do vocalista e certamente o destaque da noite, foi tocada com muito tesão pelo trio de cordas graças ao punch desgraçado que a canção nos oferta. Com muita felicidade, Emeka trouxe de volta, com sua própria personalidade, os impressionantes agudos eternizados por Iuri Sanson, satisfazendo a gana do público por dar essa questão por resolvida. Mesmo tendo jogado frases chave para o público completar, temos a partir daqui – especialmente a partir do agudo final – um novo frontman, convencido de sua ótima recepção, sua potência e seu preparo vocal. Cadeiras viradas para a nova voz do HIBRIA.

Dada a resposta do público, “Quem aí conhece o ‘Moving Ground’? talvez não seja a pergunta mais apropriada. Afinal o HIBRIA é gigante, mas ainda é o underground. Além do mais, estamos falando de uma banda que há pouco hibernava no imaginário metal do país. A banda executou a faixa título de seu último álbum, que empolgou mais por ser muito complexa do que por ser conhecida.

Novamente, Emeka agradeceu a ótima recepção e anunciou que a próxima música contou com a contribuição de todos que estão no palco. O vocalista fala de “Fearless Will”, single lançado poucas semanas antes do show de retorno. Um pouco otimista demais, Emeka contou com a voz do público para os refrões. De qualquer forma, especialmente ao vivo, a música mostrou que o novo HIBRIA segue fiel à sua concepção básica, aliando complexidade, criatividade, ótimas melodias e, talvez o mais importante, renovação – embora, em estúdio a faixa apresente, a nível técnico, e não musical, franca divergência das antológicas produções da banda. Aqui vemos o vocalista mais à vontade, menos comprometido a “fazer jus ao passado”, e podemos ter uma amostra do que o futuro reserva para a sonoridade da banda. 

Para o momento de autorreconhecimento junto ao público, instaurou-se uma jam funky-bluesy instrumental, em que Emeka aproveitou para apresentar os integrantes do HIBRIA. Os músicos emendam o heavy blues “Leading Lady” e o contraste é bruto quando “Tightrope”, mil vezes mais pesada que no disco – mesmo com a pegada “leve” de Quiroga, que ainda não põe tanta pressão quanto poderia -, bota todo mundo pra bater cabeça no Bar Opinião. Após demonstrar pleno domínio de sua extensão, Emeka anunciou a última canção, e o público mais uma vez revive os velhos tempos com o clássico excepcional “Millenium Quest”. A banda deixou o palco, e após alguns minutos, Abel volta sozinho com sua guitarra. 

“O dia em que eu não me arrepiar antes de subir no palco eu paro de tocar”, disse Abel ao seus fiéis admiradores. O guitarrista, numa cruzada para manter seu sonho vivo, lembrou-se da importância dos conterrâneos: “vocês foram os primeiros”, comenta em tom de gratidão. Em fala regada a emoções e cerveja, Abel agradeceu e relembrou cada um dos antigos integrantes da equipe e da banda, inclusive aqueles, presentes nas imediações, que ajudaram a fundaram a banda nos anos 90.

A banda encerrou a função com outro grande hino de sua carreira, “Tiger Punch”, muito bem executado, deixando o palco para encontrar seu público nas instalações do Bar Opinião. Compreender a intrincada situação de uma banda de speed metal brasileira relevante com o alcance surreal que já teve e ter de passar por uma reformulação dessas, exige muita maturidade e resignação por parte dos que a acompanham. Mas o fato é que, se a vida e as prioridades mudam, as bandas também tem esse direito. Longa vida ao HIBRIA em sua reconstrução, e que este seja apenas mais um capítulo de sua formidável trajetória.

Veja abaixo fotos exclusivas do show do HIBRIA tiradas por Daniela Cony. Em seguida, a setlist completa.

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HIBRIA @ Bar Opinião, Porto Alegre – 07/12/2019

  1. A Life for Yourself
  2. Shoot me Down
  3. Silent Revenge
  4. Blinded by Faith
  5. Steel Lord on Wheels
  6. Moving Ground
  7. Fearless
  8. Leading Lady
  9. Tightrope
  10. Millennium Quest
  11. Tiger Punch