O fanatismo de Steve Harris, baixista e fundador do Iron Maiden, com o futebol é sabido por todos os fãs da banda, mas a verdadeira história do músico com o esporte vai muito além de acompanhar jogos do West Ham United, seu clube do coração, cujo logo estampa os seus baixos e as cores bordô e azul estão sempre presentes em sua munhequeira.
Muito antes de fundar o que se tornaria uma das maiores bandas de metal da história, o jovem Arry, crescido no East End londrino, quase seguiu outro caminho: se tornar jogador profissional de futebol. Entre treinos nas categorias de base do time e a descoberta de sua paixão pela música, Harris viveu um momento decisivo que o obrigou a escolher entre os gramados ingleses e o destino que o levaria, anos mais tarde, a se tornar um ícone da música.
Relação de Steve Harris com o West Ham começou aos 9 anos de idade
Em 11 de dezembro de 1965, aos 9 anos de idade, Steve assistiu à sua primeira partida de futebol – West Ham 4 x Newcastle 3 – e no final daquela década já se destacava como lateral no time amador Beaumont Youth, chamando a atenção de Wally St. Pier, olheiro que serviu aos “Hammers” por 47 anos ininterruptos.
Ao identificar seu potencial, St. Pier o levou para a famosa “Academy of Football”, um dos celeiros de talentos mais prestigiados e rigorosos do mundo. Foi de lá que saíram nomes como Bobby Moore e Geoff Hurst, essenciais na conquista da Copa do Mundo de 1966 pela Seleção Inglesa. Décadas mais tarde, a mesma academia revelaria ídolos como Rio Ferdinand, Frank Lampard, Joe Cole e Declan Rice — atual pilar do Arsenal e da seleção nacional.
Steve passou cerca de nove meses treinando nas categorias de base aos 14 anos de idade. Longe do glamour e das estruturas tecnológicas da Premier League atual, a rotina de treinos durante o rigoroso inverno londrino exigia improviso e resiliência dos jovens atletas.
“Era uma loucura, mas eu costumava treinar em Chadwell Heath e, no inverno, não havia iluminação naquela época, então nós treinávamos no pátio de [antigo estádio] Upton Park e no velho ginásio de madeira, jogando ‘dois contra dois’”, relembrou ele em entrevista feita ao site oficial do clube em 2023.
Campos de Futebol x Música
O que parecia o início de uma promissora carreira nos gramados esbarrou na realidade de um adolescente descobrindo a juventude nos anos 1970. Enquanto a “Academy of Football” exigia disciplina, foco absoluto e noites de sono regradas, ele descobria uma nova paixão: a música, especialmente nomes como Free, Genesis e Jethro Tull.
Por conta disso, ele percebeu que as rígidas restrições da rotina de um atleta entravam em conflito com os desejos de qualquer jovem de sua idade. “Foi ótimo [jogar na base do West Ham], mas 14 anos é a idade errada, na verdade. Tudo o que eu queria fazer era começar a tomar umas cervejas e conhecer umas garotas — o que não combina com jogar futebol. Eles querem que você vá para a cama cedo e todo esse tipo de coisa”, revelou à Kerrang! em maio de 1992. [transcrição via The Guardian].
Ironicamente, a ética de trabalho e a disciplina rejeitada por ele nos gramados se tornaram, poucos anos depois, a sua marca registrada na liderança de sua própria banda.
“Em certo sentido, isso me desiludiu, porque pensei: ‘se não posso me dedicar ao clube que eu realmente amo, então qual é o sentido disso tudo?’ Já o Iron Maiden era algo com o qual me comprometer. Não sei bem o porquê. Talvez porque eu ainda pudesse beber cervejas e ver garotas!”, brincou o músico na mesma publicação.
‘Virtual XI’ e parceria com o West Ham em 2019
Embora a escolha pela música tenha se provado a mais acertada possível para a história do metal, o futebol nunca saiu das veias de Steve. Com o lançamento do álbum Virtual XI, em 1998, e aproveitando o clima da Copa do Mundo da França, o Iron Maiden realizou uma ação de marketing e criou o “Virtual XI FC”, organizando uma turnê promocional europeia focada exclusivamente em jogar futebol, com o encarte do disco simulando uma seleção.
A equipe contou com a participação de grandes jogadores, como o meia inglês Paul Gascoigne, o centroavante colombiano Faustino Asprilla e o volante Patrick Vieira — que se consagraria campeão do mundo meses depois com a seleção francesa.
No ano de 2019, Steve alcançou algo que sua versão jovem dificilmente acreditaria: a linha de uniformes Die With Your Boots On. As camisas oficiais colaborativas entre a Donzela de Ferro e o West Ham, que trazem o logotipo da banda estampado no uniforme do clube londrino, tornaram-se um sucesso absoluto de vendas entre torcedores e fãs do mundo todo.
“Em todo o mundo, temos pessoas na plateia com produtos do West Ham, e pelo que me disseram, muitos torcedores estrangeiros iam aos jogos e à loja do clube e diziam que se tornaram torcedores do West Ham por causa do Iron Maiden.”, contou.
O coroamento de seu fanatismo, no entanto, veio recentemente. Como um torcedor que ainda acompanha todas as partidas, Steve Harris viu, em junho de 2023, o West Ham conquistar o título da UEFA Europa Conference League. Mesmo no meio de um show da The Future Past Tour em Bergen, na Noruega, o baixista encontrou uma maneira de acompanhar a final contra a Fiorentina, celebrando nos bastidores o momento em que seu clube voltou a levantar um troféu europeu após cinquenta e oito anos de espera.
“Nós entramos [no palco] às dez para as nove e o jogo começou às nove horas. Tentei adiantar [o ínicio] para poder assistir ao final do segundo tempo, mas eles não conseguiram. Eu estava sendo atualizado pelas coxias. O técnico de bateria é torcedor do Manchester City e me disse que estava 1 a 0. Depois, um cara na primeira fileira me diz que ficou 1 a 1, mas assim que eu saí do palco, disseram que estávamos ganhando de 2 a 1 e fiz uma corrida louca de volta ao hotel na van. Eu pensei que tinha ido para a prorrogação, pois o jogo já estava rolando há muito tempo, mas quando voltei, abri no meu celular e estavam todos comemorando!”, relembrou em entrevista ao site do West Ham.
Baixista virou “capitão” de algo maior: o Iron Maiden
Apesar de nunca ter se profissionalizado, Steve deu um jeito de levar os gramados para onde quer que a música o chamasse. Com o Maiden F.C, equipe formada por músicos, técnicos e amigos e que viaja junto com a banda nas turnês e onde quer que o grupo se apresente, é quase uma regra: o “Patrão” e seu time estarão em algum campo local disputando partidas amistosas contra fãs, jornalistas ou veteranos da região.
Mas o verdadeiro e definitivo fechamento desse ciclo aconteceu recentemente, no dia 28 de junho de 2025. Celebrando os 50 anos de formação da banda durante a Run For Your Lives World Tour, o Iron Maiden realizou um show histórico e para 75 mil pessoas no London Stadium — atual casa do West Ham United.
Para o menino que largou os campos para ter a liberdade de tocar seu baixo e tomar algumas cervejas, tocar no estádio do seu time do coração foi a consagração máxima de sua carreira. Aquele Steve que sonhava em ser um “Hammer” acabou se tornando o capitão de uma torcida muito maior: os “Blood Brothers”.
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