Em 18 de junho de 1996, Patti Smith lançou um dos trabalhos mais emocionais de sua carreira. Após anos afastada dos holofotes, a artista retornou com Gone Again, álbum que marcou o fim de um longo hiato e refletiu uma sequência devastadora de perdas pessoais. Trinta anos depois, Gone Again continua sendo um trabalho singular dentro da discografia de Patti Smith.
Entre os anos 1980 e o início dos 90, Patti priorizou a vida familiar ao lado de seu marido, o ex-guitarrista do MC5, Fred “Sonic” Smith, em Michigan. A morte do marido, em novembro de 1994, mudou tudo e o luto a levou de volta à música.
Então, surgiu Gone Again, uma homenagem às pessoas fundamentais na vida de Patti Smith. Além de seu marido, a cantora havia perdido o irmão Todd Smith, o fotógrafo e amigo de longa data Robert Mapplethorpe, o tecladista Richard Sohl e Kurt Cobain, por quem Smith tinha grande compaixão. O disco também traz a última participação de estúdio lançada em vida de Jeff Buckley. O cantor contribuiu com os vocais de apoio na faixa “Southern Cross” e tocou o esraj egípcio, um instrumento de cordas, na música “Fireflies” e se tornaria outra perda precoce da música menos de um ano depois.
Como Patti transformou a dor em criação artística
O peso dessas ausências moldou a atmosfera do álbum do início ao fim. Gone Again não funciona apenas como um memorial. O álbum também representa uma reconstrução, onde Patti transformou a dor em criação artística e produziu um trabalho que mistura rock, folk, poesia e reflexão existencial.
Um dos aspectos mais fascinantes é a forma como Patti Smith desconstrói a própria imagem. Nos anos 1970, ela ajudou a definir a linguagem do punk rock. Mas em 1996 escolheu outro caminho. Em vez de confrontar o mundo com volume e velocidade, optou por enfrentá-lo com vulnerabilidade.
“Acho que o tema recorrente é morte, passagem e renovação. Comecei a gravar este álbum algum tempo depois da morte do meu marido e do meu irmão, então, claro, ele reflete muito disso, mas não é um álbum negativo e espero que não seja deprimente. Grande parte dele é dedicada ao meu marido, repleta de pensamentos sobre Fred, memórias de Fred e também votos de felicidades para a sua jornada”, disse Patti em entrevista ao SFGate, meses antes do lançamento do disco.
A artista explicou que voltou a escrever para lidar com o luto e para encontrar uma forma de seguir em frente, mesmo sendo doloroso expor sentimentos íntimos. “Estar em paz com a morte de pessoas é realmente um mito. Essas coisas vêm e vão. […] Acho que às vezes, quando perdemos um ente querido, nos sentimos culpados por continuar vivendo, mas isso é essencial. Somos seres humanos e, à medida que nossos entes queridos partem e vão além, precisamos continuar celebrando nossa vida na Terra. Muitas vezes, trabalho em vez de chorar, e talvez haja algo neste registro que possa ser útil para outra pessoa que esteja passando por uma provação semelhante”, refletiu a cantora.
“About a Boy”: a despedida de Patti Smith para Kurt Cobain
Embora Patti tenha falado principalmente sobre a morte do marido, a presença de Kurt Cobain também está no álbum. A segunda faixa mais longa do disco, (8 minutos), “About a Boy” permanece como um dos tributos mais sensíveis já dedicados ao vocalista do Nirvana, morto em abril de 1994.
Patti nunca teve uma relação próxima com Cobain, mas enxergava nele uma figura artística rara. Sua morte teve forte impacto emocional sobre ela e acabou influenciando o processo criativo que a trouxe de volta à composição.
A música está distante dos clichês do grunge, em vez de guitarras explosivas ou refrões agressivos, Patti escolheu um caminho minimalista. O violão conduz toda a narrativa com um clima soturno e a interpretação vocal parece quase uma conversa íntima com alguém que partiu cedo demais. Mais do que falar sobre Kurt, a canção parece refletir sobre uma geração inteira de artistas consumidos pela fama, pela solidão e pela autodestruição – Kurt Cobain era jovem, talentoso e atormentado.
“Não era que eu estivesse com raiva de Kurt Cobain; afinal, foi a decisão dele, a vida dele. Em vez disso, eu estava chateada, com aquela raiva estranha que vem com o luto. Eu não conseguia entender como alguém tão jovem, tão talentoso, podia jogar fora todo o seu futuro. Em pouco tempo, vi três pessoas tão importantes para mim quanto meu marido, meu irmão Todd e meu amigo Robert saírem da minha vida, e o que eu sentia era uma enorme impotência diante do que aconteceu com Kurt”.
“Escrevi ‘About a Boy’ pensando que entendia o significado e a importância da música dele, das letras. Eu me inspirei no talento dele, mesmo me sentindo boba por ser eu, muito mais velha que ele, a escrever aquela música. Uma geração inteira perdeu alguém como Kurt, que os inspirou, que de certa forma era o ídolo deles”, confessou Patti em entrevista ao site espanhol Ruta 66, em 2020.
Críticos da época identificaram imediatamente a faixa como uma ode à Cobain. O Los Angeles Times descreveu “About a Boy” como uma homenagem tocante ao líder do Nirvana: “A melancolia assume diferentes formas”.
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