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Interpol. Créditos: Divulgação

Interpol e Viagra Boys transformam Audio em um ponto de ebulição antagônico mas funcional

Antíteses entre si, as bandas lotaram cada centímetro da Audio para o aquecimento do Lollapalooza 2026 na última quinta-feira

Na última quinta-feira, 19, a expectativa na Audio não se limitava à estreia dos suecos do Viagra Boys em solo brasileiro e em ver o virtuosismo do Interpol em ação; passava também pela curiosidade de entender como duas bandas tão antagônicas se comportariam diante de uma casa lotada, às vésperas de suas apresentações no Lollapalooza Brasil. O público, aliás, foi recebido com uma ação da patrocinadora Flying Fish, que distribuiu cervejas não só uma vez, mas dando até brinde para quem comprava algo no bar. 

A outra surpresa bem oportuna foi a abertura do camarote. Prevendo um possível caos, a própria organização da casa deu luz verde e quem foi esperto conseguiu ver o show um pouco mais confortável. O que tirava, sim, um pouco da graça de shows como o do Viagra Boys, mas não é todo mundo que aguenta passar sufoco, seja divertido ou não. No final, a amálgama deu certo, mas isso fica um pouco óbvio se levar em conta que grande parte de quem hoje celebra o deboche sueco é a mesma geração que foi forjada nos inferninhos, na simplista denominação de ‘’rock alternativo’’ e no indie sleaze que consagrou o Interpol mais de duas décadas atrás.

A anatomia de deboche do Viagra Boys

Assim que Sebastian Murphy pisou no palco da Audio, um fio invisível pareceu se apoderar de todos; o público estava na palma de sua mão. Parece um exagero, mas não é. O que, normalmente, leva quase um show inteiro para se extrair da audiência, eles conseguiram na primeira música. Antes disso, o frontman já havia chegado ao aeroporto de São Paulo sambando ao som de “Brasil Pandeiro”, conhecendo não só a nossa batucada, como se jogando nos clichês culinários do país – cinco caipirinhas e muito pão de queijo como tira-gosto -, coisa que foi sublinhada em uma de suas conversas com o público. A frustração pelo cancelamento no Primavera foi lavada pelo puro suco do Caos, com “C” maiúsculo – um acerto de contas com o passado que serviu de combustível para a performance.

Isso porque o Viagra Boys demonstra um compromisso sério com as vísceras do punk: não apenas debocham das caricaturas sociais, mas reservam espaço para rir de si mesmos. Essa autenticidade causou uma polvorosa surreal na casa; ninguém precisava de instruções sobre como reagir. De forma orgânica, o público entrou em combustão, alternando entre pulos em sincronia, mosh pit e alguns crowdsurfings pontuais. E não foi só o público que teve esses momentos, claro. A própria banda se jogou na experiência. Em certo momento, o saxofonista serelepe Oskar Carls subiu nas caixas ao lado do palco, dançando como se estivessem tocando uma ‘’Nightclubbing’’, do Iggy Pop, menos densa e menos sensual. Já Elias Jungqvist tirou ainda mais onda, se jogando no público com teclado e tudo. Teve espaço até para uma tentativa de bossa nova, o que só inflamou ainda mais quem assistia o show vidrado. 

O repertório, que foi equilibrado entre o surrealista ‘’viagr boys’’ e músicas de outros discos, contou tanto com ‘’Man Made of Meat’’, quanto outros hits, como “Slow Learner” e “Punk Rock Loser”. Com a plateia na mão de Murphy, muitas dancinhas irônicas e a pose de enfrentamento com os pés nas caixas, o frontman também se jogou no público inúmeras vezes. Apesar de cada música ter um ápice, foi em ‘’Sports’’ que tudo pareceu explodir, com a casa de show indo abaixo. A escolha de “ADD” no lugar de “Down in the Basement” foi bem oportuna para manter o nível de euforia dançante. No final, após a cataclísmica “Research Chemicals”, a banda selou o deboche com o clássico meloso “Up Where We Belong” ecoando no PA. Realmente, aquele verso de que eles eram “selvagens e soltos” caiu como uma luva na estreia no país. Se acabasse ali, todo mundo iria para a casa satisfeito e suado.

A narrativa visual do Interpol

A pergunta que ficou após o atropelo da amígdala cerebral causado pelos suecos era se o Interpol manteria o nível. Na área de fumantes, especulava-se uma derrocada na energia, mas o que se viu foi o triunfo do antônimo, mesmo com esse reajuste de frequência. Paul Banks surgiu com seu charme magnético e seu cabelo platinum blonde operando sob um rigor técnico absoluto e, mesmo com o público brasileiro já familiarizado com a fórmula, isso foi dissolvido em doses de narrativas visuais se entrelaçando com as canções. 

Não interagiram com o público como a banda anterior, nem tocaram uma palhinha de bossa nova, o que seria interessante, mas não tem como não se deixar levar por toda aquela atmosfera. Como o virtuosismo técnico e os gestos comedidos são uma marca registrada do grupo, cada detalhe era notável, e isso se intensificou com o jogo de luzes e com o que parecia um tango cambaleante do guitarrista Daniel Kessler, enquanto monitorava discretamente o substituto Urian Hackney, que lutou algumas vezes contra as viradas matemáticas nas baquetas para honrar a ausência de Sam Fogarino. 

O show foi uma enxurrada de hits que se estendeu por mais de 1h30, começando pela trinca “All the Rage Back Home”, “No I in Threesome” e “C’Mere”. Também aproveitaram para testar a inédita “See Out Loud” no meio do show, enquanto a melancolia contida de “Not Even Jail” serviu para relembrar os tempos de Antics – foi antes dela que Banks se agachou para manipular seu arsenal de pedais, percorrendo o braço da guitarra para construir as camadas características. Em “If You Really Love Nothing”, música anterior, tudo foi coberto por uma luz vermelha densa e pulsante, reduzindo a banda a silhuetas. 

O espetáculo visual teve seu ápice em “Rest My Chemistry”, onde a ênfase da bateria entre os versos era pontuada por um paredão de luz que explodiu sobre o público. Após finalizar o primeiro bloco, o bis foi pedido em uníssono pelo público. A banda retornou com mais algumas músicas e encerrou a noite com a mais agitada ‘’Slow Hands’’, ainda que tenha deixado clássicos como “Stella Was a Diver and She Was Always Down” de fora do setlist.

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