Death To All retorna ao Brasil em janeiro para cinco shows. O tributo com ex-membros do Death se apresenta em Porto Alegre (20), Curitiba (21), Limeira (23), São Paulo (24) e Belo Horizonte (25). Informações sobre ingressos aqui.
A Symbolic Healing Tour comemora os aniversários dos icônicos álbuns Spiritual Healing e Symbolic, que, respectivamente, completam 36 e 31 anos desde seus lançamentos.
Conversamos com o baterista Gene Hoglan sobre a turnê, a importância de Symbolic para bandas da atualidade, letras de Chuck Schuldiner, e muito mais. Leia na íntegra.
WM: Vocês vão tocar 2 álbuns de fases bem distintas do Death: Spiritual Healing e Symbolic. Como está sendo transitar entre eles durante os shows?
GH: Nossa, acho que você leu a mente da última pessoa com quem conversei (risos). Mesma pergunta inicial. Logo no inicio, gostaria de destacar que nossos shows são bem longos. Na turnê que fizemos nos Estados Unidos, por exemplo, o Symbolic foi executado na íntegra, pois era o aniversário do álbum. Do Spiritual Healing, tocamos várias músicas dele, mas é muito desafiador tocar os dois álbuns na mesma noite. Sempre incluímos faixas de toda a discografia do Death. Mas nossas apresentações duram mais de duas horas. Então, se colocássemos todas as músicas dele no setlist, nós morreríamos (risos). Temos uma rotina de viajar noite após noite e fazer shows. Isso acaba se repetindo. Estou dizendo isso para que todos vocês entendam. Mas estamos nos saindo muito bem e fazendo um trabalho incrível.Temos tocado bastante material do Spiritual Healing e também celebramos Symbolic. São álbuns muito importantes no catálogo do Death.
No primeiro, você já nota elementos de death metal melódico que depois ficariam muito evidentes no Symbolic. Pequenas migalhas foram deixadas. Sementes foram plantadas, mostrando para onde o Death iria evoluir. Ter James Murphy [ño Spiritual Healing] como co-guitarrista ao lado do Chuck adicionou um elemento melódico às músicas. Seus riffs já mostravam a evolução dele para um estilo próprio. Não soava mais como Leprosy (1988), nem como o brutal Scream Bloody Gore (1987). Ele estava começando a criar asas, e explorar novas formas de expressar o que gostaria de ter em suas músicas. Foi assim que tudo aconteceu.
WM: Em 2024, o Death To All teve uma passagem marcante no Brasil com vários shows. O que motivou vocês a retornarem tão rápido ao país?
GH: Fomos convidados, sabe? Foram shows muito bons.Teremos uma apresentação diferente agora. Na última vez, tocamos algo que chamamos de “noite do legado”, pois tocamos músicas de todos os álbuns. Nosso setlist varia entre 20 e 21 faixas. Sempre tentamos executar algumas músicas por disco. Em certos discos, nós tocávamos até três. Esse era o repertório. Mas acho que o aconteceu depois, quando fizemos a The Scream of Perseverance Tour [em 2024] nos Estados Unidos, acabou chamando a atenção de produtores do mundo todo. Eles pensaram: “Nossa, esse é um conceito muito legal. Vocês vão tocar álbuns na íntegra.” E não só isso. Vocês estão fazendo isso ao longo de duas noites em muitas cidades. A primeira delas sendo dedicada inteiramente para a introdução do death metal: Scream Bloody Gore tocado na íntegra, com elementos do Leprosy e Spiritual Healing presentes também. Tudo em torno daquela era.
Depois, na noite seguinte, vem o The Sound of Perseverance (1998), com Individual Thought Patterns (1993), Human (1991) e o Symbolic também. São vários destaques de todos esses álbuns sendo tocados. É um conceito bem inovador que vocês criaram. Tudo isso é muito interessante. Nisso, muitos disseram: “Podemos ter isso também?”. E então, quando finalmente conseguimos fazer, passou mais um ano. Não estamos fazendo duas noites mais. Se estivéssemos fazendo , sem problema. Álbum inteiro aqui, álbum inteiro ali. Agora só temos uma noite. Não temos muito tempo na agenda para fazer tudo isso.
Então estamos fazendo o máximo que podemos com o tempo que temos, por isso cada show é bem longo. Não estou garantindo que iremos tocar um set de duas horas e sete minutos como vinha sendo a média. Aquilo era nosso padrão quando estávamos em turnê de ônibus, pois dormíamos durante a noite. Nesta próxima etapa, são só datas com voo. Então a gente toca até muito tarde e acorda bem cedo no dia seguinte para pegar avião. Mas ainda assim vamos destruir. Vamos arrebentar.
Esse é um dos motivos pelos quais, quando anunciamos turnês como a Symbolic Healing nos Estados Unidos, outros produtores ao redor do mundo dizem: “Ei, queremos isso também.” E a gente sempre responde: “Se as pessoas vierem, a gente faz.” Simples assim. Se o público quer e vai aparecer nos shows, então vamos. Se a gente não entregar um bom show, eles vão perceber e não voltarão. Mas é por isso que o Death to All sempre detona. Por isso que cada show cresce. Acho que estamos tocando em lugares maiores desta vez do que há um ano. Vamos continuar tocando shows no mundo todo sempre que pudermos.
WM: Symbolic é um disco geracional para o death metal. O Matt Heafy, do Trivium, por exemplo, sempre cita que aprendeu a tocar guitarra e a compor ouvindo ele inúmeras vezes. Na sua opinião, quais os elementos que tornaram ele uma espécie de guia para as bandas atuais?
GH: Nós amamos o Matt, ele é ótimo! Bom, isso é incrível, sabe? Acho que o fato de ser um disco muito cativante ajudou. O Chuck não estava preocupado em fazer o riff mais maligno e pesado de todos. Ele escrevia riffs que vinham de seu coração. Se era isso que vinha, entrava na música. Nós tivemos tempo suficiente para explorar diversas abordagens com o álbum. Para se ter ideia, fizemos o Individual Thought Patterns em 3 semanas. Já o Symbolic, levou algo em torno de oito ou nove meses para ficar pronto, creio eu. Foram pelo menos seis meses ensaiando na casa do Chuck.
É aí que você percebe a diferença entre cada álbum. Individual Thought Patterns soava mais imediato e muito caótico. O Symbolic tinha um clima diferente, ele soava um pouco mais trabalhado, mais suave. Tivemos um produtor novo [Jim Morris], e também foram usadas técnicas de produção mais modernas. Foi ali que esse tipo de “modelo” começou a se formar. E era um disco cativante. Acho que ele era simplesmente bom. Como é mesmo o termo? Não “porteiro”, mas sim uma porta de entrada. Isso, uma porta de entrada. Esse foi o “gateway” do metal para muitos caras mais jovens.
Há muitos músicos mais novos do que nós, de bandas enormes ao redor do mundo. Bandas super conhecidas que alcançaram o topo com seus grandes hits. Eles vieram falar comigo e disseram: “Cara, Symbolic foi o disco que me ensinou a tocar guitarra. Esse é o meu som. Eu aprendi a tocar guitarra com ele”. E eu fico coçando a cabeça com algumas dessas pessoas. Umas fazem sentido, eu penso: “Sim, dá pra entender.” Mas outras eu digo: “Sua música não soa em nada como Symbolic e você está me dizendo isso? (risos)”. Uau, isso é loucura.Tipo, você? O senhor artista número um. Esse tipo de álbum chamou a atenção dos mais jovens. Porque, sendo bem sincero. Até mencionei isso antes.
Quando Symbolic foi lançado, muitos headbangers mais antigos, que já estavam na cena havia anos, ficaram confusos tanto com Individual Thought Patterns quanto com ele. Eles pensavam: “Cadê a minha banda que fez Scream Bloody Gore? Cadê o Spiritual Healing? O que vocês fizeram? Vocês estragaram tudo (risos).” Esse tipo de reação nunca importou para mim. Mas importante ainda, nunca incomodou o Chuck.
Ele falava: “Eu escrevo o que sinto. Não sou o mesmo cara de uma década atrás onde compus o Scream Bloody Gore. Também não sou o mesmo de anos atrás que fez o Spiritual Healing. Sou quem eu sou. Vou continuar escrevendo como eu mesmo e, com sorte, me cercar de pessoas com a mesma mentalidade. Que concordem sobre uma boa forma de seguir em frente. E é assim que as coisas vão acontecer.” Então, acho que isso estava aparecendo ali. E ter um músico retornando, como o baterista [o próprio Gene], acho que provavelmente o ajudou. Saber que tinha um cara ao lado dele que o acompanhou no álbum anterior. E que não iria a lugar nenhum tão cedo. Tenho certeza de que isso foi útil.
WM: Em 1995, o Death Metal caminhava para uma fase marcada pela velocidade. Bandas como Deicide e Cannibal Corpse são os principais nomes dessa era. O Death foi na contramão, optando por um álbum mais melódico e técnico. O que motivou a banda a seguir esse caminho, mesmo com a cena indo para o outro lado?
GH: Como disse anteriormente, Chuck estava começando a evoluir e deixar de lado os elementos que definiram sua carreira e personalidade ao longo daquela última década. À medida que ele se afastava desse tipo de música. A que ele ajudou a criar. Ele seguiu para uma nova direção. Seguiu um caminho, e a música foi para outro. Sempre foi assim: “Cara, no fim de cada dia, preciso escrever o que eu sinto. Falar o que importa para mim. O que está no meu coração.”
Se você reparar, as letras foram ficando muito mais introspectivas e reflexivas. Ele já não estava escrevendo apenas sobre crucificações ou coisas relacionadas. Tentava escrever a partir de onde surgiam seus pensamentos. Não apenas coisas populares dentro da comunidade do metal, entende o que quero dizer? Dentro de certos segmentos dela. Acho que ele tinha o próprio caminho para seguir. Quem quisesse segui-ló, ótimo. Olha a quantidade de pessoas que fizeram isso.
1995 foi um ano divisor de águas para o death metal melódico. Saiu de Cannibal Corpse, Deicide e Morbid Angel. Essas bandas ainda estavam lá e detonavam. Mas surgiu uma nova roupagem. Trazida por álbuns como Symbolic, Individual Thought Patterns, e Heartwork, do Carcass. Evoluiu para algo que não precisava ter velocidade de um milhão de milhas por hora. E nem a coisa mais extrema que você já ouviu. Era algo que podia ficar com você. Evoluir junto com o seu gosto. Isso era algo bem incomum no metal mais pesado naquela época, ainda mais naquele ano.
WM: Nos anos 90, o Chuck já escrevia músicas sobre temas da sociedade atual como manipulação, invasão de privacidade e religião. Você acredita que com a influência das redes sociais e a polarização de hoje, essas letras se tornaram proféticas e até mais reais do que na época?
GH: Já achava profético na época. Independentemente para qual lado o mundo fosse caminhar. Ele tinha uma percepção muito forte do que estava acontecendo. O Chuck estava totalmente conectado consigo mesmo. Por isso que eu sempre disse que ele tinha um dom. Um precursor em pensar sobre coisas que estavam acontecendo e em discuti-las liricamente. Eu me lembro de 1994, quando todos nós fomos apresentados à World Wide Web. Era a internet ainda na sua forma bem infantil, em fase embrionária. Ele já saiu coçando a cabeça, dizendo coisas como: “Isso é a rede do ódio. Vai levar a problemas sérios. Isso vai dar voz a pessoas que não merecem ter voz. Muita gente vai ganhar um enorme anonimato, com o qual podem sair jogando bombas por aí.”
Eu dizia: “Chuck, você vai conseguir muita informação com isso. Se puder conectar com pessoas, acho que tudo bem.” Ele não comprou a ideia de forma alguma. Tento não falar por Chuck Schuldiner. Mas de uma coisa tenho certeza: ele não seria uma pessoa online. Jamais usaria redes sociais. Ele não teria interesse nisso. É só a minha opinião. No entanto, é assim que me sinto. Era uma característica dele. Ter esse jeito de profeta quando se tratava de enxergar coisas no futuro. E perceber para onde as coisas ainda em estado inicial iriam chegar.
WM: O que torna a música do Death tão atemporal a ponto de continuar atraindo novas gerações?
GH: Creio que são boas músicas, sabe? Eu já era fã do Death antes mesmo de me juntar à banda [em 1992]. Não fizeram muita coisa depois que eu saí [em 1995]. Mas, quero dizer, os álbuns lançados antes de eu entrar eu achava incríveis. Sempre lançavam ótimos trabalhos. Principalmente Scream Bloody Gore e Leprosy. Volto à época do Mantas [nome inicial do Death] com [o vocalista] Kam Lee e [o guitarrista] Rick Rozz. Tudo isso faz parte. Chuck estava evoluindo sua música para o que iria se tornar o Death. Já gostava deles. Pude fazer coisas incríveis com o Dark Angel até aquele momento. Era boa música. Algo atemporal.
Chuck deixou as influências dele aparecerem? Com certeza. Todos nós fizemos isso. Acho que é muito agradável de ouvir. Inclusive de um ponto de vista relacionado à produção. Sempre foi bem produzido. Eles tiveram alguns pequenos problemas aqui e ali ao longo do tempo. Mas você volta e escuta um álbum do Death de quase 40 anos e pensa: “isso é bom”. Era na época e ainda continua assim. Não parece que gravaram numa mesa de quatro canais com um travesseiro na frente dos microfones. Algo incrível e único.
Penso que o Death preenche muitos pontos positivos. Digo isso como um elogio. Há qualidades que simplesmente recebem um “sim”. A banda faz isso? Sim. Faz aquilo? Sim. Não faz isso? Sim. Não importa o que seja. Simplesmente acho que o Death é muito bom. Isso vale para qualquer coisa que participei. Sempre tentei fazer bons discos. Tive abordagens diferentes ao longo de muitos álbuns. Nem sei quantos lancei. Procure um ruim, não tem. Sempre tentei lançar metal de qualidade. Música de qualidade. Às vezes esses álbuns não são metal. Mas sempre tentei estar envolvido com música de excelência. Isso é algo que define a banda: qualidade. Não importa se você gosta dela. Gosta ou não dos membros envolvidos.O mesmo vale para o Chuck. Mas ainda assim, são boas músicas.
E isso é uma coisa que eu acho que o Death é: qualidade. Não importa se você gosta da banda, gosta dos membros envolvidos, não gosta deles, gosta do Chuck, não gosta do Chuck — ainda assim é música de qualidade. Absolutamente.
WM: Gene, você já veio ao Brasil com diversas bandas. Qual o seu momento favorito aqui?
GH: Todos eles. O Brasil é muito divertido para tocar. Toda a América Latina e América do Sul. Tocar em qualquer lugar é incrível. Os fãs brasileiros são muito apaixonados. Qualquer banda que tem a chance de ir ao país passa por uma experiência fantástica. Adoramos nos conectar com o público. E, sabe, é um lugar tão bonito..Ver tanta empolgação direcionada a nós é algo que nos deixa muito gratos. Cada noite no Brasil é uma lembrança maravilhosa.
Já fui com o Testament, Dark Angel, Death To All, e muitas outras bandas. Sempre tive momentos maravilhosos e incríveis. Assim como todos nós. Muito obrigado a todos os nossos fãs brasileiros por sempre comparecerem. E, olha, esses shows que estão chegando já estão logo aí. Eles vão ser incríveis e espetaculares. Vocês vão querer estar presentes e ter uma noite fantástica de metal. Daquelas que as lembranças vão durar por muito tempo.
WM: Após essa turnê, quais são os próximos passos do Death To All?
GH: Temos algumas coisas no futuro próximo. As pessoas devem estar atentas. Vamos fazer anúncios em breve. Também há muita coisa acontecendo nos bastidores para muitos dos meus projetos. Vamos divulgar cada um deles assim que pudermos. O Death To All também ganhou uma nova página nas redes sociais. Acho que será lançada em breve. Vão lá conferir. É @deathtoall_official. Esses somos nós. Novos perfis no Instagram e em todos os lugares. Então é isso. Fiquem ligados com tudo relacionado ao Death To All.
WM: Para encerrarmos, você poderia mandar um recado aos fãs brasileiros que vão aos shows?
GH: Pessoal do Wikimetal, leitores do Brasil e de todas as partes do mundo. É um prazer poder falar com vocês. Muito obrigado por todos esses anos de apoio. Nós, o Death To All, e eu, Gene Hoglan, mal podemos esperar para voltar ao Brasil e fazer uma turnê incrível. Vamos tocar um metal poderoso para todo mundo. Fazendo com que todos saiam com um enorme sorriso no rosto e no coração. Estamos muito animados por poder ir ao país. Somos muito gratos por isso. Mal podemos esperar para mostrar a vocês um pouco do metal do Death To All!
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