O Avenged Sevenfold voltou à América Latina com uma turnê que reafirma a relação duradoura da banda com o público. Com ingressos esgotados, a banda desembarcou no último sábado, 31, em São Paulo, no Allianz Parque, com a Life Is But a Dream Tour, com abertura de Mr. Bungle e A Day To Remember.
Essa turnê havia sido inicialmente anunciada em 2025 com datas na Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Porto Rico, mas foi reagendada para início de 2026 após uma pausa decretada pelo vocalista M. Shadows devido a lesão vocal, e finalmente aconteceu.
Mr. Bungle destacou-se pela irreverência
A passagem do Mr. Bungle pela América Latina marcou o retorno de uma das bandas mais exóticas do rock experimental. Após encerrar as atividades no início dos anos 2000, retomou os shows a partir de 2019, fazendo sua estreia no Brasil em 2022, como parte do lineup do Knotfest Brasil.
Agora, a banda retornou pela segunda vez ao país com a turnê de divulgação da fase atual, onde realizaram um show solo em São Paulo, no Cine Joia, na última segunda-feira, 26, e em Curitiba, abrindo os shows do Avenged Sevenfold. O show de Curitiba e o de São Paulo contaram com participação de Andreas Kisser, substituindo Scott Ian, já que o guitarrista precisou retornar aos Estados Unidos para se apresentar com o Anthrax no cruzeiro 70000TONS OF METAL 2026.
Como banda de abertura, o repertório foi curto, porém pesado e intenso, com o show bem cheio, graças ao público que chegou cedo para prestigiar todas as bandas do dia. Com apenas 13 músicas e sem elementos cênicos, a banda prende a atenção do público pela curiosidade, além do desempenho instrumental de músicos renomados da cena. Além do tempero brasileiro, graças à participação de Andreas Kisser – fato que fez o público se animar mais, com mosh pits frequentes. O ápice é a irreverência de Mike Patton, que vez ou outra soltava palavrões em português, com seu look vermelho nada discreto, várias guias no pescoço e o apito que já é tendência. O músico arrancou risos e olhares de estranheza quando soltou um “somos velhos, macumbeiros e gringos”.
Era nítido que o público jovem não conhecia a banda, mas entrou no clima aos comandos de Mike Patton, principalmente quando a banda emendou uma versão de “I’m Not in love”, uma balada famosa da banda 10cc, e o público abraçou o clima, com as mãos para o alto. Um dos melhores momentos foi o cover de “Refuse/Resist”, do Sepultura, apesar da euforia e dos comandos de Andreas Kisser, o público mostrou não conhecer a música.
Ao final, Mike Patton, fez uma celebração à entidade Pomba Gira, cultuada nas religiões de matriz africana, o que causou burburinho e críticas. O discurso aconteceu momentos antes do cover de “All By Myself”, conhecida na voz de Céline Dion, que ganhou o refrão “Vai Tomar no C*” na performance do grupo.
A Day To Remember, quase um headliner
Quando A Day To Remember subiu ao palco, pontualmente às 19h, foram recebidos por uma plateia mais cheia e mais emocionada, já que essa foi a única passagem da banda por São Paulo na atual turnê. O grupo veio à América Latina apenas para shows no Brasil. Além de abrir para o Avenged Sevenfold na capital paulista, tinham data em Belo Horizonte – cancelado devido a problemas com o voo, o que adiou a chegada da banda –, Curitiba, onde tocaram na última quinta-feira, 29, e finalizam em Porto Alegre na próxima terça-feira, 03.
Esta é a quinta vinda do A Day To Remember ao país, com a mais recente ocorrendo como parte do lineup da I Wanna Be Tour, em 2024. Conhecidos como um dos nomes mais consistentes do metalcore melódico, o show fez parte de uma turnê focada em revisitar diferentes momentos da carreira do grupo, combinando músicas recentes com faixas que marcaram sua consolidação nos anos 2000.
Diferente dos shows solo, esse teve um setlist mais curto, com 15 músicas, onde os destaques sempre são para as faixas mais conhecidas pelo público, com os hits cantados em coro. A apresentação foi um espetáculo grandioso, desde o início com “A Downfall of Us All”, uma das mais conhecidas e que mostrou a energia e intimidade com os fãs desde o início.
A recepção foi calorosa – e tudo ficou mais quente graças aos efeitos pirotécnicos -, com muito mosh, coros intensos e resposta imediata aos comandos do vocalista Jeremy McKinnon – que pediu um mosh pit para a faixa “Paranoia” e se surpreendeu com a resposta imediata dos fãs. E claro, não faltou algo constante nos shows da banda: os famosos crowdsurfing.
A banda não precisa interagir muito, o contato com os fãs é quase espiritual, e mesmo quem não conhecia a banda sentiu essa energia. Na música “Mr. Highway’s Thinking About the End”, uma pessoa da equipe da banda, fantasiada de Mário Bros., jogou camisetas para o público, momento que já é rotina nos shows. Chegando próximo do final, a balada “If It Means a Lot to You” transcendeu o público, que iluminou o estádio com a lanterna dos celulares.
Em pouco mais de uma hora e meia, A Day To Remember entregou um espetáculo intenso, pesado e melódico, para ninguém colocar defeito, entregando um show digno de headliner.
Avenged Sevenfold fez seu maior show solo em estádio
Chegou a hora de um dos nomes mais aguardados da noite: Avenged Sevenfold e seu retorno ao Brasil com a atual turnê que tem como base o álbum Life Is but a Dream… (2023), mas que não se limita a ele. Os shows têm reunido grande público e integrado um setlist que mistura diferentes fases da carreira da banda.
Com ingressos esgotados, a sexta visita ao Brasil provou a relevância e popularidade da banda formada no início dos anos 2000, na Califórnia. Podemos citá-los como um dos principais nomes do metal contemporâneo, e não é para menos que foram headliners do dia do rock, no Rock in Rio 2024, fato que marcou a história da banda que pela primeira vez lidou um festival no Brasil. E por esse motivo a produtora fez a aposta certa de trazê-los novamente para seu próprio show em um estádio, o que tornou o show solo da história da banda.
Avenged Sevenfold construiu uma discografia marcada por mudanças sonoras e ambição técnica, e apesar do sucesso começar na época em que o estilo estava em alta, com o disco Waking the Fallen (2003), já havia muitos comentários comparando a banda com o Metallica – e claro, os mais conservadores ficam fervorosos ao ouvir isso. E o fato se concretizou após o vocalista M. Shadows confessar, por meio de um post no Twitter, que o disco Hail to the King (2013) foi fortemente inspirado pelo Metallica – notavelmente na faixa “This Means War”. Tempos depois, a banda abriu shows do Metallica, mostrando o consentimento por parte da maior banda de metal da história.
Apesar disso, Avenged Sevenfold sofreu represálias da comunidade heavy metal, mas mesmo assim conseguiram seguir seu próprio caminho e construir uma carreira sólida, refletida no setlist, marcado por hits e canções que os fãs aguardavam muito para ver. O show contou com 17 músicas, entre clássicos conhecidos como “Afterlife”, “Hail to the King”, dedicado ao público brasileiro – além de marcar um momento inusitado quando uma fã jogou um sutiã vermelho no palco -, “Bat Country”, “Nightmare” e “A Little Piece of Heaven”, encerrando o show de forma majestosa.
Além de faixas mais recentes como “Game Over” e “Nobody”- esta que teve uma pausa após um acidente no público e M. Shadows só recomeçou após o fã ser socorrido -, um momento que chamou atenção foi em “Gunslinger”, que após muita insistência dos fãs, o Avenged Sevenfold cedeu e tocou. Em “So far Away”, a corriqueira homenagem ao baterista, The Rev, ocasião em que M Shadows pede à plateia que ligue a lanterna do celular para dedicar a música a todos que já partiram: “essa é para aquelas pessoas especiais que estão no céu”. Na final, antes da performance de “Not Ready to Die”, houve outra pausa para socorrer fãs que passaram mal, e M. Shadow aproveitou para realizar mais um chá revelação, como fez em Curitiba. O vocalista revelou que um casal de fãs esperava uma menina: “Você deve estar muito feliz”.
Em um espetáculo marcado por uma estrutura de palco diferenciada, com mais telões laterais proporcionando uma experiência visual única, Avenged Sevenfold provou seu poder ao conquistar um estádio cheio, cantando todas as faixas, e uma presença de palco que é inegável. O público foi um dos pontos centrais da passagem da banda pelo país, com energia constante e respostas rápidas às interações de M. Shadows, enquanto os fãs mais engajados distribuíram pedaços de papel celofane para colocar no flash do celular, tornando a recepção da banda mais calorosa. Não é para menos que Shadows agradeceu os fãs: “vocês sempre foram os fãs número um”.
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