Em 1999, o mundo do heavy metal testemunhava algo que entraria para a história do estilo e iniciaria o “renascimento” do Iron Maiden: a volta de Bruce Dickinson ao posto de vocalista da banda que o consagrou. Para entender o real tamanho deste fato, é crucial olhar para trás, mais especificamente para a segunda metade dos anos 1990.
Com a ascensão global do grunge, a Donzela de Ferro vivia com o cantor Blaze Bayley a fase mais turbulenta de sua história em uma passagem marcada pelo lançamento de dois álbuns (The X Factor, de 1995, e Virtual XI, de 1998) que dividiram drasticamente os fãs e a crítica. Somado a isso, a banda sofreu um declínio comercial, onde precisou abandonar grandes arenas para realizar shows em teatros e casas de shows menores em várias partes do mundo, especialmente nos Estados Unidos.
Do outro lado, a carreira solo de Bruce estava em ascensão após se unir com o produtor Roy Z e com o guitarrista Adrian Smith – que também voltaria ao Maiden em 1999. Essa parceria rendeu os elogiados álbuns Accident of Birth (1997) e The Chemical Wedding (1998). Apesar disso, o cantor não contava mais com o sucesso comercial que havia conquistado nos anos 1980.
Demissão de Blaze Bayley
Em janeiro de 1999, Blaze Bayley deixava a banda por pressão da gravadora EMI e pelo simples fato de não haver mais clima interno, o que poderia levar ao rompimento do grupo caso ele continuasse.
Convencido de que a única salvação para o Iron Maiden seria o retorno do “Air Raid Siren” , o empresário Rod Smallwood resolveu buscar uma reaproximação do vocalista com a banda, mesmo sabendo que teria uma tarefa difícil pela frente: fazer Steve Harris aceitar essa ideia.
Ainda ressentido com a saída de Bruce em 1993, o baixista e fundador da banda não estava realmente convencido de que o retorno dele seria a melhor opção e desejava saber as verdadeiras intenções do cantor em sua volta. Sendo assim, Rod sondou o músico e marcou uma reunião com a presença de Steve em sua casa, na cidade inglesa de Brighton.
À BraveWords, Bruce relembrou o momento [transcrição via Rolling Stone Brasil]: “Nós todos nos reunimos na casa do Rod (Smallwood), que fica em Brighton, na costa sul da Inglaterra. Em algum momento, obviamente, eles tomaram a decisão de que o Blaze sairia, e eu não sei nada sobre isso, as circunstâncias ou qualquer coisa. Nem realmente quero saber — não é da minha conta. O Rod me ligou e disse: ‘O que você acha de voltarmos?’, e eu disse: ‘Bem, vamos nos encontrar e conversar sobre isso’.”
Reunião que selou volta de Dickinson ao Iron Maiden
No encontro, os músicos apararam as arestas do passado e Bruce deixou claro que não retornaria apenas pela nostalgia, e sua condição era a seguinte: o Iron Maiden precisava olhar para o futuro. Para ele, a reunião deveria recolocar a Donzela de Ferro como “a melhor banda de heavy metal do mundo”.
“Steve estava muito desconfiado. Ele disse: ‘Por que você quer voltar?’. Na verdade, eu disse (rindo): ‘Quero voltar, Steve, porque, nas palavras dos meus amigos, ‘o mundo precisa do Iron Maiden’ e, em segundo lugar, acho que ainda podemos fazer música incrível’”, contou Bruce à Classic Rock.
Sendo assim, em 10 de fevereiro de 1999, o retorno de Bruce era anunciado e também traria a volta de Adrian Smith como guitarrista, em uma decisão que mudaria a formação do grupo para um sexteto, uma vez que banda optou por não demitir Janick Gers, que havia substituído Smith em 1990.
.Para o baterista Nicko McBrain, a volta foi “um plano de Deus”, conforme ele contou à revista Kerrang!. “Isso me mostra a sinceridade e a verdade dentro do coração dele [Bruce]. Acho que tudo isso foi plano de Deus. Quem mais poderia ter planejado algo como: ‘Certo, vocês vão ter um novo vocalista, depois vão trazer o antigo de volta e ele trará o [guitarrista] Adrian Smith junto’?”, revelou [transcrição via Blabbermouth].
Com a nova formação, a banda realizou a turnê Ed Hunter em 1999 e logo depois entrou em estúdio para gravar Brave New World, lançado em 2000. O 12º álbum de estúdio do grupo não apenas rendeu elogios, como também foi eternizado no histórico show no Rock in Rio 3 em 2001 e ainda deu início à era progressiva do sexteto, marcada por músicas de longa duração – algo que ficaria mais evidente ainda nos álbuns A Matter of Life And Death (2006), The Book of Souls (2015) e Senjutsu (2021).
27 anos após o retorno de Bruce Dickinson, o Iron Maiden voltou a lotar estádios ao redor do mundo e ao longo desse tempo realizou turnês grandiosas como Legacy of The Beast, The Future Past, Somewhere Back in Time, Maiden England, e a mais recente delas, a Run For Your Lives, que celebra as cinco décadas de carreira da banda. Se Steve não decidisse deixar os problemas de lado, provavelmente a Donzela de Ferro que conhecemos não existiria mais.
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