Texto escrito pelo WikiBrother Halison Xavier para a coluna Scream For Me, WikiBrother

Há muito que eu queria escrever sobre rock/metal e, nesse momento da minha vida, eu não poderia começar com outra banda que não fosse o Celtic Frost.

No fim do ano, o Spotify liberou aquela retrospectiva de fim de ano, e lá estavam eles por toda a lista, liderados por Thomas Gabriel, também conhecido pela alcunha de Tom G. Warrior.

Mas o que eu achei de tão fascinante nessa banda, que hoje em dia pouco é lembrada, pra ouvir tanto em 2021?

As lágrimas do usurpador guiam minha espada

Eis que em um momento onde eu estava particularmente muito interessado em black metal, surge para mim uma playlist de músicas que foram essenciais para o desenvolvimento do estilo, curada pelo famoso baterista Fenriz do Darkthrone.

A primeira coisa que me chamou atenção não foi o Frost, mas sim o fato de que a playlist era encabeçada por ninguém menos que os meus conterrâneos do Sarcófago, com a música “Satanic Lust”.

Na hora eu fui tomado por um genuíno orgulho mineiro, por saber que o que estava sendo feito aqui em Belo Horizonte, nos anos 80, atravessou o oceano e chegou até a Escandinávia, mas não só isso, foi muito influente para o que seria feito no metal extremo mas próximas décadas.

Porém, ao ouvir mais a playlist, ainda nas primeiras músicas, estava a sombria “Dawn of Meggido”, do álbum To Mega Therion, traduzindo do grego, “a grande besta”.

A grande besta

Quando eu ouvi aquilo, foi um misto de ecstasy com uma pitada de estranhamento.

Eu já conhecia o Frost, por meio de “Procreation (Of The Wicked)”, mas “Dawn of Meggido” estava em um outro patamar. Apresentava uma sonoridade crua e direta como as primeiras músicas da banda, mas dessa vez com uma produção impecável.

Toda aquela ambiência e elementos sinfônicos, que em outras bandas e estilos eu torcia e ainda torço o nariz, ali faziam todo o sentido.

As batidas nos tímpanos e os sons das cordas, orquestrados a lá Wagner, me traziam a mente um abismo escuro e sombrio, acima do Rio Estige, por onde eu deveria navegar de encontro a ela: A grande besta da capa de To Mega Therion.

A perturbadora arte presente nessa capa é provavelmente a maior blasfêmia que eu já vi na minha vida. Traz um certo desconforto até mesmo a mim, que ando afastado de Deus já há um certo tempo. Eu precisava ouvir o disco inteiro.

Inocência e Ira

É o nome da primeira faixa do disco: “Innocence and Wrath”. Uma faixa totalmente instrumental e de pouco mais de um minuto, que serve de introdução para o Álbum. Já nos primeiros segundos, os elementos sinfônicos dão as caras e, somados ao timbre pesado e seco das guitarras de Tom Warrior, trazem um clima de tensão e suspense ao ouvinte.

É como se eu pudesse enxergar o som e eu vejo novamente a figura grotesca da besta, acompanhada de suas malignas serpentes de feição humanoide, que se movimentam de maneira frenética e hipnotizante.

E assim o disco segue, pesado e cru ao mesmo tempo que sofisticado e bem produzido, trazendo alegorias sobre o desejo do homem por poder e a natureza da morte. É uma bíblia do metal extremo.

Sombras Perpétuas

Infelizmente, hoje pouco se fala em Celtic Frost, mesmo eles sendo autores de uma obra prima tão influente como To Mega Therion.

A natureza de vanguarda de artistas como eles pavimenta o caminho para que outros prossigam. Eles tiveram ousadia para explorar o desconhecido antes de todo mundo e são influentes para outras bandas por isso, ainda que pouco lembrados no Mainstream. São essas as sombras perpétuas do trabalho de Thomas Gabriel Fisher, um homem a frente de seu tempo.

O que o CF e o Hellhammer fizeram, assim como o que o Black Sabbath fez décadas antes é o que eu acredito que o metal deve ser: Quebrador de paradigmas, rompendo com o status quo e se reinventando ciclicamente, isso acende a paixão pelo metal em mim e me inspira a escrever aqui.

“After the battle is over
And the sands drunken the blood
All what there remains
Is the bitterness of delusion…”

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