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Jonathan Davis. Crédito: Reprodução/Instagram

Jonathan Davis. Crédito: Reprodução/Instagram

Como Jonathan Davis, do Korn, criou a trilha de ‘A Rainha dos Condenados’ 

Com estrelas convidadas, trilha sonora do filme ‘A Rainha dos Condenados’ se tornou uma verdadeira galeria do nu metal da época

Um dos shows mais aguardados de 2026 no Brasil é o do Korn, que fará uma apresentação única na cidade de São Paulo dia 16 de maio, com abertura de Spiritbox e Seven Hours After Violet. Os ingressos já estão à venda por meio da plataforma Eventim e na bilheteria oficial do Allianz Parque, onde acontece o evento.

Enquanto os fãs se preparam para ver Jonathan Davis novamente em ação no país, vale relembrar um dos projetos mais emblemáticos de sua carreira paralela: a trilha sonora do filme A Rainha dos Condenados (2002).

No início dos anos 2000, o vocalista do Korn se viu diante de um desafio criativo inédito ao ser convidado a escrever a trilha sonora do filme inspirado na série de vampiros As Crônicas Vampirescas (1976) e sequência indireta do filme Entrevista com o Vampiro (1994). Essa oportunidade não apenas alavancou sua carreira solo, mas também transformou a forma como músicos de nu metal poderiam colaborar com Hollywood.

Como Jonathan Davis inovou ao compor uma trilha sonora

O convite para trabalhar no filme surgiu quando a Warner Bros. procurou Davis e o compositor Richard Gibbs para compor tanto a trilha de fundo quanto as músicas tocadas pelo personagem Lestat, protagonista vampiro que se torna uma estrela do rock. Antes disso, Davis já havia demonstrado interesse em trilhas e composição cinematográfica, e a proposta de A Rainha dos Condenados encaixou-se no seu desejo de explorar além do universo do Korn. 

Para entrar no clima, Davis leu os romances de Anne Rice e disse que precisou se tornar Lestat, escrevendo letras e melodias como se fosse um vampiro de 400 anos; uma abordagem que ajudou a dar coesão às composições do filme.   “Eu tive que me tornar Lestat, então li os livros e escrevi letras sobre ser um vampiro de 400 anos e foi muito divertido”, disse Jonathan Davis à Metal Hammer.

Ao lado de Gibbs, Davis escreveu mais de oito músicas para a trilha, que misturavam elementos de nu metal com texturas sombrias e orquestrais para refletir a atmosfera gótica e intensa da história. O método de trabalho foi bastante intenso. Os dois compunham e refinavam músicas durante as turnês do Korn, após cada show, e trabalhavam até o amanhecer. 

Uma vez que as faixas estavam prontas, artistas convidados foram chamados para dar vida às letras de Davis e Gibbs, já que a intenção era montar um álbum coeso com vozes distintas que se encaixassem no estilo eclético da trilha. Foram recrutados Sam Rivers, do Limp Bizkit, no baixo, Head e Munky , do Korn, para algumas partes de guitarra, Terry Bozzio (Missing Persons) e Vinnie Colaiuta (Sting, Frank Zappa) na bateria e Shankar no violino. Das oito músicas, o diretor do filme, Michael Rymer, escolheu cinco para a produção.

Jonathan Davis não pôde gravar a trilha sonora oficial

Apesar de ter escrito e cantado todas as músicas durante o processo de produção e ter suas gravações usadas nas filmagens, Davis enfrentou um grande obstáculo. Seu contrato com a gravadora Sony impedia que sua voz aparecesse no álbum oficial do filme, que foi lançado pela Warner Music Group – embora a gravadora tenha permitido que sua voz fosse usada no filme.

Por isso, as músicas que ele compôs tiveram que ser regravadas com vocalistas convidados no lugar dele para o álbum de trilha oficial – e a ideia foi contratar artistas da gravadora Warner Music. Essa solução, embora eficaz para o lançamento comercial, deixou Davis frustrado. Ele chegou a manifestar publicamente sua decepção pelo fato de não poder aparecer nos créditos vocais da obra que ajudou a criar. 

“Ah, isso me deixou puto da vida! Eu fiquei muito puto, tipo, ‘Você tá brincando comigo? Você sabe o quanto eu trabalhei nisso, né?. Eu disse a eles: ‘OK, façam o que quiserem, não tentem me imitar’. Eu estava lá quando eles fizeram as gravações, produzi junto com eles, e ficou bom. Quer dizer, eles são bons, mas a minha voz soava melhor, porque era a verdadeira”, contou Davis à Metal Hammer.

Entretanto, os artistas escolhidos representaram uma verdadeira galeria do nu metal da época – não haveria escolha melhor. Wayne Static (Static-X) em “Not Meant For Me”, David Draiman (Disturbed) em “Forsaken”, Chester Bennington (Linkin Park) em “System”, Marilyn Manson em “Redeemer” e Jay Gordon (Orgy) em “Slept So Long”. Para compor a  trilha sonora, a Warner selecionou músicas atemporais do nu metal. 

Na edição impressa de novembro de 2017 da Kerrang! [transcrição publicada em fórum do Google], Davis falou sobre a participação de Chester Bennington no projeto: “Colaborei com ele algumas vezes. Quando escrevi aquelas músicas para o filme ‘A Rainha dos Condenados’, minha gravadora não me deixou cantá-las e disse que tínhamos que usar artistas da Warner Bros., então escolhi todos que eu queria. Chester ficou com a minha música favorita [“System”]. Ele realmente fez a faixa ser dele. Ele simplesmente chegou e arrasou”.

A saudosa Aaliyah era fã de Korn

Durante a confraternização que marcou o fim das filmagens, um encontro inesperado chamou a atenção da equipe. Aaliyah, que protagonizou a lendária vampira Rainha Akasha, se aproximou de Richard Gibbs e elogiou as músicas que ele e Jonathan haviam composto para o filme, revelando, para surpresa dele, que era fã do Korn. A cantora foi além e manifestou o desejo de gravar uma canção escrita pela dupla, deixando o convite em aberto naquele momento.

Em entrevista à Metal Hammer Richard Gibbs contou: “Eu fiquei boquiaberto. Sério? Essa linda cantora de R&B e pop? Ela viu a minha surpresa e disse: ‘Ah, eu adoro Korn.’ E então me surpreendeu novamente. Então, ela disse: ‘Eu adoraria se você e o Jonathan escrevessem uma música para mim”.

Mais tarde, já na fase de pós-produção, Aaliyah seguiu para as Bahamas para filmar um videoclipe e planejava voltar a Los Angeles para gravar uma música destinada aos créditos finais do longa. No entanto, a artista morreu tragicamente em um acidente aéreo em agosto de 2001, interrompendo os planos. 

Segundo a Metal Hammer, Richard e Jonathan estavam planejando compor a música que ela havia pedido como forma de homenagem. A ideia era registrar o processo na série chamada The Woodshed Revelations – um projeto de Richard, gravado em seu estúdio. Até o momento, a gravação final não foi divulgada.

Rejeitado pelo crítica mas aclamado pelos fãs

Lançado em fevereiro de 2002 nos EUA e em abril no Reino Unido, A Rainha dos Condenados, não teve boas críticas. No Rotten Tomatoes, o filme tem uma aprovação de 17% e no Tomatometer, 66% de aprovação do público. Entretanto, a trilha sonora acabou por se tornar um dos projetos mais lembrados de Davis fora do Korn, ganhando disco de ouro nos Estados Unidos e vendendo meio milhão de cópias em um ano. O projeto influenciou não só fãs do gênero, mas também o próprio músico em sua carreira solo posterior. As músicas do filme não só eram originais, como foram escritas para performances ao vivo e não apenas como música de fundo. 

O próprio Jonathan Davis reconheceu que a experiência sem dúvida ampliou sua confiança para explorar caminhos fora de sua banda principal — um passo que culminaria anos depois em trabalhos como o seu álbum de estreia solo Black Labyrinth, de 2018. “Me deu a confiança para me aventurar e começar a fazer mais. Meu álbum solo também se encaixa nessa categoria. É simplesmente o que eu escrevo; escrevo música sombria e vampírica”, confessou o vocalista do Korn.

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