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Jéssica di Falchi. Créditos: Divugação

Jéssica di Falchi. Créditos: Divugação

Entrevista: Jéssica Falchi lança primeiro EP solo, ‘Solace’, e fala sobre nova fase

Guitarrista fala sobre carreira, experiência com a Crypta e planos futuros

Jéssica Falchi é uma guitarrista e compositora que se firmou no cenário internacional do rock e do metal antes de iniciar sua trajetória solo com o projeto Falchi. Reconhecida pela técnica apurada e pela presença marcante nos palcos, ela ganhou destaque ao integrar a banda de death metal Crypta e rodar por várias regiões do mundo antes de decidir buscar uma expressão musical mais pessoal e criativa.

Agora, Jéssica lança nesta sexta-feira, 23, seu primeiro EP instrumental, Solace, com singles como “Moonlace” e “Sweetchasm, Pt. 2”, que exploram sonoridades que transitam entre rock, metal moderno e influências progressivas, sempre valorizando emoção, liberdade artística e elementos brasileiros.

Em uma conversa com o Wikimetal, Jéssica Falchi falou sobre sua nova fase com o EP de estreia, shows com Tool, saída da Crypta e planos futuros.

Wikimetal: Seu novo EP marca um momento importante da sua carreira, onde você disse querer alcançar pessoas que se conectam com o som de forma emocional. O que é para você uma conexão emocional com a música?

Jéssica Di Falchi: Quando eu falo sobre se conectar com as pessoas, é porque tem todo um lance por trás da música instrumental que as pessoas diretamente associam com músicos. É música pra músico. E quando eu estava pensando, já compondo as músicas, eu pensei, ‘eu não quero que seja música pra guitarrista, música só pra quem toca’. Tem principalmente o segundo single, que é a “Sunflare”, por exemplo, que quando eu mostrei pra minha mãe, ela gostou. Ela falou, ‘essa daqui talvez tá um pouco barulhenta, mas essa aqui eu já gosto um pouco mais’. Então a ideia era ser justamente essa, ter partes melódicas e coisas que a gente consegue deixar guardado ali. Ter lembranças sobre a música. Mas não dá pra agradar todo mundo também.

WM: E o que o EP representa para você?

JF: Na verdade, eu me sinto colocando pra fora o que realmente eu sou, o que eu gosto. Porque um single é bem diferente do outro e eu gosto de muitas coisas distintas. Muitas coisas diferentes e eu não queria que fosse um EP com músicas parecidas. Eu pensei ‘quero que cada música consiga retratar coisas que eu gosto e que são diferentes entre elas’. Então tem uma música que é super thrash metal, que eu gosto muito, tem uma que já é um pouco metal mais moderno e a outra um pouco mais progressiva, porque eu gosto muito de coisas progressivas, tipo Pink Floyd e coisas do tipo.

Então eu queria que fosse assim, eu sinto que é uma libertação. Estou tocando coisas que só da na telha e quero tocar, sem seguir uma cartilha do tipo ‘eu preciso lançar algo que seja em tal estilo’. Apesar de não conseguir fugir do metal, porque sou uma guitarrista de metal e o metal só abraça a gente. Então é isso, dentro desse universo metal, rock e metal… O guarda-chuva é enorme, tem vários subgêneros dentro disso, temos muitas coisas ali pra trabalhar.

WM: O último single conta com participação do Aaron Marshall, da banda Intervals. Como foi essa parceria e o que ele trouxe de diferente para a música?

JF: Estou muito feliz com essa participação porque o Aaron é uma influência pra mim. Eu lembro de 10 anos atrás eu levar a música do álbum dele pro meu professor me ajudar a tirar. Então, ter o Aaron participando com a gente nesse próximo lançamento é um sonho. Nunca imaginei, se contasse pra Jessica de 10 anos atrás, que um dia ela iria lançar uma música com o Aaron…Imagina! Então eu estou muito feliz. Essa quarta música é bem diferente também das outras três. Pega uma vibe um pouco mais progressiva, tem muitas partes diferentes uma das outras, só que ela tem um elemento um pouco brasileiro. E bem na parte do solo, um pouquinho mais para o final do solo do Aaron, ele pegou isso. E foi muito legal porque ele entrou na nossa, ele quis participar fazendo uma dobra junto com a gente. Só que ao mesmo tempo ele colocou as características dele como guitarrista. Então ficou uma mescla, tem a personalidade dele, mas ele também tá junto com a gente nessa mistura meio brasileira. Está bem interessante e eu estou bem feliz.

WM: E falando em brasilidades, as capas dos singles vieram acompanhadas de ilustrações de animais brasileiros, algo que chamou bastante atenção. De onde surgiu essa ideia e qual o significado desses animais dentro do projeto?

JF: Quando chegou nessa parte de decidir sobre capa e tudo mais, as músicas também têm elementos brasileiros. Eu queria levar nossa cultura para as pessoas. Se a gente tem oportunidade disso, por que não? Eu tive essa ideia de ter elementos e animais brasileiros na capa. O primeiro é um lobo-guará, o segundo que é um beija-flor que é mais um pássaro da América do Sul. E o terceiro que é um caranguejo, que é muito específico daqui do Brasil também, ele é roxo e é todo bonitão. E a ideia foi meio que… o Beija Flor, que é a faixa “Sunflower”, é uma música mais viajada, mais flor de sol, então eu meio que consegui relacionar ao pássaro, que fica mais livre. E a primeira, que é o Lobo Guará, que é a “Moonlace”, na minha visão, ela é um pouco mais pé no chão, porque tem o refrão que repete mais vezes e mais quadradinho e tudo mais. Então eu senti meio que essa vibe. E também porque ela veio de uma ideia que eu tive numa madrugada, então eu relacionei também o nome da música e tudo mais. 

E a terceira eu pensei por ser um pouco mais agressiva e também como ela tem uma parte no meio que é muito diferente do começo, tem um elemento meio água do caranguejo. Na minha cabeça faz muito sentido. Basicamente isso.

WM: Você sempre deixou claro que death metal não era muito seu estilo, e nesse EP muda totalmente a musicalidade. Musicalmente, como você definiria o som desse trabalho? Houve alguma mudança ou evolução em relação a projetos anteriores?

JF: Difícil essa pergunta, porque justamente eu não consigo relacionar a “Sunflare” com a “Sweetchasm, Pt. 2”,  por exemplo, porque elas são muito distintas entre elas. Mas eu encaixaria tudo meio que dentro do rock e metal. Mais ou menos nessa vibe. Não sei se é uma evolução, mas com certeza, conforme vai passando o tempo, a gente vai ficando mais experiente e aprendendo coisas novas e querendo testar coisas novas. Eu acho que também a gente vai perdendo o medo de o tempo todo querer agradar as pessoas. E eu acho que esse EP é muito isso, muito eu. E tudo bem se as pessoas não gostarem, mas isso é muito verdadeiro. Não tenho mais esse lance de… Acho que com o tempo a gente vai tendo essas desamarras.

O metal é muito abrangente, é difícil classificar. Parece que falta classificação ainda. Tem muita história de que as bandas que tocavam thrash e não sabiam que era thrash e foi nomear thrash só depois de tal banda chegar, e aí tem uma polêmica de qual banda que trouxe o thrash… Mas enfim, eu acho que é isso, parece que ainda falta, faltam subgêneros aí.

WM: Você pretende manter o estilo instrumental ou pensa em algum momento cantar ou acrescentar vocais em sua banda?

JF: Então, pra mim, no momento, faz muito sentido ser instrumental, porque eu vim da escola instrumental, comecei tocando música instrumental, Satriani e coisas do tipo. Mas eu não sei, eu não vou falar nunca. Eu gosto também da ideia de cantar, mas no momento eu não me sinto preparada pra isso. E eu gosto muito mesmo do lance de ser instrumental, porque tem grandes influências para mim. Como eu falei, o Intervals do Aaron foi muito uma referência pra mim, o Night Versus… Eu gosto mesmo de muitas coisas instrumentais. Então, não vou falar nunca, mas no momento vamos manter no instrumental.

Experiência no palco

WM: Há planos de turnê ou apresentações especiais para divulgar o EP? O público pode esperar novidades nesse sentido?

JF: Temos outras coisas aí que estão marcadas, outras coisas que estão chegando para a gente marcar também. Estou muito animada com o Katatonia, que é uma banda que eu gosto bastante. E no ano passado a gente se apresentou no Amplifica Fest, e foi meio que a certeza de que a gente realmente quer tocar mais vezes e estar juntos no palco, porque a vibe com os meninos foi muito legal. E carimbou ali, que vamos tocar ao vivo. Porque são coisas bem diferentes, compor as coisas e pôr isso na estrada. Mas com certeza a gente tem a vontade de entrar em uma turnê e se apresentar ao vivo.

WM: Você participou do show do Tool aqui no Brasil, no Lollapalooza. O que essa experiência representou para você, tanto profissional quanto pessoalmente?

JF: Foi uma experiência incrível, não tem nem o que falar. Eu sinto que parece que ele meio que quis mostrar o dia a dia de um rockstar. Porque antes de tocar eu encontrei eles no hotel e aí na minha cabeça inocente eu pensei, ‘será que eu vou na van com eles?’? Mas não era uma van, era um carro individual para cada um, com seguranças e coisas assim e eu senti que não foi só esse lance de tocar no palco do Lollapalooza com eles. Foi essa de ele querer me dar essa experiência o dia todo. Me mostrar como era o funcionamento das coisas e tudo mais. Só me deu a certeza de que é realmente isso que eu quero. Gosto muito de estar no palco, e eu pensei, ‘eu vou tocar uma música com eles na frente de, não sei, 80 mil pessoas’. A gente não ensaiou, e ele falou pra eu fazer um solo antes do solo dele. Então, chegou na hora, faltando 15 minutos pra subir no palco, ele falou: ‘ah, mas você podia fazer a dobra do meu solo’. E eu pensei ‘meu Deus, mas faltam 15 minutos pra subir no palco. Não, é seu momento, vai lá, faça o seu solo. Em seguida ele disse: ‘não, mas seria muito legal, porque terão duas guitarras no palco’.

Eu não podia amarelar ali. Eu fui lá, tive que tirar as dobras. E teve a pressão de, além de estar no palco, eu acabei de pegar uma parte nova pra tocar ali. Mas na hora que eu subi no palco e dei três acordes, parece que tudo vai embora. Vem aquele frio na barriga e tal, mas passam segundos e você se sente em casa. Então, me deu a certeza de que, realmente, eu amo muito estar no palco, gosto muito de tocar guitarra. É isso, minha vida tá toda certa.

WM: Você nunca imaginou uma mentoria do Adam Jones, né?

JF: Não! Jamais! Jamais! Nunca!

A carreira na Crypta

WM: Crypta foi um momento muito importante na sua carreira, sendo a primeira grande banda da qual você fez parte. Ao entrar em uma banda já estruturada, o que você esperava que fosse diferente com o passar do tempo e o que a realidade te mostrou?

JF: Na verdade eu fiz a primeira tour com elas, e foi uma aposta, na verdade, porque não era uma banda estruturada. Elas tinham lançado um álbum, só que eu não sabia onde ia tocar, a banda não sabia… E foi uma aposta da minha parte, principalmente, porque eu tive que parar a minha vida pra entrar. Foi uma dedicação, eu já vivia da música, eu tinha minhas bandas. Eu tinha, em média, umas 15 pessoas que trabalhavam junto comigo, que era o nosso sustento financeiro. E eu tive que dar uma pausa nisso. Essas pessoas esperam, antes até de entrar na banda. Eu fiz só uma tour como substituta no caso. Então foi uma aposta que eu fiz e foi muito boa a experiência, porque me trouxe uma bagagem de banda autoral, que até então eu não tinha tido, antes eu tocava covers. Foi bem interessante ver o funcionamento das coisas, o quão diferente é. Mas foi uma experiência muito boa e o tanto que durou foi bom e agora seguimos caminhos diferentes.

WM: Você sente que algo ficou pelo caminho nesse período, musicalmente ou pessoalmente, e que agora você quer recuperar com a banda Falchi?

JF: Na verdade, eu acho que conforme foi passando o tempo, eu fui percebendo que eu tava levando as coisas muito no automático. E eu gosto da sensação de desafios e coisas novas, então foi meio que… A hora que eu vi que eu ia perder algo, eu pensei, ‘não, calma lá, vamos dar um passo pra trás aqui e deixar eu fazer outras coisas’. Foi meio que esse o lance também, um dos motivos de eu ter saído da banda, meio que me desafiar e tocar coisas que eu realmente gosto. 

 E a gente só entende que as coisas estão indo para outro rumo quando você participa. É igual um relacionamento, um trabalho. Você precisa estar ali pra entender se é isso mesmo ou se não é. E eu fiquei um tempo suficiente para saber. Foi legal enquanto durou e agora eu vou seguir fazendo coisas que fazem mais sentido pra mim. 

WM: Depois desse lançamento, quais são os próximos passos? Já existem novas músicas ou projetos em desenvolvimento?

JF: Eu quero lançar mais coisas esse ano ainda. Eu não sei se um EP, um single, mas com certeza vou lançar mais coisas. Queremos tocar mais vezes ao vivo, fazer bastante show. E tem muita coisa para acontecer esse ano. Muita coisa! Tirando o Katatonia, tem mais shows para anunciar, e eu estou bem animada pra esse ano. Muita coisa vai acontecer. Vai ser bem legal.

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