Até hoje tenho os recortes de jornal e revistas do show do Kiss em 83. Só de pensar, meus olhos enchem de lágrimas.”

 

Antes de The Rolling Stones e The Beatles…

Por Cesar Gavin (*)

Nasci em 1969, ano do Woodstock! Graças a Deus!

Eu ainda era criança (entre 7 e 8 anos) quando meu irmão (com 17 na época) me chamou no quarto e disse: ouve isso aqui. Ligou a vitrola e soltou “Detroit Rock City” do Kiss. O interessante é que ele ficou “narrando” pra mim a introdução (me lembro como se fosse hoje). Ouvi a faixa inteira e no final ele concluiu: espera, espera que ainda não acabou. Tem o final da história… e daí veio o áudio com o acidente do carro, que contém no disco. Digamos que esse momento foi a divisão de tudo, isto é, o “antes” e o “depois”.

Mesmo garoto, comecei a ficar atento aos discos que tinham em casa. Dalí em diante, muitos virariam a trilha sonora da minha vida. E vieram Led Zeppelin, Black Sabbath, Emerson, Lake & Palmer, Joelho de Porco e Pepeu Gomes, etc. Marcou-me muito quando vi a capa do álbum “Sabbath Bloody Sabbath” (Black Sabbath). Uma mistura de erotismo com ritual satânico. Para um garoto, tudo era novidade e curiosidade.

Naquela época, comecei a frequentar os ensaios da banda de heavy metal Zero Hora e logo depois fique próximo aos integrantes do saudoso grupo Centúrias.

Meus amigos mais velhos estavam crescendo e também começaram a ouvir rock, heavy metal e hard rock. Meu primo era viciado em Bill Haley And His Comets e também me mostrava tudo dele. Meu amigo Silvio me apresentou Scorpions, Motörhead, Cheap Trick, Dust e Judas Priest. Meu coração estava tomado por tudo aquilo. Minha cabeça era feita pelo Kiss e meu dia a dia era recheado com suas canções. Eu ainda tinha alguns amigos fanáticos por esta banda como o André (vizinho de frente), Wagner e Hélio (ambos da escola). O André foi um amigo que me fez o favor de mostrar o som do Motley Crüe. Foi com ele também que tive minhas primeiras bandas. E assim fui crescendo com essa magia que a música nos proporciona.

Um dos passeios geniais que eu adorava fazer era ir à loja de discos Wop Bop (no centro de São Paulo) e ficar por dentro dos lançamentos. O primeiro disco que comprei foi o “Rock and Roll Over”, do Kiss, claro. Mas a delícia mesmo, era montar as compilações nas fitas cassete, como se fosse uma “programação musical”. Eu adorava! Na hora de lavar o carro do meu pai, eu ligava o toca fitas bem auto e ouvia Queen e AC/DC, principalmente. Eu sabia tudo sobre os integrantes das bandas, os nomes dos álbuns e músicas. Era um barato decorar tudo aquilo. Acho que comecei a pesquisar música desde essa época (das fitas cassete).

Aos 12 anos, enquanto os meninos e meninas jogavam bola na rua, eu ia assistir aos ensaios do grupo Ira, que eram realizados na minha casa. Foram dois anos entre shows, ensaios e novas composições que nasceram ali no quintal da minha residência. Músicas e sucessos que iriam preencher o repertório deles até o quarto álbum de carreira e também do primeiro disco solo do Edgard Scandurra.

Os “sinais” daquela época vieram quando escutei a banda carioca Blitz e os paulistanos do Rádio Táxi nas rádios. Fiquei louco! Pensei: o rock brasileiro está se manifestando! A música podia expandir-se!

O ano de 1983 chegou e nós, mortais, tivemos a alegria de assistir Van Halen (com abertura do grupo Patrulha do Espaço) e o tão sonhado show do Kiss. Lá estava eu, com meu irmão e os amigos Wanderley e seu irmão Mário Sérgio. Até hoje tenho os recortes de jornal e revistas editados daquele ano marcante! Só de pensar, meus olhos enchem de lágrimas. A vida era repleta de emoções!

A diversão também era se vestir de preto e ir ao extinto “Rock Show”, que ficava no Cal Center (Av. Faria Lima). O público sentava no chão e assistia no telão shows de bandas de rock. Lá eu vi Kiss, Judas Priest, Led Zeppelin e Black Sabbath.

Neste mesmo ano, o Nasi (ex-cantor do Ira) começou a me mostrar bandas punks, pós-punks e new wave como Ramones, Sex Pistols, Gang Of Four, The Police, The Jam, The B-52’s, entre outros. Do Hard Rock e Heavy Metal, eu expandi para os novos sons da época. Meus amigos permaneceram no Heavy Metal e ficaram indignados que eu comecei a “testar” outros sons na minha vitrola como The Clash, The Cure e Siuoxsie And The Banshees.

E aos 13, Edgard Scandurra me ensinou alguns acordes e aí fui estudar violão, que logo troquei pelo contrabaixo, instrumento que me acompanhou por um bom tempo.

Enquanto eu tocava com alguns amigos do bairro, tive acesso ao meio musical e artístico, tendo presenciado eventos importantes da época como, por exemplo, a estréia da banda RPM num palanque de uma praça na Vila Madalena em SP. E nesse ensejo, vi a formação de bandas como Cabine C, As Mercenárias, Smack, entre tantas outras que começavam a surgir. Nesta época frequentei locais que foram cruciais no início do rock brasileiro nos anos 80 como o Projeto SP, o Napalm, a Tifon Danceteria, o Radar Tantã, o Rose Bombom, o Radio Club, o Lira Paulistana, o Sesc Pompéia e o Programa Fábrica do Som, realizado pela TV Cultura.

Em seguida pude acompanhar os bastidores e início de bandas que viriam a se tornar as maiores do Brasil como Ultraje a Rigor, o próprio RPM, Os Paralamas do Sucesso, Titãs, Capital Inicial, Magazine, Sepultura, Inocentes, Legião Urbana e outras de importância na época como Azul 29, Voluntários da Pátria, Muzak, Nau e Agentss. Ufa! Eu só pensava em música!

Quando completei 15 anos, assisti ao Rock in Rio de casa e fiquei louco com todos aqueles “monstros” da música. Logo depois, fui estudar baixo elétrico na extinta Faculdade Marcelo Tupinambá. Era aquilo que eu queria para mim.

Quando o rock brasileiro estourou, eu gravava em VHS os programas Globo de Ouro, Chacrinha, Perdidos na Noite, Clip Clip e muitos outros. A paixão pela música somou-se a de TV e vídeo. Além disso, eu assistia a quase todos os shows internacionais que tinham em São Paulo e os melhores das bandas nacionais.

Segui tocando baixo nos circuitos alternativos de São Paulo com as bandas Bala de Prata, Roleta Russa, A Imagem do Som e Jacqueline.

Era um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones.

Em 1989, meus companheiros de banda eram mais antenados com o blues e aí fui tomado, definitivamente por The Rolling Stones, The Beatles, Chuck Berry, Aerosmith, Elvis Presley, Eric Clapton, Stevie Ray Vaughan e todo o blues em geral. Pronto! Os reis chegaram para a minha discoteca. Completou-se tudo!

Em 1991 fui convidado para trabalhar como roadie dos Titãs, banda que acompanhei por quase 5 anos. Com eles em 1993, trabalhei no disco “Titanomaquia”, ao lado do renomado Jack Endino (produtor do Nirvana, Bruce Dickinson, Soundgarden e Mudhoney).

No ano seguinte, após retornar de férias, tive a oportunidade única de substituir Nando Reis, adoentado então, em um show em Pato Branco, Paraná. Na semana seguinte seria o Hollywood Rock. Felizmente o Nando se recuperou e retornou à banda para o festival.

Logo depois fui convidado pra trabalhar no departamento artístico da MTV Brasil. Foi o ápice! E lá, eu conheci muitos artistas renomados da música brasileira e internacional como Bruce Dickinson, Ozzy Osbourne, Ronnie James Dio, Gal Costa, Rita Lee e por aí vai. Minha sensação era de desejo realizado com trabalho garantido.

Acabei largando a carreira de músico e consequentemente a de roadie. Virei produtor musical e fui trabalhar em gravadoras, com produção de discos e posteriormente em mais emissoras de TV e rádio, além de dar aulas de programação musical.

O resto, é história!

 

(*) Cesar Gavin é produtor musical e radialista. É consultor artístico da plataforma digital Dreamusic, professor do Senac e autor do blog Vitrola Verde

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Categorias: Opinião

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