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Os fãs de Rock/Metal zelam mais pela estrutura física das casas, têm mais respeito com as mulheres, proporcionam número absolutamente menor de ocorrências envolvendo drogas, procuram menos os postos médicos e geram pouquíssimas ocorrências violentas.”

por Juninho

O comportamento dos fãs de Rock n’ Roll é tema recorrente neste espaço feito pelos ouvintes do Wikimetal. Por experiência própria ao longo dos anos frequentando os mais diversos tipos de shows, percebi que os fãs de Rock/Heavy Metal em geral costumam causar menos tumulto do que o público de outros estilos musicais. E não bastando, quanto mais extremo o tipo de som em cima dos palcos, menores são as chances de problemas na platéia. Por várias vezes abordei funcionários responsáveis pela segurança em casas de shows e ouvi que “o público do Rock/Metal é o mais tranquilo de todos!”.

Obviamente você, leitor, brandará que esta é uma opinião pessoal e não reflete a realidade. Pois foi justamente querendo evitar este tipo de questionamento que no início de 2013 tive a idéia de fazer uma pesquisa com as maiores casas de shows e produtores de eventos do país. A intenção era quantificar de maneira objetiva o número de incidentes médicos e não médicos nos principais espaços destinados a eventos musicais em cada estado brasileiro.

Interação entre público e segurança no Wacken Open Air

Quanto mais extremo o tipo de som em cima dos palcos, menores são as chances de problemas na platéia.”

Comecei por São Paulo, onde fui gentilmente atendido por boa parte das casas e produtores relevantes. A opinião era uniforme, considerando o público do Rock como o melhor para se trabalhar e com a particularidade de seu gênero mais extremo, o Heavy Metal, possuir o público nitidamente mais educado dentre todos. As declarações eram repetidas: os fãs de Rock/Metal zelam mais pela estrutura física das casas, têm mais respeito com as mulheres, proporcionam número absolutamente menor de ocorrências envolvendo drogas lícitas e ilícitas, procuram menos os postos médicos e geram pouquíssimas ocorrências violentas.

As informações definitivamente confirmavam minhas impressões pessoais, mas a pesquisa infelizmente não deu certo e não pôde ser publicada. O principal motivo impeditivo foi o fato de não ter conseguido gerar números objetivos. As declarações obtidas também retratavam a opinião pessoal dos produtores/casas, que não tinham quantificadas em números as ocorrências indagadas. Somando-se a dificuldade de contactar outros locais fora de São Paulo, a ideia da pesquisa parecia ter ido por água abaixo.

Porém poucos meses após esse fracasso, uma outra oportunidade interessantíssima surgiu. Fui convidado a trabalhar no Rock In Rio. Teria como responsabilidade fazer parte da coordenação/regulação médica geral do evento e ser o médico responsável pela assistência direta a todas as bandas que lá se apresentariam. Após alguns ajustes na minha agenda, aceitei o convite e percebi que se tratava também de uma ótima oportunidade para retomar a escrita e, através de dados objetivos do evento, provar a todos que o público do Rock/Metal é positivamente diferenciado.

Durante os dias 13, 14, 15, 19, 20, 21, e 22 de setembro de 2013 a Cidade do Rock recebeu cerca de 700000 pessoas, média de 100000 por dia de evento, lotação máxima permitida pelo corpo de bombeiros do Rio de Janeiro e pela direção do festival. Um número desses é certamente inquestionável para análise de dados.

Foto aérea da Cidade do Rock no primeiro dia do RIR 2013

Problemas relacionados a drogas e violência eram muito maiores quando havia som Pop e Axé em cima do palco.”

Comecemos falando sobre a parte médica. Eram 7 postos espalhados pela Cidade do Rock, todos com capacidade plena de atender emergências, urgências e queixas de pronto atendimento ambulatorial. Registramos em nossas estatísticas todos os atendimentos que demandassem prescrições e/ou procedimentos médicos e de enfermagem. Seguindo este raciocínio, tivemos em média 1100 atendimentos médicos por dia e felizmente nenhum óbito.

Adivinhe, caro leitor, quais os dias com maior quantidade de ocorrências médicas? Pois foram justamente os dias com line up Pop e Axé. Nestas ocasiões, os atendimentos quase dobraram, chegando próximos a 2000. Casos de abuso de álcool e drogas ilícitas, violência e roubos também foram maiores, sendo que as partes prejudicadas podiam buscar, se quisessem, auxílio imediato no posto policial especialmente montado em frente à Cidade do Rock.

Os dias dedicados exclusivamente ao Rock foram os mais tranquilos. O dia 21/09 (Bruce Springsteen) foi disparadamente o mais sossegado. Tivemos cerca de 700 atendimentos. Também seguiram tranquilos os dias 22/09 (Iron Maiden) e 19/09 (Metallica), com média de 800 a 1000 atendimentos. O trabalho não era facilitado somente pela menor procura aos postos médicos, mas sobretudo pela menor quantidade de assistência a casos de abuso de drogas, violência e roubos.

Multidão em frente ao palco mundo

Tive raros e ótimos momentos de folga durante os show do Destruction e do Slayer!”

Trabalhei também conjuntamente com a equipe de segurança durante grande parte do evento. O profissionalismo era de altíssimo nível, com tecnologia de ponta. O trabalho desempenhado por eles dentro do controle de regulação (o cérebro do Rock In Rio) com uso de câmeras térmicas e de alta resolução lembrava filmes de ação de Hollywood. Perguntei aos chefes da segurança após o término do evento quais os piores e os melhores dias de trabalho. Mais uma vez as datas dedicadas ao Rock venceram esmagadoramente. Seguindo o mesmo que se viu nos postos de atendimento médico, problemas relacionados a drogas e violência eram muito maiores quando havia som pop e axé em cima do palco.

Também fui ao posto policial e conversei pessoalmente com o delegado responsável. Dentro e fora (entornos) da Cidade do Rock, as ocorrências policiais foram menores nos dias de Rock/Metal. Solicitei informal e formalmente à polícia do Rio de Janeiro os dados oficiais de números absolutos de boletins de ocorrência registrados, mas não tive retorno. Os números são incontestáveis e sou testemunha de momentos tensos ocorridos com o público do Pop e do Axé. A facilidade de trabalho com o público do Rock/Metal é incomparavelmente maior. Sem falar no fato de o público do Metal extremo realmente ser um dos mais bem comportados (tive raros e ótimos momentos de folga durante os show do Destruction e do Slayer!).

Voltei do Rock In Rio esgotado fisicamente, com um monte de histórias na bagagem, alguns sonhos de infância realizados, experiências profissionais únicas e um celular a menos. Fui assaltado dentro da Cidade do Rock enquanto trabalhava durante o show do Iron Maiden (irônico, não?!). Apesar desse último fato lamentável, sustento minha opinião sobre a positividade do comportamento do público do Rock/Metal. Um fato isolado envolvendo um ladrão (e o evento infelizmente teve muito disso!) não reflete a realidade que presenciei.

Para finalizar, gostaria de ressaltar o absoluto profissionalismo da direção do Rock In Rio, da coordenadoria médica da Humanitar, da equipe de segurança chefiada pelo competente Camilo Dornellas e do corpo de bombeiros do Rio de Janeiro. Deixo claro que fazer um festival deste porte, sofrendo os assédios que ocorrem em um país corrupto como o nosso e os contornando de maneira honesta, é uma tarefa que poucas pessoas são capazes de realizar. Parabenizo publicamente os envolvidos citados neste parágrafo.

Abraço a todos!

Juninho

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José Donizeti Costa Junior (Juninho) é médico formado pela Faculdade de Medicina da USP, especialista em Medicina Nuclear e pós-graduando em Radiologia pelo Hospital das Clínicas da USP. Acompanha o Wikimetal desde seus primórdios e colabora regularmente com textos na seção “Scream For Me Wikibrothers”. Nascido em Avaré-SP, começou a estudar música aos 10 anos de idade. Atualmente é vocalista da banda UNDERPATH. Gosta de ouvir vários estilos musicais, desde que o som tenha qualidade: “Existem dois tipos de música, a boa e a ruim!”

*Este texto foi elaborado por um Wikimate e não necessariamente representa as opiniões dos autores do site.

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