O DIA QUE CARLINHOS BROWN USOU O ROCK E O METAL PARA SE PROMOVER

Por Daniel Dystyler

“Eu sou da paz. Eu não jogo nada em ninguém, eu só jogo amor. Pode jogar o que quiser que eu sou da paz e nada me atinge”.

“Não adianta gostar de nada, quando a pessoa é ignorante, quando não tem juízo, quando não pensa, quando não raciocina”.

Ok…
Isso, todo mundo viu e ouviu.

Vimos no Fantástico e no Jornal Nacional todos os discursos inflamados de Carlinhos Brown em resposta à chuva de garrafinhas que ele levou durante sua apresentação no Rock In Rio em 2001.

O headliner da noite seria o Guns N’ Roses e portanto a platéia era composta primariamente por fãs de Rock e Metal.

Entretanto, apesar da imagem das garrafinhas voando ter corrido o mundo, a enorme maioria nunca teve a oportunidade de assistir a esse show na íntegra e entender como chegamos a esse ponto e o que de fato aconteceu neste dia.

Existe uma explicação que não aparece nas matérias editadas dos jornais que cobriram o evento na época.

Então como estamos no meio do Carnaval, me pareceu propício contar esta história… Na íntegra…

Estávamos no meio do mês de Janeiro no Rio de Janeiro e facilmente a temperatura passava dos 40 graus em quase todos os dias do Festival. Na pista, a aglomeração e a agitação das pessoas aumentava ainda mais a sensação térmica e eram inúmeros os casos de desmaios e de pessoas passando mal e tendo que ser socorridas.

A organização do evento, criou então um artifício para ajudar a minimizar os efeitos do calor no público: Mangueiras foram instaladas na base do palco, voltadas para a pista, e os bombeiros jogavam água no público para ajudar a refrescar e diminuir o calor escaldante justamente no dia que registrou a maior quantidade de pessoas do Rock In Rio III (juntamente com o dia do Iron Maiden), totalizando 250 mil pessoas.

A banda Pato Fu com seu som meio indie/alternativo já havia se apresentado sem nenhum problema ou interferência do público do Rock e Metal quando Carlinhos Brown subiu ao palco.

O show transcorria também sem problemas e já havia chegado aproximadamente à metade da apresentação, quando Carlinhos Brown decidiu que aquele seria o dia que entraria para a história como “o dia que ele usou o Rock e o Metal para se promover”.

Sem nenhum motivo aparente, Carlinhos Brown interrompeu o show e no microfone começou a solicitar aos bombeiros que parassem de jogar água no público desligando as mangueiras.

Evidentemente isso gerou um descontentamento no público e surgiram algumas vaias ao que o artista argumentou dizendo que “essas mangueiras de água estavam desconcentrando o público que não estava podendo apreciar o show em sua totalidade”. E completou dizendo “meu show é no suor”.

O show continuou e apesar do público contrariado, alguns gritando “Água! Água!” surpreendentemente ainda havia um clima de respeito, permitindo que o show seguisse adiante.

Na música seguinte, uma garrafinha foi lançada no chão do palco sem atingir ninguém. Carlinhos Brown que estava naquele corredor que passa no meio da pista, viu a garrafinha sendo lançada, parou a música, foi andando até o palco, pegou a garrafinha no chão e disse que aquilo era uma enorme falta de respeito.

E aí sim, depois de finalmente conseguir o descontentamento das 250 mil pessoas, ele posicionou-se novamente no corredor que divide a pista, local estrategicamente escolhido para que aí, e somente aí, começasse a chuva das garrafinhas, gerando as imagens que correriam o mundo e promoveriam o artista.



O resto é a história que todos conhecem com todos os veículos de imprensa e “comentaristas de plantão” condenando o público do Rock e do Metal dizendo que é um público intolerante e violento. E Carlinhos ganhou projeção internacional.

O curioso é que apesar de ser fácil encontrar praticamente todos os shows que foram transmitidos na íntegra, estranhamente este show não se encontra na rede. Só encontramos trechos editados, já do momento que o artista conseguiu tirar o público do sério. E é nesses trechos editados que podemos ver inclusive um dos discursos feitos por aquele que se diz da paz e do amor (ver nos vídeos abaixo):

“Vocês que gostam de Rock, têm muito que aprender na vida, aprender a respeitar o ser humano, a dizer ‘não’ à violência e dizer ‘sim’ ao amor, acreditem na vida. Agora o dedinho vocês podem enfiar no traseiro”.

No Carnaval do ano passado, exatamente 15 anos depois do ocorrido, Carlinhos Brown convidou Angra e Sepultura para participar de seu bloco de Carnaval em Salvador.

Talvez tenha sido uma forma inconsciente de pedir desculpas ou de agradecer ao estilo de música que indiretamente o promoveu a um patamar muito maior que ele tinha.

Sim, é verdade que garrafinhas de água jogadas pelo público do Rock e do Metal voaram naquele 14 de Janeiro de 2001.

Mas o plano de vôo foi muito bem orquestrado.





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