Decidi colocar aqui alguns clássicos da década que valem a pena serem descobertos e redescobertos por vocês”

Por Lucas Gabriel

Devido ao desgaste e os excessos criados nos malucos anos 80, o Heavy Metal, antes uma música que surpreendentemente ficou popular, entrou nos anos 90 com sérios problemas: Ele simplesmente não se encaixava mais naquela década sombria. Com o surgimento do Grunge, os olhos não estavam mais voltados praqueles cabeludos tocando pesado em meio a riffs épicos e exagerados. Era o tempo de ser mais introspectivo, de olhar para si mesmo. Era proibido solo de guitarra ou ter um visual mais afetado. É claro, isso não durou tanto como esperavam. Afinal, o mundo gira, o tempo passa e novos interesses vão surgindo.

Mesmo assim é errado dizer que foram anos perdidos, um buraco na historia do Metal. Houve sim grandes bandas, grandes álbuns.
Longe do mainstream é claro. Um erro muito cometido é achar que algo só presta (ou pior, que esse algo existiu), se vende milhões, aparece na TV ou etc. O Heavy Metal nunca precisou de apoio da mídia para sobreviver e continua firme e forte na historia como uma música transgressora que sobrevive pela paixão dos fãs e músicos. Decidi colocar aqui alguns clássicos da década que valem a pena serem descobertos e redescobertos por vocês. Algumas escolhas foram inevitáveis, mas tentei fugir do óbvio e colocar um pouco de tudo. Do mais extremo ao mais melódico. Vamos lá!

Iced Earth, “The Dark Saga” (1996)

Jon Schaffer pode até ser um cara difícil, daqueles que não conseguem manter a mesma formação da banda de um disco para o outro. Mas é inegável sua capacidade de composição e a pegada forte que ele tem na guitarra base. Sempre guiando o Iced Earth com uma postura firme e fiel ao estilo.

A ideia de gravar um disco inteiro falando do personagem de quadrinhos Spawn pode parecer estranha. Mas a qualidade músical falou mais alto nesse caso.

Matt Barlow já tinha dado o recado no disco anterior, em sua estréia no vocal com “The Burnt Offerrings”, mas é aqui que ele fincou seu lugar de destaque no grupo e a banda se consolidou.

Com músicas de estruturas mais simples, mas não deixando de ser trabalhadas, o Iced Earth conseguiu fazer um disco de alto nível que é fácil de ficar na cabeça.

Helloween, “The Time of The Oath” (1996)

Para algumas pessoas, Helloween são os dois volumes “Keppers of the Seven Keys” lançados nos anos 80 e nada mais. Respeito essa opinião. Mas muitas vezes uma parte importante da história do grupo alemão, criadores do Power Metal, é ignorada e esquecida por pura preguiça e preconceito.

Tudo bem que Andi Deris (que tinha entrado na banda no álbum anterior substituindo o marcante vocalista Michael Kiske) não tem uma voz muito característica para o Power Metal, com um estilo rasgado puxando mais para o hard (ele era vocalista da banda de hard rock Pink Cream 69 antes de entrar para o Helloween). Porém, junto com composições que misturam um pouco da malícia do Hard com o épico do Power Metal, geraram uma fórmula que deu muito certo.

Escute os clássicos Power, Steel Tormentor, Before the War, a faixa título, e irá perceber como esse álbum pode não ser conhecido como os Keepers, mas é tão bom quanto.

Paradise Lost, “Draconian Times” (1995)

Uma produção limpa que te deixa ouvir claramente cada movimento produzido no disco junto a uma execução absurdamente certeira, e envolta de músicas cativantes, com extrema qualidade e beleza. Essa foi a fórmula para o sucesso de “Draconian Times”, o álbum de mais sucesso e relevância do Paradise Lost.

O Paradise Lost foi mais uma das bandas européias, a exemplo de Amorphis e Sentenced, que começou com uma raiz Death/Doom Metal, moldando seu som até algo mais experimental e difícil de classificar, com pitadas inclusive de Pop oitentista. Sendo muito mais do que uma banda de Gothic Metal, como é normalmente classificada, já que é um estilo que ela ajudou a criar e difundir.

“Draconian Times” é um ponto no meio entre as raízes e o som que viria fazer depois. Uma espécie de mistura entre os dois que gerou um Heavy Metal pesado e atmosférico porém direto, e que continua moderno. Melancólico, belo, soturno e pesado. “Draconian Times” é um disco único.

Grave Digger, “Tunes of War” (1996)

Grave Digger é um dos pilares do Heavy Metal tradicional alemão que surgiu nos anos 80 e criaram um certo nome cult, principalmente pelo álbum “Heavy Metal Breakdown” (1984). Porém, foi apenas na década seguinte em que eles realmente se consolidaram e criaram fama, colocando seu nome junto aos grandes do Metal.

E esse álbum é um dos responsáveis por isso, os fazendo entrar de pé-direito numa década que não abria muito espaço para um som mais tradicional. Porém, o talento e qualidade musical falou mais alto e o álbum teve seu sucesso merecido, já que o Heavy Metal tradicional com pitadas de Power, é algo que é recriado de maneira estupenda aqui.

“Tunes of War” é conceitual e conta a historia da guerra da independência da Escócia. Com um som mais trabalhado e épico que os álbuns anteriores sem abrir mão do peso e melodias marcantes. Desde a introdução com gaitas fole, partindo pela direta Scotland Unitedd é uma música mais legal que a outra, não abrindo espaço para fillers. Mas se for para apontar destaques eu colocaria: William Wallace (BraveHeart), The Dark of The Sun, a bela The Ballad of Mary (Queen of Scots) e o maior hit da banda, Rebellion ( The Clans Are Marching).

The Gathering, “Mandylion” (1995)

Como o Paradise Lost, banda que eu citei agora pouco. O Gathering é mais uma banda européia que teve suas raízes no Doom/Death, até se fincar no experimentalismo quase Pop gerando assim um fator de divisão entre os fãs.

Alguns adoram as mudanças, outros odeiam. O fato é que bandas que não tem medo de experimentar nunca serão unanimidade. Mas passar despercebido após ouvir um álbum tão belo como esse é impossível. Esse terceiro registro da banda é o meu favorito e também o de muitos. Após escutar faixas com a abertura Strange Machines, Leaves e as duas partes de In Motion, fica fácil entender a razão.

Um ponto de virada que ajudou o som da banda a se moldar foi a entrada da vocalista Anneke Van Giersbergen, cheia de beleza e carisma. Sua voz encaixou perfeitamente no Doom “experimental” do disco com vocais que não exageram nos lirismos, como ficou comum e popular nas bandas de Metal com uma vocalista mulher. Anneke não abre mão de linhas energéticas e sensíveis, ao mesmo tempo envoltas da certa melancolia e peso criados pelo instrumental das canções.

Carcass, “Heartwork” (1993)

Um dos pilares criadores do Grindcore, o Carcass foi moldando seu som até chegar ao quarto álbum. Substituindo as letras gore que parecem ter saído de livros de óbitos por criticas a uma sociedade decadente, esse disco é um daqueles marcos no Death Metal em que após ouvimos sabendo sobre o panorama da época, percebemos que foi um ponto de mudança.

Com um som mais técnico e harmonioso se comparado com a dos registros anteriores, o Carcass apresentou um trabalho fincado nas melodias dos riffs pesados de guitarra, que lembram algo vindo do Heavy tradicional. Isso se firmou como uma marca do que começou a ser chamado de Death Metal melódico, praticado depois por bandas como At the Gates e In Flames.

A abertura com Buried Dreams já é atípica e mostra a mudança. O instrumental traz muito mais melodia que anteriormente, em contrapondo com o peso e os vocais guturais de Jeff Walker. Uma seqüência matadora segue com faixas como This Mortal Coil, Embodiment, No Love Lost e a faixa título. Um trabalho essencial, tanto para quem curte algo mais extremo, ou para quem quer começar a se aventurar pelo estilo.

Sarcófago, “The Laws of Scourge” (1991)

Pioneirismo, desbravamento, coragem, blasfêmia, polêmica; esses são alguns adjetivos que podemos dar ao grande Sarcófago, um dos marcos do Metal negro brasileiro.

Para alguns, a única banda que rivalizava com o Sepultura desde a época em que tocavam no underground de BH dos anos 80, para outros, um objeto de culto e adoração. Um dos primeiros nomes mundiais a se aventurar por sons temáticas e atitudes mais extremas, sendo influência para toda a cena do Black Metal norueguês que se instalou nos anos 90.

O fato é, Sarcófago é uma banda única que nunca teve medo de ir além no que consideramos pesado, tanto lírica como musicalmente. E aqui temos seu álbum mais bem trabalhado e maduro, melodioso na metida certa. Mas mantendo as qualidades da banda e sua marca, o extremismo e a feracidade.

Ao ouvirmos músicas como Midnight Queen, Screeches From The Silence, Black Vomit ou a faixa bônus Crush, Kill, Destroy podemos captar toda a fúria da banda. Num festival de riffs, solos, vocais gélidos e uma técnica não vista antes, o Sarcófago prova que é sim uma grande banda, e merece todo o reconhecimento que possui.

Fates Warning, “Parallels” (1991)

De apenas mais uma banda de Metal como outras, até provar todo seu potencial e chegar na sua obra prima, “Parallels”, o Fates Warning fez historia e ajudou a criar algo novo no Metal. Infelizmente não tem o devido reconhecimento, mas gostaria de fechar o texto fazendo justiça a essa grande banda.

Vindo de álbuns com uma pegada mais Iron Maiden, que tinham lá sua qualidade, mas nada demais, o Fates Warning foi moldando seu som para algo mais intricado, sendo considerados juntos com o Queensrÿche , os precursores e pioneiros do Prog Metal.

Mas agora você me pergunta: eles influenciaram o Dream Theater? Sim, e muito. Não apenas o Dream Theater, mas toda leva de bandas de Prog que veio depois. Todas tem uma pequena dívida com o Fates Warning.

Mas o que é exatamente o “Parallels”? Vou resumir falando que é uma mistura de bom gosto musical, melodia e uma técnica absurda usada a favor da música. Todas as viradas, quebradas de ritmo, riffs e solos estão lá por algum motivo, sendo usados para criar linhas instrumentais belíssimas em contraponto com vocais certeiros e melódicos. São tão cativantes as músicas que arrisco dizer possuem uma sensibilidade quase Pop. Sim, é possível fazer isso no Metal, com técnica, com peso, é só ter competência e criatividade. E isso aqui sobra.

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