Bon Jovi, Deep Purple, Led Zeppelin, Whitesnake e muitos outros, também são”

Por Daniel Dystyler

Não é de hoje que eu queria escrever este texto.

A ideia surgiu 6 anos atrás, quando começamos o Wikimetal e eu percebi que bastava postarmos qualquer coisa que fizesse referência a essas bandas (e muitas outras) que imediatamente recebíamos vários comentários (como se tivéssemos cometido uma heresia) do tipo:

“Desde quando AC/DC é Heavy Metal?”
“E por acaso Whitesnake com todas essas baladas é Metal?”
“Até parece que Scorpions é Heavy Metal !!!!”

A resposta, pra quem me pergunta esse tipo de coisa, é bem curta e simples:

É ÓBVIO que essas bandas são Metal.
Sempre foram. Desde a origem. Sempre serão.

Pronto. Curto e simples.

Tenho certeza que neste exato momento várias pessoas já estão coçando pra ir pra sessão de comentários e me xingar, descarregar, etc..

E tudo bem se quiserem me destruir mesmo… Mas antes, se tiverem um pouquinho de paciência, eu os convido a ler meu texto (que é bem curto). São apenas dois pontos.

O primeiro:
Ser Heavy Metal é muito mais do que gostar de um estilo de música muito específico. É um estilo de vida. É uma certa atitude contra o “normal”. É uma postura. É ir contra o status quo. É uma opção de vida. É a cultura dos excluídos. Daqueles que não participam do mainstream, do comum, dos populares. É o caminho mais difícil. Sem atalhos.

Basta ler a biografia de qualquer uma dessas bandas citadas acima, que veremos exatamente isso: Em um cenário aonde guitarras distorcidas eram abominadas, cabelo comprido era coisa de vagabundo e posturas de palco como as de um Angus, Plant, Axl ou Coverdale (só pra citar alguns), horrorizavam 96% da população que não acompanham, sabem ou entendem nada sobre o movimento do Heavy Metal, fica fácil perceber o quanto essas bandas, em suas épocas e países, sofreram pra ajudar a formar o movimento do Metal.

Nesse sentido, não interessa tanto o tipo de som da banda. Porque se formos ser puristas e nos ater exclusivamente ao tipo de som denominado tradicionalmente como Heavy Metal, teremos que excluir todos os subgêneros derivados (Hard Rock, Thrash, Hair, Death, Melódico, Nu, Speed, Power, etc) para dizer que nenhuma das bandas pertencentes a esses subgêneros são de fato Heavy Metal. Nem Metallica, nem Stratovarius, nem Dream Theater, nem Slayer, nem Megadeth. E assim ficaríamos com um número muito limitado e restrito de bandas tipo Iron Maiden, Judas Priest, Manowar e Saxon que representam o estilo musical “Heavy Metal”.

Mas intuitivamente, sabemos que tudo bem dizer que o Testament ou o Sepultura ou o Anthrax são Heavy Metal. Mas em termos de som, a distância dessas bandas para o que conhecemos como Heavy Metal talvez seja tão grande quanto a distância de um Kiss ou de um AC/DC. Umas estão acima (em termos de peso) do que conhecemos como “Heavy Metal tradicional”, enquanto outras estão abaixo (menos pesadas). Mas ainda assim distantes.

Umas estão mais perto, outras mais longe. Mas ainda assim daria pra argumentar que nem Pantera, nem Skid Row são Heavy Metal. De fato, musicalmente não são. Mas nesse contexto mais amplo, de uma cultura que perdura por quase 50 anos em todo o Planeta Terra e que portanto, representa muito mais do que um tipo de música, é claro que elas são Metal!

O segundo ponto (e prometo, último argumento), tem a ver com o contexto no tempo. Explico:

As coisas têm seu significado, dentro de um contexto. Sabe o famoso ditado “em terra de cego, quem tem um olho é rei”? É uma perfeita abstração disso. Ter (apenas) um olho pode te fazer a pessoa que menos enxerga ou a que mais enxerga. Depende aonde você está. Depende do contexto.

Como será que soava a guitarra distorcida do Angus na década de 70? Como era a reação das pessoas e críticos em relação aquele som que era uma das coisas mais pesadas da época? E a bateria do John Bonham? E os agudos do Geddy Lee? Os cabelos do Bon Jovi ou a postura de palco do Ian Gillan? Afirmo: Tudo isso era muito Metal em cada uma de suas respectivas épocas!

Como será que foi noticiado o 1o. Rock In Rio em 1985? Não sabe? Ok.. Eu ajudo:


“ROCK PESADO – Whitesnake, Ozzy Osbourne, Scorpions e AC/DC foram as estrelas da noite de Heavy Metal da primeira edição do Rock in Rio.”

Reparem as expressões:
– Rock Pesado.
– Noite do Heavy Metal.

Não é a noite do Rock N’ Roll, nem a noite do Hard Rock. É a noite do Heavy Metal!!! Com Whitesnake, Scorpions e AC/DC!!!!

E o mais importante (e fundamental pra este texto):

Ninguém, ABSOLUTAMENTE NINGUÉM, questionava isso! Ninguém achava errado essas bandas serem consideradas Heavy Metal!! Porque à época (dentro do contexto), elas de fato estavam entre os maiores representantes do Heavy Metal!

Em 1985, não haveria a menor dúvida que essas bandas eram/são Heavy Metal.

E atenção: Considerando que elas praticamente não mudaram seu estilo até os dias de hoje, não temos porque concluir que elas deixaram de ser o que sempre foram: Bandas de Heavy Metal. PONTO FINAL.

Outras matérias sobre o dia que essas bandas tocaram no Rock In Rio de 1985, podem ser vistas no vídeo abaixo que diz:

“Noite de Heavy Metal foi uma das mais agitadas do festival”

“A noite de Heavy Metal do festival registrou uma movimentação diferente. Vestidos de maneira bem peculiar, os metaleiros chegaram cedo à Cidade do Rock e fazendo muito barulho. Alguns já esperavam a abertura dos portões desde às 6h.”

Não existia a menor possibilidade na época de alguém escrever pros veículos que noticiaram as matérias acima questionando “Heavy Metal? Desde quando Scorpions é Heavy Metal???”

Mas hoje, as pessoas acham que é normal duvidar disso… De alguma forma, o AC/DC, que faz o mesmo som desde que foi fundado, deixou de ser Metal pra enorme maioria das pessoas.

O Scorpions, também! O que é um enorme absurdo uma vez que todos os relatos do início da cena Metal na Alemanha nos anos 70, trazem o Scorpions como figura central desse movimento e uma das principais referências.

O Kiss em 1983 no Brasil é outro exemplo: Se de um lado, fomos assolados pela ignorância da mídia na época, por outro lado, olhando os relatos, matérias e notícias, fica muito claro como era senso comum que o Kiss (na época) era considerado, tanto pela imprensa ignorante como pelos fãs de Metal, como uma banda de Heavy Metal. Exemplos que não deixam a menor sombra de dúvida:

No show do Rio de Janeiro os fãs eram abordados nas redondezas do Maracanã com um panfleto que dizia “Jovem, se você quiser ser uma pessoa livre , liberte-se das garras de Satanás. Com o Kiss, eles dizem que você deve se tornar adepto dessa Sociedade Internacional do Rei Satã“.

A matéria na Folha de São Paulo trazia em destaque “Um Pastiche de Missa Negra”. O texto dizia que o som da banda era um “dirty noise indistinguível, distorcido, de timbres desagradáveis”.

Pra terminar:
Além desses meus 2 pontos citados acima (que obviamente todo mundo tem direito de concordar ou não), resta uma coisa muito importante:

Resta cada um se perguntar, o que é melhor pra gente? O que nos interessa? O que é melhor pra essa comunidade que briga tanto para que o Heavy Metal seja mais respeitado em um país que não nos dá o menor crédito, espaço ou respeito?

É melhor a gente se dividir ou se agrupar? É melhor fazermos que nossa cena fique “menor” dizendo que AC/DC ou Kiss não são Metal? Ou é melhor nos deixar mais representativos, com mais força, com mais bandas, algumas inclusive com representatividade no mainstream como o Scorpions?

Então antes de encher o peito e postar por aí que “o Guns não é Metal” ou “desde quanto AC/DC é Heavy Metal?”, vale a pena pensar um pouquinho primeiro se isso de fato é verdade no contexto histórico e da longevidade dessas bandas e de tudo que elas tiveram que passar em uma época aonde qualquer drive na guitarra era considerado uma coisa do demônio.

E por favor, não se engane: Não ache que ao me escrever “AC/DC não é Metal” você está me fazendo algum favor ou me contando algo que eu não sabia ou tenha percebido… Eu conheço todos os álbuns do AC/DC, em que ano foram lançados, a formação, a ordem das músicas, as letras… Idem pro Kiss, Whitesnake ou qualquer uma dessas bandas lendárias que ajudaram a construir o movimento do Heavy Metal.

Eu sei exatamente a “quantidade de Metal” que existe em cada disco, em cada música e sei comparar perfeitamente com o último álbum do Kreator (que por sinal é espetacular). Mas também sei colocar isso em perspectiva, no contexto, no tempo e na história do Metal.

E o mais importante de tudo:
Acho que todos devemos pensar o que essa divisão e segmentação causa. O que isso nos traz de bom e de ruim. E como podemos ajudar a construir uma cena mais forte.

Alguns acham que me escrever “desde quando o Deep Purple é Metal?” vai me causar algum tipo de epifania ou revelação.

Não vai.

A epifania ou revelação vai acontecer quando essas pessoas perceberem quão bom será abraçar o passado glorioso dessas bandas que lutaram tanto pelo Metal, incluí-las no movimento e nos ajudar a criar, aqui e agora, uma cena Heavy Metal mais forte.

Essa é a nossa batalha.

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