Os irmãos se apresentaram em Porto Alegre

Texto por: Rust Costa Machado
Fotos por: Daniela Cony

Domingo, 4 de novembro, final do feriadão de finados, nada mais apropriado do que revisitar o Sepultura neste merecido descanso após uma apocalíptica semana pós-eleições. Para aquela noite, estava sentenciada a volta dos irmãos Max Cavalera e Iggor Cavalera à capital gaúcha. O evento reuniu, ao longo da José do Patrocínio, uma enorme fila de fãs das mais variadas tribos.

Em mais uma passagem dos músicos pelo Bar Opinião, eles agora promovem Beneath Arise 89/91. Era, o melhor recorte possível de sua carreira enquanto membros do Sepultura, banda que fundaram há mais de 3 décadas. Difícil dar errado, e de fato não deu: até o design do antigo logo do Sepultura foi reapropriado pelos Cavalera, consolidando visualmente o espírito da noite.

Os acertos começaram pela apresentação da Diokane, encarregada pela abertura da noite. A banda porto alegrense é formada pelo vocalista Homero Pivoto Jr., profissional nos bastidores de diversas bandas que passam por Porto Alegre; o guitarrista Rafael Giovanoli, tatuador consagrado e membro da formidável In Torment; o baterista Gabriel ‘Kverna’ Mota e o baixista Duhduh Rutwoski.

Dentro da sonoridade ‘crust’, a banda reassimila o death metal com muita qualidade, unindo a pegada de grandes nomes, como Morbid Angel e Asphyx, com a objetividade e pungência e agressão sonora do lado mais violento do punk. É fato que o death metal já não assusta mais ninguém, mas diante de um padrão estético repleto de lugares comuns, como inovar sem abandonar as raízes? O Diokane faz isso muito bem, trazendo uma postura mais à vontade, dialogando com o público, tocando com prazer, dedicação, mas sobretudo brutalidade.

Cena rara para uma banda de abertura, o quarteto foi muito bem recebido pelos presentes já ao final da primeira música, “The Light that Make Us Blind”, que foi seguida de “Descreditado”. É fato que, somado à impressionante coesão dos sons, a atitude de palco de Homero – que chegou a descer para o público, ofertando uma excelente dose de entrega na cara dos presentes –, voltada para o punk/crossover, somada a sua boa comunicação e ao afetuoso anúncio da presença de seu filho pequeno na plateia, tudo isso caiu no agrado da galera. Porém, foi mesmo nos vocais rasgados que o frontman se destacou, em vários momentos lembrando aqueles lamentos guturais produzidos por Martin Van Drunnen ou Chuck Schuldiner em seus dias de glória.

As composições da banda também supreenderam, de maneira crescente, oscilando entre simplicidade estrutural, talento para quebras de andamento e riffs cortantes, sintéticos e de bom gosto. A banda se despede com “Days of Summer”, mas não levará muito tempo para que o som da Diokane se torne mais popular nos circuitos undergrounds mundo a fora, especialmente após o vindouro debut EP, anunciado para logo, segundo as redes sociais da banda.

Os irmãos Cavalera subiram ao palco pouco depois das 21h com a missão de detonar a poderosíssima dinamite do passado, propondo um set dos sonhos para qualquer fã do legado do quarteto mineiro. Eleitos Marc Rizzo (guitarra) e Mike Leon (baixo) para completar o time, ambos músicos do Soulfly de Max, o repertório ressuscitou as melhores faixas dos grandes álbuns de death/thrash da banda, os sacralizam esta turnê Beneath Arise.

O sentimento é complexo: ao mesmo tempo que as obras dispensam apresentação, é preciso combater o desejo de, mais uma vez, trazê-las à luz, explorá-las, apreciá-las, revivê-las. Beneath the Remains (1989) e Arise (1991), muito se diz, guiaram os holofotes de uma cena de metal extremo bastante consolidada no hemisfério norte, para este exótico país que recém dava adeus aos anos de chumbo. O Sepultura virou uma das maiores bandas de metal extremo de todos os tempos, referência a todos os grandes nomes do thrash e death metal, e o resto é história. Mas olhar com minúcia para além das narrativas: esse é o mérito dos irmãos Cavalera, que no palco tem a oportunidade de passar da capo os detalhes de arranjos enredados, extensos e poderosíssimos, tudo debaixo de uma cozinha rápida, técnica e violenta.

O repertório é irrepreensível, já que foram resgatados os grandes destaques de ambos os álbums. A intro de “Beneath the Remains” soa nos PAs, e a partir daí não tinha mais volta: a largada se dá por esta faixa-título, além de “Inner Self” e “Mass Hypnosis”, com os riffs marcantes, entoados pelo público nas partes melódicas, sem polimento e sem malabarismos. “Stronger Than Hate” trouxe uma belíssima finalização no baixo sob uma iluminação bastante favorável. “Bah, tchê! Tamo em Porto Alegre”, disse Max em franco contentamento com a lotação da casa. Em “Slaves of Pain” e “Primitive Future”, o Bar Opinião pareceu particularmente atiçado, com rodas permanentes ao longo das canções.

Como previsto, o segundo ato ficou a cargo dos clássicos presentes em Arise, iniciando com o chamado do vocalista: “I see the world…”. O público completou a lacuna e recebeu uma das grandes favoritas da noite. O set seguiu com “Dead Embryonic Cells”, em sua sequencia de riffs devastadores. A pergunta “Are we here?” introduziu “Desperate Cry”, muitíssimo bem recebida pelos presentes. “Altered State” ganha um tratamento especial em sua cadência atmosférica, preenchida por folleys sinistros de selva que ajudaram a delinear a identidade da banda nos anos 90, isso em meio a uma variada demonstração de guturais. “Infected Voice”, apesar do pedido por um mosh pit, revelou que os presentes estavam hipnotizados pelo quarteto, não-raro deixando a violência dar lugar à contemplação dos músicos.

A partir daqui, o tributo ao passado virou baile: “Orgasmatron”, clássico do Motorhead que foi redefinido pelo Sepultura, levou os presentes ao delírio. De quebra, Max abandona a guitarra e guia banda e público pelas notas ainda mais familiares de “Ace of Spades”, também do lendário trio de Lemmy Kilmister. A banda deixa o palco, e para o grand finale, reservara nada menos que um top 3 de hinos oriundos de outros álbums da discografia: “Troops of Doom” (Schizophrenia, 1987) reviveu os vocais mais ‘podrera’ da primeira fase da banda, “Refuse/Resist” (Chaos AD, 1993) mais uma vez trouxe a casa a baixo, e por fim a esperada “Roots Bloody Roots” (Roots, 1996) encerrou a festa com chave de ouro, lavando a alma dos fãs, claramente satisfeitos.

Após as despedidas, a banda fecha os punhos para um medley que recupera a proposta da turnê, integrando trechos das já executadas “Beneath the Remains”, “Arise” e “Dead Embryonic Cells”, como que para beliscar a carne do fã mais incrédulo.

O quarteto deixa o palco ovacionada por urros de gratidão e respeito. O absurdo nível de exigência das levadas deste setlist serviram para reafirmar Iggor Cavalera como o grande baterista que é, mas com certeza é a figura e reputação de Max que permanece incólume frente a passagem das décadas. O artista faz jus ao respeito que carrega, introjetando o espírito do underground e respirando a estrada que, independentemente de onde lhe guie, nunca esconde de onde ele veio. Que elas possam trazer os Cavalera de volta a Porto Alegre, pois não há dúvidas de que o público estará lá.

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