Confira uma resenha do novo álbum do Metallica, “Hardwired… To Self Destruct”, que será lançado no dia 18 de Novembro:

“Hardwired… To Self Destruct” é um belo álbum, com músicas bastante boas que poderiam estar em qualquer um dos melhores discos da banda”

Por Caio Maia

Romário nasceu em 1966, Bebeto, em 1964. Em 85, com 19 anos, o Baixinho marcou 11 gols em 21 jogos no Cariocão. No ano seguinte, fez 20 gols em 25 jogos. Em 1985, Romário era rápido, muito rápido. Bebeto também era. Em 1985, era possível comparar Bebeto com Romário. Era possível achar até que Bebeto jogava mais do que Romário. Em 1985, ambos eram rápidos, explosivos. Em 86, eram rápidos e mais habilidosos. E assim vamos, até que em 1994 Romário ganha a Copa do Mundo tendo em Bebeto um importante coadjuvante, e é eleito o melhor jogador do mundo. Sem a mesma rapidez, sem a mesma explosão, mas jogando muito mais do que em 1985.

Em 1981, Lars Ulrich e James Hetfield eram rápidos, muito rápidos. Eram explosivos. Eram bons pra cacete. Mas sabiam fazer menos coisas do que em 1993. Seek and Destroy é pior que Enter Sandman? Na minha modestíssima opinião, pelo contrário. Mas em 1983, o Metallica não poderia ter tocado Enter Sandman. Assim como, dez anos depois, não poderia continuar compondo Seek and Destroy. Se “Master of Puppets” é o Brasil de 1982, o “Black Album” é o de 1994: para os puristas, não está entre os melhores, mas ganhou o título. Catapultou o Metallica ao posto de maior banda de rock do mundo, do qual a banda não saiu desde então.

A analogia perde um pouco de força por aqui porque o torcedor não quer saber como saiu o gol, só quer que ele saia. O fã, porém, é conservador, cria uma ligação emocional com a banda, com o som. Ele talvez prefira que seu ídolo não aprenda nada, que continue tocando aquilo que o emocionou no começo. Ele vai com o ídolo até um ponto. Depois ele quer de volta sua explosão, seu entusiasmo. Ele quer Romário ultrapassando o zagueiro com a camisa do Flamengo. Ele quer Lars destruindo a bateria e James e Kirk destruindo a guitarra. De novo.

“Ei, o que vocês estão esperando?”, pergunta Lars Ulrich ao entrar no estúdio. O grupo de jornalistas deve ter mais ou menos umas 30 e poucas pessoas, e o estúdio está arrumado como uma sala de estar, mas com as cadeiras sutilmente voltadas todas para o mesmo lado. Ulrich pergunta de onde as pessoas vêm. “Alguém da Dinamarca?”, pergunta. O repórter dinamarquês se identifica, e trocam algumas palavras em dinamarquês. Em seguida, o mesmo acontece com o repórter sueco.

O baterista parece pouco à vontade, e pergunta ao empresário algumas vezes o que mais ele tem que dizer. Para quem tem o primeiro contato com ele não dá pra saber se ele é apenas tímido com pessoas que nunca viu na vida ou se está achando aquilo tudo um saco e só quer mesmo é sair dali rápido.

“Tirando a faixa título e Moth Into Flame, o que há neste álbum é peso, guitarras densas e músicas mais sinistras”


“Diga onde foi gravado o disco”
, orienta o empresário. Ulrich conta que o disco foi inteiramente gravado em São Francisco, no HQ, estúdio da banda – é o primeiro trabalho da banda a ser gravado inteiramente lá. E que ficou pronto há treze dias. “Provavelmente há mais gente nesta sala do que pessoas que ouviram esse álbum até hoje”, diz. Ele dá uma olhada na lista de músicas e comenta: “Vocês estão com a ordem certa, então. Fiz uma coisa desta vez que nunca tinha feito antes: mudei a ordem das faixas na última hora. O vinil vai sair com a ordem diferente do CD e do digital porque já tinha ido para a fábrica,” explica. Não diz “nós mudamos”, note-se, mas “eu mudei”.

Hardwired… To Self Destruct tem doze músicas – na versão Deluxe tem um disco a mais, de material já lançado anteriormente e que não foi apresentado. Esta é a ordem das músicas:

Tracklist:

Disco 1
1. Hardwired
2. Atlas, Rise!
3. Now That We’re Dead
4. Moth Into Flame
5. Am I Savage?
6. Halo On Fire

Disco 2
1. Confusion
2. Dream No More
3. ManUNkind
4. Here Comes Revenge
5. Murder One
6. Spit Out The Bone

No geral, “Hardwired…” é um álbum pesado, mas não muito rápido. Quem esperava algo mais parecido com os primeiros Metallica teve que esperar bastante, até a última música. Spit Out The Bone é, na (reitero) humilde opinião deste escriba, a melhor música do álbum. Uma porrada, pesada, rápida do início ao fim, e ao mesmo tempo original. Tirando a faixa título e, de certo modo, Moth Into Flame, o que há neste álbum é peso, guitarras densas e, como descreveu um espanhol sentado ao meu lado, músicas mais sinistras. (Esse espanhol antes de começar a audição explicava para a colega que Metallica e AC/DC fazem parte do grupo de cinco bandas que definiram o Heavy Metal, então convém desconfiar.)

Podemos dividir as músicas do álbum em grupos: no grupo “velocidade”, Hardwired é uma porrada rápida; Moth Into Flame é uma porrada um pouco mais elaborada e longa, assim como Spit Out The Bone. Here Comes Revenge aparece nas anotações como “guitarra pesada, depois acelera”. Gostei da música, até aquele momento a melhor das que eu ainda não tinha ouvido, mas não sei dizer se entra na categoria porrada. Da mesma forma, Confusion agradou, e a anotação foi “pesada, não tão lenta“, seguida por um “bem Metallica, bem boa”.

No lado “músicas estranhas” entram Atlas, Rise e Now That We’re Dead, sobre as quais falo mais abaixo, e ManUNkind, a única em que o baixista Robert Trujillo também aparece como compositor – as outras são todas só de Hetfield e Ulrich. E na categoria “pesadas”, basicamente todas as outras: pesadas, lentas e desiguais. Dream No More é boa, mas não espetacular, assim como Halo on Fire, que melhora no final. Am I Savage é boa, mas arrastadas, podia durar menos. E Murder One provavelmente é a melhor das mais pesadas, com um começo melódico que é a única coisa puramente melódica do disco todo.

“É um álbum que faz valer os anos de espera.”

É bastante difícil comentar um álbum depois de ouvir ele pela primeira vez, e sem poder ouvi-lo de novo, principalmente se você, como eu, faz isso pela primeira vez. Embora eu tenha tomado notas, no final da décima-segunda música as impressões sobre a primeira infelizmente já não são tão claras. A sensação geral do álbum, porém, é: “Hardwired…” é um belo álbum, com algumas músicas bastante boas e que podiam estar em qualquer um dos melhores discos da banda. O resultado, porém, é um pouco desigual, pelo menos para o meu gosto – e isso é muito importante.

Estavam comigo na sala mais três jornalistas brasileiros. No intervalo entre os dois discos, um e outra mencionaram Atlas, Rise e Now That We’re Dead como as músicas que mais tinham gostado. Foram as duas que eu não gostei. “Atlas…” é uma música presa, não flui, não evolui, além de ser muito longa. E Now That We’re Dead é bastante estranha. Não parece Metallica, mistura uma guitarra base pesada, à la Black Sabbath, com algo mais leve, quase pop. O resultado é esquisito. Mais para o final, a bateria de Ulrich parece ter sido substituída por uma bateria eletrônica. Não é uma música fácil, e até por isso pode ser que uma segunda ou terceira audições mudem minha percepção e opinião.

A primeira vez que eu ouvi “St. Anger”, achei uma droga. Fiquei dois anos sem ouvir de novo, até ouvir de novo “sem querer” e perceber que, ainda que não seja um álbum brilhante, é um trabalho sólido e bem resolvido. “Death Magnetic” demorou umas duas ou três ouvidas para entrar na playlist de todo dia. “Hardwired…” está mais para “Death…” do que para “St. Anger”, inclusive no que se refere à duração de algumas músicas, que podiam ser mais curtas. É, porém, um álbum que faz valer os anos de espera.

Mais de 30 anos depois do início, o Metallica está à vontade fazendo o que faz, e faz isso cada vez melhor. O entusiasmo, a explosão, nunca vão ser as mesmas, até porque a novidade que existia em “Kill Them All”, por exemplo, era ainda melhor porque era novidade. Todos os discos da banda, porém, inclusive os que não estão entre os melhores, estariam entre os dez melhores de praticamente qualquer outra banda.

“Hardwired…” não é um dos melhores discos do Metallica, mas provavelmente será um dos melhores discos do ano. É muito impressionante que, 30 anos depois, Ulrich, Hetfield e Hammet ainda consigam produzir música dessa qualidade e relevância.

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