Clássicos do Pantera revivem os dias de glória do vocalista

Na última terça-feira de janeiro, 29, devia estar uns 36 graus quando a van de Phil Anselmo e seus Illegals encostou na Lopo Gonçalves com a José do Patrocínio. O músico vem ao Brasil assumir e mostrar nova banda, o segundo disco e um repertório enxuto, mas foi com os clássicos monumentais do Pantera que o vocalista abriu espaço para reconquistar a confiança dos fãs.

Phil Anselmo e sua trupe subiram ao palco às 21h pontualmente. O tempo parece não ter passado para o vocalista, que estava magro, careca e fisicamente saudável (quem conhece o histórico do vocalista sabe que nem sempre foi assim) . Acompanhado dos Illegals, o bando iniciou com o repertório próprio, chutando o balde com o peso de “Little fuckin heroes”, um portfólio do range vocal de Phil Anselmo sobre tons ininteligíveis de riffs e andamentos. A faixa, um death metal mais intenso do que se pode imaginar, cresce bastante criativa e no final convence de que tem o que mostrar musicalmente.

O público recebeu o som de peito aberto e ovacionou o vocalista no final: “Phil! Phil! Phil!” Que Porto Alegre teria casa cheia para o vocalista de uma banda da importância do Pantera, disso ninguém duvidaria, mas foi especialmente maravilhoso ver o Opinião lotado de gente aplaudindo uma banda tão ignorantemente agressiva. Phil Anselmo se mostrou grato a todo momento pela devoção do público, e disparou: “a música dos Illegals é extrema; eu sei que vocês não conhecem, mas é mais extrema que qualquer som por aí”.

Na sequência, com “Choosing Mental Illness”, viria para comprovar as palavras de quem urrava guturais super rasgados e abafados com sobre uma quantidade absurda de notas, bumbos e crust, enquanto “The Ignorant Point”, descrita por Phil como “sinistra, hedionda e horrorosa”, misturava black metal com e grind core, uma sonoridade poluída o bastante para confundir qualquer um. De fato, a música dos Illegals, escorada na figura de Phil Anselmo, coloca-se nesse lugar de questionar, na prática, o que se entende por “som pesado” hoje pra quem vem de uma geração clássica. Ainda que o público parecesse razoavelmente intrigado com a truculência nos PAs, a turma das primeiras filas estava gostando do que via.

A primeira música a pincelar a trazer os grooves do Pantera foi “Walk Through Exit Only”, que fez o público cerrar os punhos cima. A escolha pareceu propícia para fechar o set das ‘autorais’, voltar ao disco um dos Illegals e ainda fazer a transição para o que, sabia-se desde o princípio, era o momento mais esperado da noite. Phil pega um caixote à altura de sua cintura, mas mal deu tempo de se especular tragédias, o motivo parecia ser simplesmente que Phil precisava daquela caixa pra escorar a perna enquanto canta Pantera.

As primeiras notas de “Mouth for War” despertaram um outro nível de atenção e entrega, de banda e público, no bar Opinião. Por um segundo, o som parecia vir decibéis mais baixo nos PAs: vim a concluir, depois de um momento, que era o fato destes sons estarem muito ensaiados e em cima. Mas não era só isso: era a voz do público que fazia frente e somava ao som do palco. Os fãs impressionaram ao cantar a música palavra-por-palavra.

Ninguém mais ficou parado com o desfile de épicos: “Becoming”, com simplificações para as partes mais intrincadas do atemporal Dimebag Darrel, e “This Love”, sem dúvida um dos pontos altos da noite (mas podia ter sido “Cemetery Gates”). Do som do Bar Opinião, digam o que disserem, estava impecável.

Neste ponto (convenientemente, com o público nas mãos), Phil Anselmo resolve apresentar os Illegals, e pede que o público, a partir deste ponto, passe a gritar pelo nome do conjunto ao invés do dele. Sem delongas, a banda puxa a ode à violência gratuita “Fucking Hostile”, embora a roda que se tenha se formado mais parecesse brincadeira de crianças grandes.

Phil anuncia sem convencer que “Hellbound” será a última da noite. É nesta que o artista vem conduzindo um medley por clássicos do Pantera. Aqui se viu uma transição com o final emblemático de “Domination” encaixando em “Hollow”, que fecha a primeira parte do set. Com as palmas e berros dos fiéis, Anselmo pede para que levante a mão “quem virá se os Illegals voltarem”, em plena campanha por sua nova banda. A banda deixa o palco rapidamente, como que por formalidade.

São os gritos de “Illegals! Illegals!” que trazem a banda de volta, para tocar, a toque de recolher, a mais apropriada de todas: “Walk”, para óbvio deleite generalizado. Por fim, “Broken” encerra o ótimo show de Phil Anselmo no Opinião, contra as expectativas dos problemas ocorridos em SP 3 dias antes.

As impressões gerais: Phil Anselmo calçou as sandálias da humildade e parece tentar reconstruir sua história. Ele é um artista que pertence à casta das lendas de um gênero, de um estilo vocal consagrado, mas que teve a infeliz ideia de queimar seu filme e instaurar a sensação de desconfiança geral. O artista prova que cantar bem não protege ninguém de ser um idiota (como ele próprio se reconhece, em entrevista exclusiva concedida à press da Abstratti, produtora deste show em Porto Alegre), mas que qualquer idiota tem o direito de tentar progredir e aprimorar. Se seguir grato e respeitoso com o público como mostrou-se em Porto Alegre, e ainda fazendo música pesada, viva e audaciosa como mostrou, é possível que Phil Anselmo ainda viva dias de arte, dignidade e respeito para poder pagar suas contas.

Texto por: Rust Costa Machado
Fotos por: Daniela Cony

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