“O jeito que eu toco é, honestamente, um reflexo de mim mesmo. Eu gosto de me desafiar criativamente a inventar várias partes diferentes para as músicas e fazê-las desafiadoras para tocar”. Assim Neil Peart descreveu seu estilo de bateria em uma entrevista de 2005, publicada pela primeira vez agora, depois de sua morte, pela Loudwire.

Peart morreu na última terça-feira, dia 7, depois de uma exaustiva batalha contra o câncer.

Pensar no estilo musical de Peart como um reflexo de sua personalidade, com diversas partes diferentes dentro de uma música, traz uma certa noção de como era a sua vida no geral. Considerado membro da trinca de maiores bateristas da história, ao lado de John Bonham e Keith Moon, Peart se diferenciava ao compor uma vida com partes específicas e diferentes entre si.

O baterista entrou para o Rush em 1974, depois da banda já ter lançado seu primeiro álbum. Na ocasião, o som dos caras era um hard rock muito inspirado no Led Zeppelin, sem muita personalidade. Aparentemente, foi mesmo a entrada de Peart que fez a banda tomar outras direções.

A química com o baixista e vocalista Geddy Lee e o guitarrista Alex Lifeson evoluiu a música do Rush para um rock progressivo. E, aí sim, com muita personalidade. Neil Peart basicamente construiu um novo conceito de tocar bateria, misturando o rock e a agressividade do jazz de Buddy Rich, a música erudita e as composições milimetricamente calculadas.

Assinaturas de tempo atípicas, mudanças frequentes de ritmo e precisão mecânica são algumas formas de descrever a bateria de Neil Peart. Sem ele, o Rush continuaria sendo uma banda underground canadense.

Outro diferencial, ou melhor, outra parte de sua vida, era o fato do músico ser o principal compositor da banda. Nem por escolha dele, mas porque os colegas de banda realmente não tinham nenhuma vontade ou interesse em compor as letras das músicas. O lado filosófico passou a aparecer, com discussões filosóficas, letras sobre a aleatoriedade da vida, ficção científica ou a inspiração em um livro de Mark Twain, do século 19.

Como o próprio Peart descreveu, depois de superar a obsessão pela bateria, pelos estudos técnicos, o músico quis conhecer o que o baterista Bill Bruford chamou de “a vida além do chimbal”. Ele começou a ler muita ficção e não-ficção, aprender coisas novas e se instruir. Tudo isso aparece muito nas letras que escreveu.

Essa aura intelectual fez com que a banda, nerd por essência, ganhasse fãs extremamente apaixonados. Alguns deles, nomes como Mike Portnoy, Dave Grohl, Trent Reznor e outros tantos.

Em 1997, porém, Peart perdeu a filha em um acidente de carro e a esposa, no ano seguinte, para o câncer. Aí entra a parte da crise, que ele contou no livro Ghost Rider: A Estrada da Cura. Em uma viagem de moto pela América, o baterista se redescobriu. Casou-se com a fotógrafa Carrie Nuttall e, em 2001, voltava ao Rush para gravar o álbum Vapor Trails. Em 2002, gravava um show para 40 mil pessoas no Maracanã, o Rush In Rio.

Influenciando bandas como Tool e Coheed and Cambria, o Rush se tornou uma daquelas banda queridas e lendárias. O último registro de estúdio, Clockwork Angels, ainda mostrava um grupo antenado e disposto a arriscar a todo momento. Muito graças ao estilo e a vida Neil Peart, que soube viver além da música e, ao mesmo tempo, refletir suas vivências nas baquetas que tocava.

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