No dia 1º de junho, o IRA! teve um retorno certamente triunfal nos olhos de críticos e fãs, ao lançar Ira, primeiro disco de inéditas da lendária banda desde 2007, com Invisível DJ.

O Wikimetal teve o prazer de conversar com o vocalista do IRA!, Nasi, sobre o passado, presente e futuro da banda, da música, e também da democracia.

Wikimetal: O disco Ira é o primeiro álbum de inéditas da banda desde 2007, com Invisível DJ. Pensando no processo criativo de criar um álbum, o que você acha que mudou desde então, e o que ainda se mantém?

Nasi: Olha, nós somos da geração do álbum, agora estamos na geração do singles, das plataformas digitais. Então nesse sentido a gente ainda pensa no trabalho musical como uma obra completa, a gente viu acabar o vinil, e vimos agora o retono do vinil, não como no auge da indústria fonográfica, mas o vinil voltou como uma nova forma do artista poder fazer seu trabalho. Então a gente ainda pensa nesse sentido, pensamos esse disco como uma coleção de músicas que possui um estilo homogênio em que as letras, os arranjos conversam entre si, então isso é um disco ainda pra gente, ainda somos uma banda de rock que fazemos isso, nesse ponto não mudou.

Nesses 13 anos que o IRA! ficou sem lançar disco, você tem que levar em consideração que ficamos 7 anos separados então isso também tira metade desse tempo. Sem falar que a gente voltou e lançamos um trabalho que foi o Ira! Folk, que de certa forma não foi um trabalho inédito, mas já foi um capítulo de um novo IRA!, né? Tudo isso contribuiu pra gente não tivesse tanta pressa de mostrar mais uma novidade, já que hoje somos artistas independentes, nós não temos a pressão de cumprir um contrato, então nós temos a liberdade de criar uma coleção boa de músicas para os nossos trabalhos.

WM: Por que, nesse ponto da carreira de vocês, veio a vontade de lançar um álbum auto-intulado?

N: Ah, tem várias razões! Primeiro a gente se perguntou por quê não, né? Todas as bandas praticamente tem um disco homônimo, né? Legião Urbana, The Who, Black Sabbath, Led Zeppelin, geralmente é o primeiro disco, é verdade, mas como é uma nova fase do IRA!, uma nova formação. Esse foi um ponto, o primeiro ponto.

Segundo ponto, porque acho que reflete, não o sentimento do disco total, mas tem umas músicas mais iradas, mais políticas. Mas é um reflexo sobre o nosso tempo, vai ao encontro da capa que a gente escolheu também, mas a gente vive um momento de crise, de conflito, de confronto no mundo. Então pra gente é como se fosse um retrato de uma época.

E também tem um detalhe mais esdrúxulo, vamos dizer assim, que nós somos muito fãs do The Who, né? Talvez seja a maior influência do IRA!, e a gente percebeu, com a maior coincidência, que o The Who lançou agora no começo do ano, o décimo segundo disco autoral deles, e também é o décimo segundo nosso, assim como nós eles estavam há treze anos sem lançar nada, e o nome do álbum é Who, ou seja! (risos) E aí entrou o lado de fã também, vamos chamar o nome desse disco de Ira também.

WM: Pensando então nessa nova fase do IRA!, quais seriam as principais influências do novo disco?

N: Olha, eu acho que já teve discos experimentais do IRA!, que flertou com a música eletrônica, com a cultura hip-hop, tiveram releituras de grandes músicas populares brasileiras, e nesse disco, e também é um motivo pro disco se chamar Ira, a gente procurou ser mais IRA! possível. No sentido, de ser quase auto-referente, e quem conhece nossa música sabe que vão ter canções com pegada no estilo mod, a cena dos anos 60 inglesa, tem músicas com uma pegada mais punk, pós-punk, tudo nessa onda que foi uma grande fase do IRA! E também tem o lado mais lírico, mais romântico, as baladas, canções que falam sobre amor. Então eu diria que o que a gente tentou, não sei se deu certo, mas o que apareceu pra gente nesse momento, não foi não procurar nenhuma grande modernidade ou nova referência, foi só ser o mais IRA! possível.

WM: Uma das canções do disco que mais me chamou atenção é “Mulheres Na Frente da Tropa”, que é uma música linda com um clipe tão lindo quanto. Quais foram as motivações de vocês ao fazer uma música dessas nesse momento?

N: Olha, não que essa discussão sobre o combate ao feminícidio, violência contra mulheres seja uma pauta de agora, mas no tempo que a gente vive, e a gente teve uma grande preocupação de não se apropriar de uma pauta alheia, sabe? Isso é uma luta das mulheres que os homens tem que apoiar, e eles tem que aprender a ser cada vez mais solidários e menos machistas funcionais. Todos homens, todos nós somos [machistas funcionais], outros mais, outros menos. Então isso é uma necessidade principalmente dos tempos que a gente vive. E principalmente agora que estamos vivendo um retrocesso, a gente viu tanta coisa importante acontecendo nos anos 60, 70, até a década de 80, contracultura, direitos civis, luta contra o racismo, e parece que em menos de cinco anos isso tudo se pulverizou, em um mundo extremamente cada vez mais voltando para narrativas fascistas, autoritárias, neo-nazistas. Isso foi grande uma inspiração.

E acho que dá pra ver pelo clipe, o caso da Marielle Franco nos emocionou muito, porque por trás do caso da Marielle Franco, porque é um caso muito emblemático pois também não foi só um feminícidio, foi um atentado político, por ela ser uma militante esquerda, uma militante feminista, e uma mulher negra. Então, o John Lennon escreveu uma música em que ele diz que a mulher é o negro do mundo, então isso, pra gente, no caso dela, foi muito… como é que eu diria… foi muito emblemático sobre tudo que tem pior do mundo, não foi só uma violência contra uma mulher, era uma pessoa negra, uma pessoa militante de esquerda, então foi um crime político, um feminícidio, e um ato de racismo. Então todo esse caldo acabou sendo condensado em uma música que a gente se permitiu falar em nome das mulheres. Eu repito pra você: a gente não quer se apropriar de pauta alheia.

WM: Vivendo em um Brasil tão polarizado políticamente, como está sendo a resposta do público sobre a música?

N: Tá sendo muito boa! Quer dizer, infelizmente a gente não tá podendo ir fazer shows e sentir isso de uma maneira mais pessoal. Mas, quando a gente acaba um disco, por mais que a gente esteja feliz com ele, você está tão envolvido que por mais satisfeito que você saía, confiança, como nós estávamos, falando ‘esse foi à altura dos nossos melhores discos’, mas a gente não sabe exatamente como isso vai chegar para os jornalistas, para os fãs que se manifestam nas redes sociais. E a gente tá super feliz porque talvez seja um dos trabalhos mais unânimes até agora, que eu vi do IRA!, todos os princípais veículos, jornais que geralmente são mais chatos como Folha, Estadão, Globo, por serem grandes veículos eles tendem a serem mais chatinhos, vai (risos). E todos eles deram elogios máximos, e eu no meu Instagram todos os fãs que me acompanham, todos muitos emocionados. Então a gente tá muito satisfeito, só começou a divulgação agora, mas os primeiros sinais que a gente teve todas tão sendo excelentes.

E pra gente, nessa altura do campeonato, é uma banda que vai completar 40 anos, tava há 13 sem lançar um disco novo, pra gente também tem uma responsabilidade que a gente tenta fugir desse peso. Essa história de que não tem mais nada pra eu falar, isso não existe. Na verdade você pode ter tido grandes discos, ganhado prêmios, um disco ruim nessa altura do campeonato sentencia você. Então essa nossa volta não poderia ser feita de qualquer jeito. A gente tinha que mostrar que o IRA! tá muito bem vivo.

WM: Essa produção e lançamento do disco feita de modo tão cuidadoso foi, de alguma maneira, alterada devido à pandemia?

N: Olha, a produção do disco não, Pétala, a gente gravou o disco ano passado, fizemos a mixagem no final do ano,e saímos de férias e não tínhamos a intenção de lançar o álbum do Natal até o Carnaval, porque é um período em que as pessoas estão muito dispersas, e tal. Voltamos para alterar algumas coisas na mixagem, gravei algumas coisinhas na voz, demos uns tapinhas em algumas mixagens, e ai, depois disso, com datas marcadas para o lançamento foi quando aconteceu toda essa tragédia. Então agora estamos vendo como vão ser os planos dessa tour, na melhor das hipóteses, no final do ano, novembro, dezembro, se a gente não tiver uma nova onda.

WM: E você, de certa forma adiantou minha última pergunta! (risos) Uma pergunta um pouco agridoce sobre quais são os próximos planos do IRA! depois que toda essa situação que estamos passar.

N: É, nosso plano atual é ficar vivo! (risos) E não é uma coisa que depende da gente, nem que as autoridades de maneira responsável ou irresponsável liberem atividades públicas, a gente não sabe como o público vai reagir à isso. Pra você ter uma ideia, nós temos shows sinalizados pra setembro, em uma boa parte em praça pública. Agora te dizer que eu vou chegar em setembro e eles vão falar que vai pra outubro, que vai pra novembro, então estamos nesse compasso de torcer só, e recomendar ao público, ouça bastante o disco, decore as letras, pra quando a gente poder estar junto de novo!

WM: Nasi, foi um prazer enorme falar com você!

N: Igualmente, Pétala. Seu nome é de verdade ou é apelido? (risos)

WM: É apelido! Mas já tá tão difundido entre meus amigos e no trabalho que acho que já virou nome agora. (risos)

N: Nome artístico então, um bom nome pra cantora! (risos)

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