Todo mês de junho, é celebrado o Mês do Orgulho LGBTQ+, e em 28 de junho, é o dia oficial da comemoração, por ser o início das revoltas de Stonewall, o grande marco para a libertação da luta e direitos LGBTQ+ nos Estados Unidos e no mundo.

Com o passar dos anos, muito tem se falado da comunidade LGBTQ+ no mundo. No mundo do entretenimento e das artes, mais ainda. E, fora exceções, as abordagens tem a ver com direitos, liberdade e acabar o preconceito que essas pessoas sofrem. Falar sobre grandes artistas do rock e metal que sejam parte da comunidade, no entanto, ainda não é um costume desses gêneros, reforçando o pensamento que música pesada é feita somente para homens heterossexuais. 

Talvez quem mais tenha feito os fãs com tal pensamento repensarem sua opinião foi o Metal God, Rob Halford. Já pensou que aquele que chamamos de Deus dentro do gênero é um homem gay? Um grande artista que usa sua voz para falar sobre sua comunidade, e aconselhar pessoas ao redor do mundo que tenham se sentido como ele, escondendo sua sexualidade ao estar em um ambiente tão opressor? 

Halford se assumindo em 1998 pode ter sido uma surpresa desagradável para alguns, fazendo com que o artista sofresse homofobia por sua sexualidade. Mesmo assim, Rob e o Judas Priest continuam sendo um dos maiores nomes do metal de toda a história. Mas o que acontece quando um artista “mortal” se assume em um país com uma das mais altas taxas mundiais de assassinatos contra LGBTs como o Brasil? 

O guitarrista Vini Castellari, do Project46 (que estará hoje no The Wikimetal Happy Hour), já havia assumido sua sexualidade para os amigos, família, banda e fãs. Mas, em 2015, uma entrevista para o G1 viralizou o fato de um artista do metal brasileiro ser assumidamente gay, característica muito rara dentro do gênero. A partir disso, Castellari se tornou mais do que um grande artista, e sim, uma figura que representa muitos, citando como inspiração a cantora transsexual Linn da Quebrada

“Esse negócio do ‘armário’ no metal, no nicho, existe um conservadorismo muito grande (…) O que eu posso fazer é perdoar essas pessoas que tem uma mente fechada que às vezes pode até ter algum conflito com ela mesma, por isso que incomoda alguém bem resolvido. E acho que a melhor forma de passarmos uma mensagem é sermos nós mesmos, não adianta falar e não fazer”, diz o guitarrista.

“Eu sou uma pessoa que já deixei de ser muitas coisas, e vou deixar de ser futuramente de ser muitas coisas, e eu acredito que esse lance é uma parada de que a vida é muito maior do que isso, sabe? Não é um estilo musical, uma cor, não é uma vestimenta, né? Tem um lance da sexualidade, tem um lance de gênero, então quando eu dei minha entrevista no G1 eu não tinha todo o conhecimento da comunidade, então depois inserido fui conhecendo outras vertentes, outros estilos, outras vivências, você vai aprendendo. Meu namorado, por exemplo, é não-binário, então eu fui entender o que é ser não-binário, trans, o que é ser uma travesti, uma lésbica. (…) A mente fechada faz com que o preconceito aflore muito mais, independe de quem está falando… eu não tô pedindo pra que ninguém goste, não tô pedindo a aprovação de ninguém, é aceitação, as pessoas precisam aceitar, respeitar, essa é a base de qualquer relacionamento.” 

O artista ressalta e agradece o acolhimento do público com sua sexualidade, e fica feliz com isso principalmente para quem é fã do Project46, pois, com isso, os fãs podem entender a razão das letras da banda abordarem assuntos como viver sua verdade, não se negligenciar. 

Além da sexualidade, o guitarrista agora usa sua voz para outra questão: a dependência química. Vini passou os últimos cinco meses em uma clínica de reabilitação, em que, em suas palavras, foi a melhor atitude que ele já tomou na vida dele, e pretende compartilhar e ajudar os outros com sua experiência. 

“Nós temos historicamente não só no metal mas em todo mundo, pais de família, temos muito heróis não só na música mas em muitas áreas que morreram por conta da doença da adicção, que foi o que eu descobri dentro da comunidade terapêutica que eu fiquei nesse cinco meses”, afirmou Castellari.

“Esse processo foi libertador, ele é só um alicerce, é um ínicio de uma recuperação diária, e então eu consegui aprender muito mais sobre mim mesmo. Nós vivemos em uma sociedade em que tudo é muito corrido, muito imediatista, muito a pronta-entrega, e a vida é muito maior do que isso. (…) No passado eu consegui momentaneamente uma solução temporária, porque eu não tinha conhecido uma programação que ajuda no processo que é uma irmandade anônima, salva milhões de vida no mundo inteiro, sem fins lucrativos e dentro dessa CT eu tive a oportunidade de conhecer. Foi um processo muito importante, por mais que seja doloroso, difícil você abrir mão de tudo que você tem em volta, mas você não tem você mesmo, não dá pra dar valor às outras coisas.” 

O artista também ressalta o fato de sair de um isolamento para outro, na quarentena, mas estar usando esse tempo antes de voltar à vida real para perceber e a agradecer às coisas da vida que realmente importam. Aconselha também, na medida do possível, quem puder usar o tempo para olhar para dentro de si e se conhecerem para quando voltarem para o mundo exterior, estarem preparados, como explica mais a fundo em um vídeo no canal do Project46.

Apesar do hiatus do Project46 no começo do ano, entrado em consenso devido à internação de Vini, a banda está alimentando suas redes sociais frequentemente e lançando novidades, inclusive a versão em inglês do último álbum inédito do grupo, TR3S unindo mais fãs mundialmente através da língua inglesa. E, em breve, um registro da apresentação da banda no festival Knotfest do ano passado estará disponível para a felicidade dos fãs. 

Mas a jornada de carinho e acolhimento do público em relação à sexualidade de Vini, que ressaltou reconhecer que, por ser em suas palavras “um gay heteronormativo”, não sofreu ofensas como outros membros da comunidade sofrem diariamente. E a experiência de Castellari e da cantora transgênera Föxx Salema, vocalista da banda que leva seu nome, se diferem exatamente aí. 

A artista natural de Bragança Paulista que segue lutando, desde o ano passado com o lançamento de seu primeiro álbum de estúdio Rebel Hearts (mas não se engane, Föxx está no metal há muito mais tempo que isso, amando o gênero desde criança, graças à influência de um primo, e tocando há anos), ameaças, xingamentos e até boicotes de páginas e portais de metal brasileiro, como conta em entrevista. 

“Alguns veículos de comunicação especializados no metal, o que pra mim foi uma surpresa, me boicotava primeiramente por eu ser uma ativista com um posicionamento político de esquerda, digamos assim, e consequentemente, pra mim foi mais surpreendente, foi que começaram a acontecer ataques virtuais grupais e especificamente desdenhando à minha transgeneridade. Eles passaram do aspecto político, digamos assim, e foram pro campo pessoal (…) consequentemente eles também desdenharam do álbum, e isso ainda ocorre. Em 2020 eu ainda tenho que lidar com isso. Em contrapartida, eu também recebi o apoio de muita gente no público e também da mídia especializada. (…) Estou colhendo bons frutos e consequentemente chegando à pessoas que sejam LGBTs e que gostam de metal, então eu virei uma porta-voz, uma representante para essas pessoas. E pra mim isso é do caralho, saca?”

Apesar do imenso preconceito que sofre, Salema não desiste de sua paixão: a música. Tendo como seu maior ídolo o grande Andre Matos e influenciada por diversas sub vertentes do metal, em 2019, seu primeiro disco foi eleito como um dos melhores por diversos portais de música pesada, inclusive pegando o sétimo lugar na lista de melhores do ano na Roadie Crew. 

Föxx também está planejando para um futuro próximo, seu primeiro single em português, e quem sabe produzir um EP ou o segundo álbum mesmo com a distância da quarentena, aproveitando que agora possui uma formação estável de sua banda, feito inédito para a cantora, que suspeita que os ataques que vem sofrendo na Internet tenham dificultado manter e convidar músicos para se juntarem à ela. 

Mas para se manter firme, Föxx conta principalmente com o apoio de fãs e do marido e tecladista de sua banda, Cleber, encontrando força e carinho.

Ao encontrar naqueles que a amam incentivo para continuar a seguir seus sonhos na música, Föxx e Vini se encontram. Apesar de suas experiências e orientações sexuais diferentes, como dois grandes artistas no metal brasileiro que estão fazendo história em serem expoentes em deixar o metal mais aberto, inclusivo, convidativo e, consequentemente, mais metal ainda.


Para apoiar à comunidade LGBTQ+, e grupos em necessidade durante a pandemia, Vini Castellari e Föxx Salema recomendaram algumas ONGs, confira abaixo:

Casa 1 

Cellos Contagem MG 

MLB MG